
Entre os gêneros populares, o romance policial talvez seja o que mantém maior proximidade com a realidade cotidiana. Diferentemente da fantasia ou da ficção científica, ele costuma depender de uma ambientação social reconhecível mais do que da criação de um mundo imaginário – o policial contemporâneo, aliás, com frequência se ampara no retrato realista, quase documental, das dinâmicas da cidade, o cenário por excelência das histórias de crime.
É por isso, penso eu, que, em um momento em que o gênero hoje se espalha por todo o planeta e é praticado por escritores de sociedades tão díspares quanto Japão, Rússia, Suécia, Inglaterra e Brasil, nos detalhes acessórios à trama é que se tem contato com elementos muito próprios de como a sociedade que produz esse tipo de narrativa vive e se vê. O crime, o investigador, os passos da investigação costumam ser muito semelhantes em cada livro, mas é no “recheio”, na ambientação da narrativa, que se encontram algumas especificidades que só fazem sentido porque aquele livro foi produzido naquela língua e naquela sociedade, e não em outra.
Os horários japoneses
Pensei nisso lendo recentemente um romance policial japonês, O expresso de Tóquio”, publicado originalmente em 1958 por Seicho Matsumoto (1909-1992), grande pioneiro da ficção policial no Japão. O livro foi editado este ano no Brasil pela Todavia, com tradução de Jéfferson José Teixeira (não sei se diretamente do japonês ou via alguma outra língua intermediária). A trama parte da morte de um jovem funcionário de um ministério governamental envolvido num rumoroso escândalo e de uma garçonete, encontrados numa fria e arenosa praia de Fukuoka. A ausência de sinais de luta e indícios de ingestão de cianeto levam os investigadores a concluir inicialmente que se trata de um pacto romântico suicida.
Um dos policiais encarregados do caso, Jutaro Torigai, porém, estranha alguns detalhes da viagem que os dois fizeram de trem entre Tóquio e Kyushu. Registros mostram comportamentos que parecem incompatíveis com o de um casal tão obcecado um pelo outro que rumam para morrer juntos. Novas apurações revelam movimentos pouco claros, hospedagens sob nome falso e horários que não se encaixam perfeitamente na versão aceita dos fatos.
Mais tarde, Torigai passa a colaborar com Kiichi Mihara, policial de Tóquio ligado à investigação de corrupção envolvendo o ministério onde trabalhava o rapaz morto. Um elemento importante da cronologia é que o casal foi visto embarcando em Tóquio por duas colegas da mulher, que estavam na estação, a duas plataformas de distância, acompanhando um empresário chamado Tatsuo Yasuda, com quem haviam jantado naquela tarde.
Em uma conversa aparentemente banal, Mihara percebe um detalhe decisivo: para que as testemunhas enxergassem o casal em outra plataforma, era necessário que não houvesse nenhum trem bloqueando a visão entre elas. Ao consultar a tabela ferroviária, o investigador descobre que isso só seria possível durante uma janela de quatro minutos, entre 17h57 e 18h01. Como Yasuda também fora descrito como alguém excessivamente atento ao relógio, Mihara passa a desconfiar que a cena possa ter sido cuidadosamente orquestrada. Mas com que interesse?
Pontualidade
Não sigo mais na trama para não dar spoilers (o que contei até aqui cobre pouco mais de um terço do livro, apenas). Mas aponto que, por tudo o que expliquei, torna-se fundamental para o rumo da investigação – e, por extensão, para a própria existência do livro – esse intervalo de quatro minutos em que, da plataforma 13, as testemunhas puderam ver Otoki e Sayama na plataforma 15 sem que nada na plataforma 14 obstruísse a visão. E a insistência do livro nesse ponto me provocou uma estranheza imediata. Porque é o tipo de detalhe só possível de garantir alguma verossimilhança quando criado em um país obcecado com a pontualidade, como o Japão. Em qualquer outra sociedade menos eficiente em fazer seus trens cumprirem horário, a possibilidade de alguém tentar aproveitar deliberadamente essa janela possível na tabela estaria fadada ao fracasso desde o início. Conseguem imaginar algo parecido num Brasil em que, de cada 10 linhas de trem de passageiros, três atrasam e duas são canceladas no meio do caminho por algum problema qualquer?
É meio consenso entre profissionais da tradução que a transposição de uma obra de um idioma para o outro envolve não apenas questões linguísticas, mas culturais: não basta encontrar um equivalente semântico no idioma de chegada se não houver uma identidade cultural entre o leitor do original e o da versão traduzida, sob pena de se produzir um ruído, uma estranheza capaz de fazer o leitor ser expelido, ainda que por instantes, do universo autônomo criado pelo autor do livro. É o que acontece quando esse tipo de elemento, tão arraigado em uma sociedade, precisa passar por um leitor imerso em outro tipo de sociedade, oposta à descrita no livro.
Meu amigo Samir Machado, por exemplo, que me emprestou o livro, comentou comigo que o caso dos horários do trem e sua importância tão martelada na trama foi o equivalente de um pequeno acidente abrupto na estrada da leitura, tirando-o momentaneamente da ilusão ficcional.
