
Todos os anos, nessa época, os dias parecem ficar mais alegres. Instituições públicas e privadas se vestem de amarelo e compartilham mensagens motivacionais nas redes sociais. Empresas promovem rodas de conversa, espalham cartazes pelos corredores e convidam palestrantes para falar sobre a importância de cuidar da mente. Por alguns dias, parece que finalmente aprendemos a olhar para o sofrimento do outro sem julgamentos e cobranças.
Em um país onde o número de pessoas que tiraram a própria vida cresceu 43% na última década, o Setembro Amarelo é um movimento de extrema importância. Mas o que é feito nos outros meses para sustentar essa campanha? O olhar que se tem para a saúde mental durante esse mês prevalece no restante do ano? As pessoas são respeitadas em suas individualidades ou são cobradas além de suas capacidades em suas famílias e ambientes de trabalho e escolares?
Há alguns dias, assisti a uma entrevista de um candidato à presidência da República que me deixou muito preocupada. Psiquiatra renomado e autor de dezenas de livros de autoajuda, o sujeito, cujo nome acho desnecessário citar, afirmou, em rede nacional, ser favorável à meritocracia. Na sabatina realizada pelo Jornal Nacional, ele falava do serviço público, mas, considerando que, além das atribuições já citadas, o presidenciável também é empresário, é bem provável que essa posição se refira a qualquer vínculo empregatício.
Uma das coisas que mais têm adoecido as pessoas nos últimos anos é a busca incessante por produtividade. A síndrome de burnout, os transtornos de ansiedade e os episódios depressivos estão entre os problemas de saúde mental que podem surgir ou se agravar diante de situações prolongadas de sobrecarga e estresse. A meritocracia, nesse caso, é extremamente perversa, porque não considera as diferenças entre as pessoas nem os limites e as circunstâncias que cada uma enfrenta. Parte do princípio de que todos começam do mesmo lugar, dispõem das mesmas condições e podem chegar aos mesmos resultados, desde que se esforcem o suficiente.
Mas o que acontece quando alguém adoece? Quando levantar da cama se transforma em uma tarefa tão difícil quanto cumprir uma jornada de trabalho? Nessa lógica, a doença deixa de ser compreendida como uma condição que exige cuidado e passa a ser interpretada como fraqueza ou incapacidade.
Se olharmos para a nossa história, percebemos que o Brasil já evoluiu muito no tratamento dos transtornos mentais. A reforma psiquiátrica brasileira, iniciada na década de 1970, foi responsável por uma mudança gradual na maneira de compreender e tratar o sofrimento psíquico. Os antigos manicômios passaram a ser substituídos, progressivamente, por uma rede de atenção psicossocial, da qual fazem parte os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Antes disso, a pessoa com transtorno mental era, muitas vezes, afastada do convívio social e confinada em instituições que, em vez de oferecer cuidado, acabavam por aprofundar seu sofrimento com tratamentos tortuosos e nem sempre eficazes.
No livro Hospício é Deus: Diário I, publicado pela primeira vez em 1965, Maura Lopes Cançado relata, entre momentos de lucidez e crises de agressividade, uma de suas internações voluntárias em um hospital psiquiátrico. Ao mesmo tempo em que registra o ambiente em que está inserida, a autora procura compreender o que acontece consigo mesma e quais motivos a levaram até ali. Questiona diagnósticos e tratamentos impostos e, por meio da escrita, denuncia os métodos aplicados aos internos por médicos e funcionários.
As memórias de Maura expõem a crueldade de um modelo que tratava o sofrimento psíquico por meio do isolamento, da violência e da perda de autonomia. Foi justamente contra esse modelo que a reforma psiquiátrica se insurgiu, defendendo uma nova maneira de compreender e tratar a doença mental, na qual o sofrimento psíquico não deveria privar ninguém do direito à convivência, à autonomia e à dignidade.
Embora os muros dos manicômios tenham sido derrubados, outros, invisíveis, ainda continuam de pé. Eles estão por trás da desconfiança em um atestado médico, na comparação entre as diferentes maneiras de sentir e enfrentar os problemas e na ideia de que depressão e ansiedade poderiam ser evitadas com pensamentos positivos. De nada adianta um mês inteiro de prevenção ao suicídio se, no restante do ano, os transtornos mentais e suas comorbidades continuam sendo tratados como preguiça ou frescura.