
Uma amiga mais velha me contou que, ao final do seu treino na academia, sua instrutora recomendou a ela que levasse um “casaquinho” quando saísse porque fazia frio, num tom que identificou como de infantilização, compreendendo-a como “frágil”.
Numa roda de conversa uma participante contou que estava numa loja para comprar uma roupa e a vendedora lhe disse que ali provavelmente não encontraria nenhuma peça que iria lhe agradar, pois era uma loja direcionada para mulheres jovens. Ela respondeu para a vendedora que havia perdido a oportunidade de ganhar uma comissão. Afinal, quem havia determinado o tipo de roupa que ela podia ou não vestir?
Estava numa palestra quando uma mulher na audiência trouxe a história sobre a sua mãe que, num hospital, foi chamada por “vovó” ao que ela respondeu dizendo seu nome e que tinha quatro netos, citando os nomes deles.
A velhice não é a mesma para todo mundo. Cada pessoa irá envelhecer de uma forma única, pessoal, individual, pois dependerá da história que construiu ao longo da vida, da sua carga genética, do contexto social que viveu. Mas o rótulo sobre o que é ser, como deve se comportar, de que maneira devemos tratar uma pessoa que envelhece se torna um desafio na medida em que os estereótipos e preconceitos vendam os nossos olhos ao ponto de fazer com que o nosso comportamento se torne discriminatório.
Haverá quem queira envelhecer trabalhando, ou não.
Haverá quem queira envelhecer cuidando dos netos, ou não.
Haverá quem queira envelhecer viajando, ou não.
Haverá quem queira envelhecer cuidando do jardim, ou não.
Haverá quem queira envelhecer correndo maratonas, pulando de paraquedas, ou não.
As pessoas são múltiplas.
Tem velhos e jovens chatos
Tem velhos e jovens sábios.
Tem velhos e jovens ranzinzas
Tem velhos e jovens bem-humorados.
Tem velhos e jovens frágeis.
Porém, especialmente nós, mulheres “mais velhas” — especialmente na mídia — somos frequentemente reduzidas a rótulos. E completamente à parte do contexto. Isso nos limita a uma narrativa única e restrita. Porque, aparentemente, quando se chega a uma certa idade, é só isso que se tem a oferecer.
Os homens mais velhos também podem enfrentar rótulos e narrativas semelhantes. Mas nos meios de comunicação, este padrão é frequentemente associado ao gênero, com as mulheres passando a vida inteira sendo enquadradas, rotuladas e reduzidas, muito especialmente, aos papéis familiares.
A linguagem evolui. E precisamos continuar a refletir, a compreender e a expandir a forma como falamos sobre a idade. Por vezes, as palavras podem ser ressignificadas no contexto certo.
E lembre-se: a intenção nem sempre é o mesmo que o impacto. Mesmo uma linguagem “gentil” ou “elogiosa” pode reforçar estereótipos prejudiciais.
O custo desse idadismo pode ser a vida, pois ele pode encurtá-la em até 7,5 anos, devido ao auto idadismo, e provocar custos para toda a máquina pública da saúde. Nos EUA, em 2021, calculava-se que este custo estava em U$32bi/ano.
Para resolver, podemos começar individualmente, olhando para nós mesmos e identificando nossos pontos idadistas. A partir disso, observar ao redor, nas nossas relações interpessoais e nas instituições. Não faltarão exemplos a readequar.
Esta é uma conversa da qual não podemos nos esquivar e da qual precisamos nos manter firmes. O Brasil já é o 6º país mais envelhecido no mundo.
O idadismo é uma experiência universal. Ele pode ser nosso passado, presente e futuro. Precisamos mudar.
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