
Eis que chegamos ao tempo que sucede os destemperos bacantes carnavalescos, o tempo quaresmal que revive a paixão, morte e ressurreição, rituais da referência maior da tradição cristã ocidental, o Cristo Crucificado. O Brasil, por sua vez, revive agora e sempre essa ambiguidade histórico-cultural que tem sido sua desde o berço: o ideal de (tentar) ser uma república laica, e ao mesmo tempo ter uma santa padroeira, ninguém menos que Nossa Senhora Mãe de Deus, a cujos cuidados o Papa Pio XI consagrou a nação cristã-católica brasileira nos idos de 1930. Desde então, a cada 12 de outubro, o Brasil festeja sua santa padroeira.
Sou servidor público federal, em instituição pública de ensino desta república laica (a seu modo…), instituição que se quer igualmente laica, o que não a impediu de erigir, no interior de seu campus universitário, uma capela cristã devidamente consagrada. Sempre fiquei imaginando qual seria a reação de nosso órgão deliberativo máximo, o Conselho Universitário, frente a uma demanda de eventuais grupos racializados emergentes, no sentido de se conceder área construtiva do campus para erigir templo consagrado a culto religioso de matriz africana. Dificilmente a demanda passaria, tendo em vista, justamente, o caráter laico da universidade…
Em meu domínio de exercício de pesquisa, formação e prática profissional, a Psicologia, somos (ou lutamos por ser) laicos, o que se consolidou com a Resolução 7/2023 do Conselho Federal de Psicologia, que veda a associação da psicologia com práticas religiosas, buscando equilibrar a liberdade de culto do profissional com o dever de laicidade no atendimento. Mais fácil de preconizar do que implementar, do que é prova reação de oposição de parcela das psicólogas e psicólogos brasileiros(as), instaurando debate que chegou ao Supremo Tribunal Federal, instado a se manifestar sobre a constitucionalidade da supracitada portaria. O julgamento está em pleno andamento, com um primeiro voto do ministro Alexandre de Moraes a favor da Resolução. Os demais ministros haverão de se manifestar até a data prevista de 8 de abril próximo, havendo a expectativa de que o crucifixo numa das paredes do recinto deliberativo do STF ilumine corações e mentes…
Vivemos, em certo grau, uma esquizofrenia antropológica, cultural e normativa que enquadra o funcionamento do país, em termos de várias de suas entidades republicanas componentes, que buscam ser laicas e, simultaneamente, crentes. Laicas, graças a Deus — o que fez a memória resgatar título de obra da escritora Zélia Gatai, em seu livro publicado em 1979, “Anarquistas, graças a Deus”. Pois é…
A cisão de visões de mundo que se instala entre laicidade, de um lado, e filiação a credo religioso, de outro, muito frequentemente é atravessada pela confusão entre a referida laicidade e o ateísmo. Historicamente, alguns Estados se declararam não somente laicos, mas ateus. Digamos, muito simplificadamente, que a laicidade busca estabelecer terreno de convívio político-sócio-cultural entre crentes e não crentes, buscando desalinhar o Estado das diretrizes das crenças no âmbito extra-eclesiástico, aquele em que pode vir a se instaurar um Estado Teocrático. O ateísmo, nesse contexto, aparece como uma tomada de posição radical, que considera insuficiente apenas preconizar diversidade de crenças e liberdade de exercício de fé nos átrios das igrejas, mas não nos espaços de condução política e administrativa do Estado. O que parece conceitualmente claro revela-se, na prática, cheio de nuances desafiadoras. As psicólogas e psicólogos que o digam.
As religiões, em suas comunidades culturais de praticantes, não se limitam aos respectivos templos — é o que nos mostra a História. Conflitos contemporâneos, com passado milenar, como aqueles que opõem judeus, cristãos e muçulmanos, continuam latentes em nossas telas digitais em tempo real. Quando reflito sobre minha própria trajetória de pessoa brasileira nordestina, cuja infância foi marcada pelas solenes procissões do Senhor Morto, nas sextas-feiras da Paixão das ruas de bairros recifenses, e busco avaliar que destino reservei a esse acervo, depois da crise de fé da adolescência e adultez, constato, em mim, a cisão que situei no funcionamento político e cultural dessa América Latina forjada (pela cruz e pela espada) pelos Jesuítas na fé católica. Constato o quanto a referida cisão persiste em minha própria economia pessoal. Em minha crispação visceral diante de quem decide vilipendiar a imagem de Nossa Senhora, como ocorrido em 8 de janeiro de 2026, quando uma mulher de 56 anos foi detida após destruir uma imagem de Nossa Senhora dentro da Igreja Matriz de Santa Isabel Rainha de Portugal, em Paulista, Grande Recife. Como eu, laico e avesso a teocracias das mais variadas, crítico feroz do atravessamento moral no debate político contemporâneo, lido, internamente, com um episódio desses? Eu, de tradição e extração cristã-católica nordestina brasileira?
Tudo considerado, uma boa Páscoa para todos e todas. Que esse tempo, que remonta à tradição judaica, ajude de alguma maneira a recuperar a Esperança, como atitude e vivência tão necessárias nessa contemporaneidade brasileira. Que esta fé se preserve, em respeito à diversidade de visões de mundo, que pelo menos não incendeiem os templos umas das outras. E que todas intercedam, junto às respectivas fontes sagradas de iluminação, para que tenham piedade de nós.
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