
“Se eu tivesse sido de fato honesto comigo mesmo, teria visto bastante claramente em meu coração que pouco sabia do quanto havia me comprometido com uma viagem tão longa, sem sequer ter uma vez posto os olhos no homem que seria seu ditador absoluto tão logo o navio zarpasse rumo ao mar aberto. Porém, quando um homem suspeita de algo errado, às vezes acontece de ele já estar de tal modo envolvido com a questão que tenta insensatamente esconder suas suspeitas de si mesmo. Foi assim que aconteceu comigo. Não disse nada e tentei não pensar em nada.”
Herman Melville, Moby Dick, 1851. Palavras de Ishmael (Capítulo 20)
O ar da manhã, após uma leve garoa, corta o rosto de quem caminha a passos largos. Tudo começa num domingo, quando sai para fazer uma escolha. Reafirma mentalmente que isso não vai mudar em nada o que virá. Está decidido. Um fato que não tolera alternativa; sua resolução é seguir adiante, irredutível.
Estranha que a névoa se adense a cada metro em direção à orla. Ao passar pelo porto, vê uma cena — e, de repente, o ranger das madeiras e o cheiro pesado de sal e óleo de baleia arrastam o olhar para dentro das páginas de um livro, como quem mergulha em uma lembrança que já não lhe pertence, mas da qual não consegue escapar.
O vapor do mar envolve o casco escuro do Pequod. Marinheiros içam os últimos barris em silêncio sob a luz fraca do alvorecer quando percebem a figura esquálida de Elijah, que surge entre os montes de cordames, apontando um dedo trêmulo para aqueles dois viajantes.
— Os senhores já assinaram? — pergunta ele, a voz rouca cortando a brisa matinal. — O contrato de caça às baleias? Colocaram de fato os seus nomes naquele papel?
— Assinamos — respondeu Ishmael, ajeitando a bolsa nos ombros enquanto Queequeg observa a cena em silêncio. — Assinamos para a viagem no Pequod. Mas o que o senhor tem a ver com isso?
— Nada, nada… para mim não importa — diz Elijah, soltando uma risada seca que ecoa pelas pedras do cais. — Mas vocês já viram o Capitão Ahab? Viram o homem com os próprios olhos?
— Ainda não. Disseram que ele está recolhido, mas que estará a bordo antes de zarparmos.
— Recolhido… — repete o velho, dando um passo à frente. — Quando esse capitão estiver em mar aberto, vocês verão o que significa estar recolhido. Sabem da cicatriz que lhe rasga a cabeça até o pescoço? Sabem do que aconteceu com a perna dele no último cruzeiro? Ou do que ele fez lá em Manila, quando cuspiu no fogo sagrado?
— O senhor fala como um louco — corta Ishmael, tentando esquivar-se. — Ele é um capitão de respeito.
— Respeitado, sim. Mas a alma daquele homem já não pertence a este mundo — murmurou Elijah, recuando devagar para a névoa. — Vocês se vincularam a ele. Que o céu os proteja… se é que ainda há proteção para quem pisa naquele convés.
O homem desaparece entre as sombras do porto.
Nosso personagem segue, alheio aos avisos, pisando o cais até apertar o botão e confirmar sua escolha. Num sobressalto, um apito agudo confirma o destino — registrando a sua inconformidade, o seu protesto, o anti-número arremessado contra a ordem do mundo.
Está feito, diz para si, satisfeito. E ri dessa rima inconsequente. Está consumado.
Só bem mais tarde lembrará novamente a fala de Ishmael.
Aquelas anotadas por Herman Melville em Moby Dick.
Mas será tarde.