
O que é
Já escrevi uns 190 textos para esta plataforma desde que a Sler começou, em 2020. Na época em que topei o convite do nosso editor Luiz Fernando Moraes, eu andava interessado em explorar o formato do ensaio, mais até do que o da crônica. E foi o que fiz ao longo de boa parte desse tempo, tensionando a exploração intelectual de algo que me deixava curioso com a apresentação, no subtexto, de algumas opiniões que tenho. Às vezes eu descobria a opinião no próprio exercício da escrita, o que, eu sei que vão me dizer os meus seis ou sete qualificados leitores, é o propósito mesmo do ensaio como gênero literário, sei disso. Mas fui um repórter durante boa parte da minha vivência no jornalismo, e, quando tive a opinião solicitada, foi no âmbito da cultura, já que passei os últimos anos de minha passagem pelas redações como setorista da área de Cultura, então o exercício de expressar opiniões ainda era uma estranheza para mim no começo.
Gostei de ter explorado esse tipo de texto como compromisso semanal, mas não sou um Luis Fernando Verissimo (quem é, aliás?) que possa iluminar uma página com uma pequena ficção sustentada apenas em diálogos, então o que escrevo aqui é fruto de alguma pesquisa para que mesmo minhas opiniões mais disparatadas tenham alguma solidez de base. O mundo já tem gente demais espalhando achismos provenientes de algum lugar onde o sol da razão nunca brilha para que seja necessário mais um.
Vivi nesse tempo algumas experiências interessantes. Por vezes, quis falar apenas de alguma coisa que me havia ocorrido no fruir diário de algo, e acabou que alguns desses textos anteciparam algumas discussões. Outras vezes, quis seguir a pauta jornalística da semana e tive certa dificuldade porque, no mundo em que vivemos, a semana não tem mais “uma” pauta, mas sim umas duas ou três por dia, então, quando eu finalmente terminava o texto, o bonde da atenção coletiva já havia partido para outras tretas mais verdejantes.
Já disse em alguma outra coluna passada (esta aqui especificamente) que talvez minhas opiniões e temas estivessem se repetindo. Vivendo em Porto Alegre, por exemplo, já escrevi muito sobre a cidade, sobre como seu planejamento urbano parece direcionado a uma única fração de sua população, a que tem dinheiro, sobre como os desastres sociais da cidade passam despercebidos depois de uma semana, sobre problemas da imprensa. Sobre a imprensa, aliás, escrevi muito por duas razões: 1) por anos, convivi com os bastidores da produção de notícias, então sabia muito bem como as coisas funcionavam e 2) a imprensa tem muitos problemas – alguns deles parecem ter se intensificado nos últimos anos.
O que será
Bom, o fato é que já escrevi sobre muita coisa nestes últimos seis anos, e cheguei ao limiar de uma compreensão: ninguém que seja consciente dos limites de sua própria inteligência tem opinião sobre tanta coisa assim. Por isso eu volto a temas que já conheço, porque não sou cara de pau o suficiente para sair dando opinião a rodo sobre coisas das quais sei pouco e não me dediquei a pesquisar durante algum tempo. Sei que sou raridade nesta era da opinião massificada, mas prefiro me manter assim por enquanto. Já estou velho demais para aumentar minhas chances de fazer papel de idiota (se você quiser interpretar que, com essa frase, estou insinuando que a maioria dos que dão opiniões em toda parte são idiotas, eu não disse isso – embora haja uma probabilidade estatística de que seja verdade, ainda assim não foi o que eu disse – eu estou, na verdade, afirmando que quem dá opinião sobre o que não sabe embasado em nada mais do que as vozes da sua cabeça é um completo idiota, e essa opinião sustentarei até o fim).
Daí que andei sentindo agora, anos depois dessa empreitada, a me dedicar aqui neste espaço a um tipo de texto que eu vinha fazendo também neste nosso encontro das quintas-feiras, mas de modo mais esparso: falar de livros e de literatura.
Sabe aquelas perguntas meio bobas que fazem no Twitter, como se viessem diretamente de um questionário passado em caderno no Ensino Fundamental? Uma delas costuma ser: “cite um assunto que você poderia falar por mais de uma hora de imediato e sem preparação”. Para mim, a resposta é clara: literatura. Eu vivi entre livros boa parte da minha trajetória jornalística, eu ainda os leio bastante, eu até participo de alguns deles às vezes. Tenho uma carreira acadêmica errática, não no meu campo de graduação, o jornalismo, mas na literatura, para a qual escrevo aqui e ali alguns ensaios de molde acadêmico que vêm me dando muito prazer criar.
Assim, eu me dei conta de que não é a melhor coisa nem para mim nem para vocês, meus seis ou sete leitores qualificados, que eu esteja sempre tateando em busca de um entendimento dos mesmos temas quando eu poderia fazer textos melhores sobre outros tópicos, dentro do mundo dos livros. Eu também leio muito mais do que tenho espaço para escrever a respeito, e sei que o espaço para resenhas e críticas diminuiu drasticamente na grande imprensa, então é mais a isso que quero me dedicar doravante. Não é uma mudança drástica, já fiz alguns desses textos aqui na Sler nos últimos anos, apenas agora quero fazer deles meu foco.
E lá de vez em quando, se acossado pela necessidade de emitir mais uma opinião sobre alguma coisa nova, vou fazer isso também. Só publico este texto esta semana para deixar avisado que esse será nosso direcionamento futuro. Livros, livros a mancheias, livros que quase não tínhamos em casa numa cidade sem livrarias. Deus nos livro. Livrai-nos do mal, etc.
Sejam bem-vindos à nova fase deste espaço.
Não tão diferente assim da fase antiga, imagino, mas isso vamos descobrir juntos.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.

