
Lembram-se os meus ilustres seis ou sete leitores dos vários momentos ao longo deste nosso flopado Século XXI em que algum otário elitista se viu em palpos de aranha (deem um Google, crianças) ao afirmar nas redes sociais, com uma espontaneidade limítrofe ao sincericídio, sua desilusão com o fato de que o aeroporto estava “parecendo rodoviária”?
O primeiro caso de grande repercussão de que me lembro foi o de uma professora universitária em 2014. Escandalizada com o traje considerado por ela demasiado informal que um homem trajava no saguão do Aeroporto Santos Dumont, a mulher publicou uma foto “roubada” do sujeito (gíria do nosso jargão jornalístico para uma imagem clicada sem que a “vítima” perceba) com um comentário escrito (eram ainda tempos de Facebook): “Rodoviária ou aeroporto?”. Não me lembro com exatidão qual era a vestimenta do sujeito para ter causado essa manifestação, penso que fosse bermuda, chinelo havaianas e – talvez – uma camiseta regata, mas desse último detalhe não tenho certeza.
O comentário viralizou e o próprio retratado apareceu para dar seu lado da história – demonstrando que o julgamento superficial da mulher era classista e preconceituoso, o homem era um advogado e procurador de uma cidade do interior de Minas Gerais e voltava de uma viagem de turismo internacional. Como quem tem rede social tem medo, a mulher imediatamente apagou a postagem, mas gerou outras manifestações tão lamentáveis quanto, incluindo a do então reitor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, (UNIRIO), que, ao comentar a indumentária por demais informal que vinha testemunhando nos aeroportos, lamentou que “o glamour acabou”.
Você acreditaria que depois de um caso desses ter ocorrido e gerado a repercussão que gerou, a professora teria cumprido o papel de canário na mina, apontando os fumos tóxicos de uma área perigosa, mas uma coisa que podemos sempre confiar é na ignorância de nossa elite econômica avessa ao conhecimento histórico. Em 2019, quase como se estivéssemos em um looping temporal de ficção científica, a modelo Ticiane Pinheiro e a mulher do Didi Mocó em pessoa –Lilian Aragão – fizeram comentários semelhantes com pouco tempo de diferença, novamente reclamando da “falta de etiqueta” de gente que tomava o aeroporto usando bermuda e chinelo. E de novo a comparação seguiu a mesma fórmula. “Aeroporto está parecendo rodoviária”.
Associação imediata
A associação entre viagens aéreas e uma pátina de sofisticação e riqueza existe praticamente desde o estabelecimento da aviação comercial como a conhecemos – aliás, como se pode ler no livro O Crime do Bom Nazista, de meu amigo Samir Machado de Machado, a noção de uma viagem aérea como uma bolha de status privilegiado não está atrelada apenas aos aviões, já que a trama se passa em 1933, a bordo de uma viagem de Zepelim entre a Alemanha e o Brasil – uma linha aérea que de fato operou no período. Embora o transporte comercial com aviões já operasse, o Zepelim, fruto da avançada tecnologia amanhã, era vendido como “o futuro das viagens aéreas”, destinado a um público sofisticado e que poderia pagar. Aliás, parte substancial do impacto do livro se dá no contraste constante entre o status dos passageiros, figuras de elite econômica e intelectual – e seus posicionamentos abertamente vinculados ao ideário nazista (expressas, aliás, com frases textualmente ditas por personagens do nosso tempo, mostrando que esse tipo de podridão ideológica não se perdeu no tempo e segue ativa). Retrocedendo ainda mais no tempo, vemos que “o balonismo era percebido como um ousado esporte de cavalheiros, algo que apenas os ricos e os privilegiados poderiam bancar”, como escreve Walter J. Boyne em seu livro The Influence of Air Power Upon History (“A influência do poder aéreo sobre a história”). Resumindo, durante boa parte do século XX, os céus pertenceram aos ricos – não apenas o Zepelim era a criação de um aristocrata alemão como o nosso “herói da nação” Santos Dumont – alguém a quem até hoje concedemos a simpatia dedicada aos injustiçados pela falta de reconhecimento internacional de seu nome como inventor do avião – era filho de um engenheiro e membro da alta burguesia agrária brasileira.
