
– Mas agora ele está fazendo terapia…
– É, tá ganhando tempo.
O ano é algo entre sete e dez anos atrás. Em um bar qualquer, com uma amiga querida que eu não via há, talvez, ainda mais anos. Era uma daquelas noites frias e chuvosas porto-alegrenses, em um dia de semana. Falávamos sobre relacionamentos pouco afetivos, quer dizer, nossas desventuras. Reza a lenda – a memória dela – de que naquela noite eu teria dito essa resposta que, segundo ela, a ajudou a sair de um enrosco afetivo com um cara supermanipulador.
Quatro anos atrás, quando ela me lembrava do feito, eu confesso que fiquei surpresa, especialmente porque realmente acho que tive a felicidade de acertar no talo. É que ela estava ótima. Sou responsável por isso? Claro que não, processos e mérito dela. Contudo, na minha vida pessoal, também lembro de uma frase de um amigo que me salvou. Tipo um bote salva-vidas num lamaçal denso. Dessa vez, não era uma frase interpretativa, mas de acolhimento. Algo tipo assim: tu estás numa empreitada muito cansativa… [Tradução livre: tu tá na merda!] E seguia: “Na minha opinião, tu deverias sair disso, mas, se resolveres ficar, estamos juntos também.
Não costuma ser fácil sair de um relacionamento, ainda mais se ele é tóxico ou abusivo. Terapia e análise ajudam muito, entre inúmeros outros motivos, porque vamos construindo uma narrativa que, na distância, nos faz redimensionar e fluir melhor nas escalas do irrisório ao trágico. No entanto, no aqui e agora da vida acontecendo, costuma ser com as boas amizades que contamos para jogar louros ou tomates enquanto a cena acontece. Ou ainda, para sair da plateia e nos dar assistência em vez de assistir.
Com a minha amiga, a coisa é curiosa, porque, sendo ambas da área psi, o mais automático é vibrar de entusiasmo quando alguém diz que vai para a terapia. Só que concluímos que, naquele caso, aquela terapia era golpe. Como algumas vezes digo às e aos terapeutas e analistas que supervisionam comigo sobre os famosos casos dos que buscam terapia para deixar tudo exatamente no mesmo lugar. Como diz o meme: é raro, mas acontece com frequência. Aquele tratamento que serve socialmente como desculpa para o sujeito declarar que está fazendo algo para mudar. Ou ainda, que serve como uma certa moratória na qual o sujeito barganha com o seu entorno, ganhando tempo enquanto faz outros perderem tempo.
Nessa linha, o tratamento serve também como desculpa para seguir fazendo as mesmas bobagens. Fica uma coisa assim, tipo igreja; o camarada faz as bandalheiras, mas depois vai lá, pede perdão e fica por isso. Pronto pra outra!
Como profissionais, é claro que podemos chegar a torcer esse pepino. Como a repetição é parte do nosso métier, é evidente que sabemos que as coisas levam seu tempo. Então, não se trata de pressa, mas de certa atenção. Por sorte – e, por meio de muito trabalho – algumas vezes acontece de esses tratamentos que se iniciam com fanfarronice ganharem uma direção mais ética. Mas, na dúvida, quem avisa amiga é: cuidado com o golpe da terapia.