
Max é meu exemplo. E minha metáfora. O meu ideal. E, se Deus quiser, meu vir-a-ser. De sua história, só obtive fragmentos. Mas basta. Sentamos lado a lado no Seder de Pessach, em Almancil, no Algarve, e tudo o que eu soube dele veio nos intervalos das falas do rabino sul-africano Menachem, que recontava a história da libertação dos judeus escravos do faraó no Egito.
Uma passagem e tanto, com direito a não terem tempo de terminar de fazer o pão no deserto e contarem com o milagre da abertura de um mar inteiro. O mar estava prestes a se abrir na história do rabino e, ainda assim, a fala fragmentada de Max se impôs em cada uma de suas palavras.
Max vem de São Paulo, lá onde, durante 30 anos, no coração da cidade, foi empresário no ramo de software, dominando o mundo das peças e dos negócios em torno delas. Fez algum dinheiro, pelo menos o suficiente para vir a Portugal, depois de vender a empresa para o funcionário mais antigo. Então, rompeu com boa parte de sua vida até então e pegou o ar da estrada.
Não chega a ser um socialista como Hélio Pellegrino, longe disso. Só não queria mais viver em uma cidade grande. Só não queria mais lucrar. O que tinha já lhe era suficiente. Agora só desejava fazer o que mais queria, e o que mais queria era jogar xadrez. Partiu de mala e cuia (quem escreve é um gaúcho) para o Algarve a fim de jogar xadrez. Conseguiu-o graças a um passaporte alemão, o que daria uma outra história. Ou a mesma.
É muito difícil encontrar quem ganhe dele nessas redondezas, ou mesmo no Alentejo, ou no Porto. Ou até mesmo na grande Lisboa. Talvez a inteligência artificial, se ele estiver cansado. Max fatura todos os troféus, embora não os amealhe, porque não é português, e esses são mestres na defesa do seu mercado; logo, os títulos oficiais só são reconhecidos para os nativos. Ainda assim, pelo prazer de ver uma inteligência carregada de desejo se movimentando no tabuleiro, acolhem o estrangeiro Max, mestre universal do xeque-mate em poucas rodadas.
Pouco importa! Com ou sem troféu, ele se contenta em fazer o que gosta. E se sente campeão por dentro, longe de São Paulo, no Algarve, defendendo o seu desejo. Difícil encontrar um puto (quem escreve está em Portugal) que não admire a paciência, o carinho e a sagacidade de seu professor brasileiro de xadrez para crianças.
Max termina o último fragmento do seu relato, no último intervalo da fala do rabino Menachem. Agora os escravos judeus já estão livres do Egito escravocrata (e do nazismo alemão), pelo que captei da sua fala. Muito dela eu perdi, por causa daquele inglês sul-africano nativo e rápido, entremeado de um hebraico ainda mais estranho para os meus ouvidos meio pagãos e muito lentos. Mas não perdi nenhuma palavra brasileira pronunciada, à boca pequena, pelo Max. E, diante delas, só posso dizer com a mais sagrada das pronúncias: — Amém.
Todos os textos de Celso Gutfreind estão AQUI.