Chaves nórdicas
Ao pensar nisso para escrever este texto, me lembrei de outro caso semelhante, ocorrido na leitura de outro romance policial, desta vez um sueco, O guerreiro solitário, de Henning Mankel, que li ali por 2012. É uma aventura do detetive recorrente do autor, o policial de meia-idade Kurt Wallander, talentoso, porém desencantado investigador lotado na delegacia de Yistad, no Sul da Suécia. Muito antes da onda deflagrada por Stieg Larsson e sua trilogia Millennium nos anos 2010, Mankell já era a prova da rica tradição do romance de crime escandinavo, criando narrativas desconcertantes pela habilidade com que amplia o foco de uma investigação até o limite necessário para que o leitor não se perca, mas dotando-a de uma complexidade que valoriza o esforço dos policiais para desvendá-la. Um pouco como se pode ver também nos livros de Michael Connelly, protagonizados pelo veterano do Vietnã residente em Los Angeles, Harry Bosch; ou no distrito policial de Edimburgo, em que o detetive punk John Rebus é o centro das atenções, na obra de Ian Rankin.
Pois bem, O guerreiro solitário enfoca a caçada de Wallander ao que pode ser o primeiro assassino em série sueco: um furioso matador que arranca escalpos das suas vítimas. No princípio, Wallander não sabe, mas o leitor sim, que o matador se considera inspirado pelo espírito dos índios norte-americanos, pinta o rosto com tintura de guerra e sempre mata seus alvos com lâminas afiadas, para depois enterrar seus escalpos em uma oferenda ritual que só faz sentido para ele e sobre a qual não vou falar mais para não entregar o mistério para ninguém.
A determinada altura, Kurt Wallander perde a chave de casa. Fica bastante fácil para o leitor atento perceber em que momento aquilo aconteceu – e, também, quem é o assassino, uma descoberta que a polícia só vai fazer nas últimas páginas, tornando a aparência de suspense da parte da narrativa focada no criminoso algo exasperante. Mas, como eu disse, Wallander perdeu sua chave, só se dá conta no meio de um dia atribulado, liga de novo para os locais em que esteve, deixa recados, pede que alguém que a achou a guarde etc. E o leitor sabe que isso será potencialmente perigoso para Wallander, uma vez que ele não perdeu a chave, ela foi subtraída em uma determinada circunstância pelo assassino, meticuloso planejador de seus ataques, que pretende usá-la para inspecionar o apartamento do detetive.
Parte do que a série de aventuras escritas por Mankell faz de melhor é escavar os aspectos em que a aparentemente utópica sociedade sueca desmorona aos poucos. Os crimes investigados pelo detetive são sempre pontos para a discussão de problemas como o aumento da violência contra mulheres e imigrantes, a diversificação da crueldade dos criminosos e a inserção da Suécia no mercado globalizado do crime internacional. É uma sociedade quase sem crimes, descobrindo-se aos poucos desagregada.
Pois bem, por mais que essa seja a intenção da história, parece simplesmente absurdo para um leitor como eu, morador de uma Capital periférica em um país sul-americano que registra o maior volume total de assassinatos por ano no planeta, que Wallander não encontre a chave e simplesmente deixe pra lá e siga seu dia como se tivesse esquecido um guarda-chuva. Em Porto Alegre, em São Paulo, no Rio, em Manaus, em praticamente qualquer cidade grande do Brasil, alguém que perdesse a chave sem saber onde provavelmente trocaria a fechadura no máximo dois dias depois, e passa-se uma semana sem que Wallander faça outra coisa que não procurar a chave e resignar-se com sua perda. Eu não sabia, durante aquela leitura, se me irritava mais com a suposta tentativa de dotar de suspense um assassino que a própria narrativa meio que entrega inadvertidamente com alguma antecedência ou com o fato de que Wallander está simplesmente ignorando o fato de que perdeu a chave de casa sem tomar providência alguma a respeito.
Ruído cultural
Nesse caso específico, esse “ruído cultural” talvez tenha outra origem. Na época em que estava lendo o livro, comentei a minha perplexidade com esse tópico em particular com minha então colega de redação, Bruna Amaral, hoje residente na Alemanha, atuando como orientadora de candidatos a intercâmbios. Na época, Bruna já havia viajado bastante e passado algum tempo residindo no exterior e, ao me ouvir comentar a estranheza dessa passagem, me alertou para o fato de que na Europa é muito comum que apenas o proprietário de um apartamento possa fazer uma cópia da chave. E que, dependendo do país, isso pode envolver uma senhora burocracia.
Não sei – e a Bruna também não sabia – se é o caso específico da Suécia, mas, se fosse, de qualquer modo se ajustaria ainda ao meu argumento de base neste texto: os detalhes periféricos de um romance policial podem nos dar vislumbres de algumas diferenças significativas entre a sociedade do livro e a nossa, provocando às vezes um leve “ruído de leitura” pela discrepância entre a realidade do autor e o ambiente em que vive o leitor. Mankell não precisa explicar que tirar uma cópia de chave é difícil ou achar estranho que sequer passe pela cabeça de um sueco trocar a fechadura por segurança após perder uma chave, mas quem vive em um país com a violência do Brasil acha tudo isso muito exótico. Matsumoto faz da observação de um detalhe banal relativo a horários de trem um elemento que vai ajudar a descortinar um mistério, e ele não precisa lidar em sua imaginação com as mil e uma possibilidades que podem dar errado em viagens de trem num país de terceiro mundo como o nosso: pane na máquina do comboio, acidente no trilho, sabotagem no trilho, pane elétrica no carro por falta de manutenção, atraso por descuido humano, a lista é vastíssima.
Ninguém em lugar nenhum do mundo está alheio ao crime, a popularidade do policial como gênero é um indício disso. O que nos causa uma estranheza profunda são esses detalhes cotidianos tão pequenos em volta desse crime.