
Insisti para que Carolina lesse aquele livro que há muitos anos me impactara tanto. Foi em 2005 ou 2006, quando eu, ainda uma adulta jovem apaixonada por literatura, recebi essa indicação de leitura na saudosa Palavraria, livraria de alta qualidade no bairro Bom Fim. Lembro claramente de Carlos me abordando com esse livro em punho e, sem dar maiores explicações, só disse algo do tipo “esse livro é para ti”. Eu tenho a lembrança do quanto essa leitura foi inovadora e perturbadora, em seu formato e conteúdo. Mas eu o li apenas uma vez, quando ainda era essa jovem de 27 anos, e nunca mais havia retornado a ele, até agora. Recentemente, cruzou por mim e por Carolina, e talvez eu tenha sentido a mesma coisa que Carlos sentiu quando me indicou essa leitura. Eu sabia que Carolina saberia receber essa história. Porque há histórias que nos atravessam. O livro “Por que a criança cozinha na polenta”, de Aglaja Veteranyi, é uma dessas travessias que não prometem linha de chegada. Apenas caminho e vertigem.
Trata-se de um relato autobiográfico lírico e cruel sobre uma menina em uma família circense romena fugindo da ditadura. Narrado sob a ótica infantil, aborda violência doméstica e trauma enquanto a protagonista tenta compreender o mundo com a ajuda de sua irmã mais velha. A personagem pergunta por que alguém cozinharia na polenta. A pergunta não é culinária, é ontológica. É uma tentativa de dar forma a um mundo em que o perigo não é exceção, mas regra. Onde o amor vem misturado ao risco, e o cuidado, às vezes, é aquilo que também ameaça. Filha do palhaço e da mulher que se pendura pelos cabelos no circo, a irmã mais nova é distraída pela mais velha noite após noite, ouvindo a lenda romena na qual se cozinha a criança na polenta. Assim, as duas reinventam suas próprias vidas tendo por base os absurdos da realidade. No circo precário da vida narrada, o corpo da mãe se equilibra no ar, mas é a filha que aprende a cair antes mesmo de subir. E talvez seja isso o desamparo: não a queda em si, mas a ausência de rede. Ou pior, a suspeita de que a rede também pode falhar.
A narradora de “Por que a criança cozinha na polenta” inventa respostas como quem inventa abrigo. A imaginação vira uma tentativa desesperada de conter o indizível. Porque, quando a realidade é excessiva, fantasiar é item de sobrevivência.
E então, talvez, o livro nos diga algo profundamente contemporâneo.
Vivemos em tempos de desamparo. Este que já não se apresenta apenas na falta concreta, mas na instabilidade difusa: vínculos frágeis, promessas que não se sustentam, excesso de informação e escassez de amparo simbólico. Um mundo em que se sabe muito, mas se sustenta pouco.
Hoje, muitas crianças e adultos continuam tentando entender por que “se cozinha na polenta”. Porque aquilo que deveria proteger também pode ferir, e o amor, às vezes, vem atravessado por ausências, e crescer não garante abrigo.
Carolina amou o livro, me disse há pouco. Seu encantamento pela história me reconectou muito com a história e já quero que a mulher madura de 47 encontre a obra que emocionou e perturbou a jovem de 27. Talvez eu de fato comprove que a pergunta da criança nunca tenha sido sobre a polenta, mas sim sobre: quem nos segura quando ninguém segura?
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