Mas quando se pensa hoje na ideia cristalizada da aviação comercial, nove entre dez vezes o que vem à mente é uma imagem construída em um período posterior, na expansão da aviação civil que se segui à II Guerra Mundial. É aí que as viagens aéreas representam um dos marcos distintivos inegáveis entre os bacanas e a patuleia. Em termos pragmáticos, as viagens aéreas operam com uma lógica que não só ainda persiste como se amplificou: você está comprando tempo. O avião não tornou lugares acessíveis, ainda existiam navios, transportes por terra, ferrovias, ele oferecia a possibilidade de chegar lá incomparavelmente mais rápido. Além de tudo, a própria natureza exclusivista do serviço permitia oferecer um serviço considerado de “alta classe”, cujos elementos, reais ou estereotípicos, plasmaram-se na imagem das viagens aéreas que são citadas pelos saudosistas até hoje: poltronas espaçosas, atendimento especializado por comissárias e comissários de maneiras impecáveis, refeições dignas de um jantar diplomático, os melhores uísques. O que acho curioso é que muitos que hoje lamentam o fim desse status quo jamais o viveram, dado que o auge desse tipo de operação comercial se deu, provavelmente, antes de eu nascer, e eu já tenho mais de 50…
Elementos simbólicos
À medida que as viagens aéreas se tornaram mais frequentes, outros elementos bastante simbólicos foram se agregando a elas. O fato de que mais pessoas estavam viajando com a expansão do serviço e a criação de aviões menores e mais rápidos, não apenas os super ricos ou executivos de multinacionais estavam viajando. Para atrair novos consumidores sem perder seus fregueses mais tradicionais, a aviação comercial transformou a divisão de classes em modelo de negócios com a criação da “classe turística”, que se diferenciava da “primeira classe” não apenas em preço, mas em diversidade de serviços e de acomodações. Com esse modelo arraigado de negócios vendendo exclusão como diferencial de consumo, não é de admirar a reedição periódica da treta “aeroporto x rodoviária” de que falei no início.
Outra coisa. Embora a aviação civil exista de modo embrionário desde a segunda metade do século XX, ela só passou mesmo a valer a pena à medida que as viagens aéreas se tornaram mais seguras e os aviões pararam de cair com alguma frequência – “porque componentes óbvios e grandes se avariavam – bombas de combustível davam defeito ou motores explodiam”, como Alain de Botton, filósofo suíço contemporâneo e espécie de Michel Alcoforado internacional, escreve em seu livro Uma semana no aeroporto. Ao mesmo tempo, como o próprio De Botton também comenta em seu livro, mesmo sendo uma das indústrias com maior número de protocolos e operações de segurança, a aviação nunca afastou – e talvez nunca afaste – certa atmosfera de cortejo à morte:
“Apesar dos enormes sucessos da engenharia aeronáutica nas últimas décadas, o período antes de se embarcar num avião é, em termos estatísticos, aquele que mais possivelmente será o prelúdio de uma catástrofe, quando comparado com um dia passado em casa em frente à televisão. Em consequência, é um período que tende a levantar questões sobre como poderíamos passar melhor os últimos momentos antes da nossa desintegração, em que estado de espírito desejaríamos estar ao despencarmos – e até que ponto gostaríamos de chegar à eternidade rodeados de várias sacolas de lojas duty-free”.
Como demonstrou a primeira separação de classes realizada nos anos 1950, a expansão da aviação comercial não pode ser feita sem barateamento no serviço – embora vivamos em tempos obscenos em que aumenta o número de bilionários, muitos deles não estão mais interessados em usar o serviço porque já compraram seus próprios aviões. No Brasil, isso significou que as companhias aéreas passaram a cobrar recentemente por bagagem, algo impensável nos anos 1950 que são o foco dos saudosistas. A burguesia perdeu poder aquisitivo, e as modalidades de pagamento de bens existentes hoje, como parcelamento a longo prazo no cartão, favorecem a pessoas da chamada “Classe C” a também viajar pelos céus. A estabilização e a recuperação da economia – curiosamente, realizada em nos mesmos governos com as mesmas inclinações ideológicas, mas talvez seja apenas uma coincidência – levaram de modo inevitável ao choque de classes que pode ser resumido no lamento dos ex-privilegiados… “O aeroporto está parecendo rodoviária…”
Masoquismo e comparação
Sinceramente, bem que vocês arrombados elitistas que assinam embaixo de um comentário desses queriam.
