
O que é um sociólogo ou um historiador conhecido? É um sociólogo ou historiador conhecido de outros sociólogos e historiadores! O confinamento universitário aceito por uma imensa parte de nossos intelectuais fez com que o papel de esclarecimento, de proposição, de reflexão crítica que outrora eles exerciam fosse transformado numa corporação “mutualista”: eu leio o que meus pares escrevem, eles eventualmente leem os meus artigos, em geral escritos em linguagem inacessível ao comum dos homens, de relevância social duvidosa e, pior, escritos apenas para que possamos nos manter respirando no atual regime de produtividade acadêmica.
Mas claro que nem sempre foi assim. Grandes intelectuais como Marx, Nietzsche e Freud ou passaram longe ou tiveram relações superficiais com as instituições universitárias. O próprio termo “intelectual”, surgido com a denúncia de Émile Zola sobre a conspiração que incriminou o Capitão Dreyfus (1906), exprimia uma nova atitude dos escritores: o “intelectual”, agora, era alguém que usava sua pena para defender causas sociais e até se engajar politicamente. Palestras públicas para pessoas leigas, artigos em jornais de grande circulação, cafés filosóficos e literários, debates radiodifundidos e, mais tarde, o uso da televisão, tudo isso apontava para o que Kant chamou de “uso privado da Razão” – a expressão de uma opinião pública independente da instituição a que se pertence -, defendendo aquilo que consideravam como tendo um valor “universal”, como a liberdade ou a dignidade humana.
Sartre foi o nosso “último intelectual” e foi comum, entre a Guerra da Argélia e os eventos de 68, flagrá-lo distribuindo panfletos em porta de fábrica. Entre nós, um Mário de Andrade, um Gilberto Freyre ou um Ariano Suassuna sustentaram ao longo de suas vidas a ideia de que caberia ao intelectual traduzir para o homem ordinário as teorias de que eram autores ou defensores no domínio da cultura, daí as inúmeras palestras públicas que proferiram e que tiveram efeitos decisivos na forma como, por exemplo, entendemos nossa brasilidade cultural.
Mas, lá pelo final dos anos 60, o valor que porventura poderia ter o universalismo dos conceitos, a transcendência que os padrões elevados de cultura poderiam proporcionar (o que a cultura dita “popular” também é capaz de fazer) ou a possibilidade de sairmos de nosso paroquialismo foram duramente contestados: a “diferença”, o multiculturalismo, o “imperialismo” das pretensões universalistas, as “polilógicas”, as “descolonializações” (com suas “epistemologias do sul”) depositaram as últimas pás de cal no intelectual. Michel Foucault, que quase se transformou, no Brasil, no Santo Padroeiro da Seita do Cuidado de Si, foi um dos que contribuiu para a proclamação do fim do “intelectual universal” em detrimento do “intelectual específico”, lutando por causas “regionais”: qualquer embaixador do universal não passaria de um embusteiro sem legitimidade nem mandato. O interessante é que os foucaultianos se tornaram verdadeiramente “específicos”, ou melhor, especializados… na obra do próprio Foucault!
A reclusão universitária dos intelectuais expressa um tempo que não acredita mais em transcendências, tempo confinado ao presente, utopicamente apático, tempo em que a demissão intelectual vem acompanhada de seu corolário moral: a vida do espírito reduzida a um rasteiro narcisismo acadêmico.
Todos os textos de Flávio Brayner estão AQUI.