Num voo de avião você precisa estar no aeroporto (normalmente algum lugar tão longe que parece – ou até mesmo é – outra cidade) duas a três horas antes de seu voo. Essas duas ou três horas serão consumidas em filas de check-in; em filas para despachar bagagem; em filas para passagem em scanners e para revistas de segurança; em filas para passar pelo portão de embarque – como mandam os preceitos classistas da indústria aérea, organizada de acordo com o quanto você pagou pela passagem. À espera do seu voo em poltronas desconfortáveis em que as únicas opções para um lanche são lojas com estética de clínica clandestina e produtos horríveis custando quase o valor da passagem, e que estão sempre nos extremos, nunca na justa medida: sanduíches com pão ou ressecado ou encharcado, pães de queijo ou transformados numa rede plástica de poliuretano ou em maçarocas gosmentas sem gosto; salgadinhos ou meio crus ou com um lado rígido e esturricado pelo contato com a prateleira/estufa em que são mantidos.
Claro, para quem tem dinheiro, existe a Sala VIP, na qual parte desses procedimentos é contornada e outros têm a incomodação por você, do despacho da bagagem à validação do ticket. Mas eu duvido que a maioria dos meus sete ou oito leitores não seja um pouco como eu, um exemplar vagamente fodido da classe média em retração que não tem dinheiro para gastar com isso.
E tudo isso, toda essa provação, todo esse ritual de masoquismo sofisticado para entrar numa caixa de metal pesando toneladas que vai subir de modo não natural a 15 quilômetros de altura para atravessar distâncias tremendas queimando matéria altamente combustível. Quem defende que são poucos acidentes aéreos em comparação com o número de aviões em movimento está certo. Só acho que está olhando a questão pelo ângulo errado. Eu já estive (sempre como passageiro) em três acidentes de automóvel em minha vida, acho que muitos de vocês aí também. Ainda estou aqui. Duvido que eu dissesse o mesmo se estivesse em um avião caindo. Não é preciso muitos acidentes quando um único tem o potencial de matar todo mundo lá dentro.
Compare isso com a rodoviária. Você pode comprar a passagem do mesmo modo online, não há balcão de check-in, você pode chegar literalmente cinco minutos da partida do ônibus e ainda assim embarcar e seguir viagem. Sem filas torturantes, sem tempos mortos. Estatisticamente falando, com uma chance muito menor de não encontrar sua bagagem na chegada. E os salgadinhos de rodoviária são tão insalubres quanto os que você encontra em cafeterias de franquia em aeroportos, mas custam a metade do preço e, com a experiência de quem já muito viajou de ônibus pelo Brasil nesta vida, também costumam ser maiores.
Mas é claro, este meu texto-provocação não tocou no ponto central da questão. Quem reclama ainda hoje que “aeroporto virou rodoviária” não reclama desses procedimentos exaustivos de gaiola de hamster. Reclama de um determinado “tipo de gente” mais comum hoje em aeroportos, o “tipo de passageiro” que antes estaria confinado na rodoviária esperando seu embarque no “modelo Marcopolo” para uma viagem de 12 horas com paradas no caminho. A “gente diferenciada” que pega metrô e ônibus na cidade e se desloca por terra nas viagens intermunicipais e interestaduais, gente “barulhenta”, vestida “sem compostura…”. A luta antirracista contemporânea ao menos ainda freia esse tipo de comentário de se estender até o implícito ” da cor errada” que permeia todo esse discurso.
Podem morrer aí gritando por seu privilégio perdido, seus elitistas de uma figa.
A verdadeira civilização é a rodoviária, e todos sabemos o nome real do incômodo de vocês.
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