
Há personagens-leitores, como o Quixote e Madame Bovary, por exemplo, que esperam ENCONTRAR NO MUNDO AQUILO QUE LERAM NOS LIVROS: uns terminam, comicamente, empunhando lanças contra moinhos de vento, enxergando nobres donzelas em simples camponesas, e outras terminam, tragicamente, tomando uma boa dose de arsênico, como se o “mundo” nunca aceitasse ser escrito ou se rebelasse continuamente contra toda tentativa de sua literaturização. Se o livro é uma tentativa de colocar o mundo (o “de fora” e o “do dentro”) nas suas páginas, o problema é o que eu faço de mim mesmo quando termino de ler um livro sobre o MUNDO? Saio por aí com lança de papelão, combatendo suas supostas iniquidades? Suicido-me porque ele não é o que me disseram que era?
Por outro lado, há leitores que querem ENCONTRAR NOS LIVROS AQUILO QUE DEVERIA ESTAR NO MUNDO, os chamados “fundamentalistas”. A respeito dos (fundamentalistas) marxistas, Bobbio disse certa vez que eles acreditam conter a rebelde realidade na dócil teoria, bastando citar Marx ou Engels, e no final ”descobrem coisas que os não-marxistas conheciam há muito e admiravam-se de que os marxistas não as soubessem”! O problema, pois, é querer fazer do mundo a realização da crença que um livro inspirou!
Os que querem encontrar os livros dentro do mundo ou o Novo Mundo dentro dos livros deveriam saber que aquilo que chamamos de “MUNDO” não é o que “está aí”, algo dado: o que “está aí” é o planeta! O mundo é nossa criação linguística! Há, claro, um ente supostamente “objetivo” que eu divido com outras pessoas, pessoas que certamente concordam que este artigo diante de seus olhos, “existe”, não é uma criação da imaginação! Mas esta suposta “objetividade” do mundo não tem nenhum significado se não houver alguém para dizer: “Isto é o mundo, o mundo tal como eu o vejo e como ele me chega”, e as coisas não chegam para todo “mundo” da mesma maneira: sem nomeação não há mundo! No início era o Verbo e… continua sendo!
A relação entre livro e mundo nunca foi tranquila, mas, desde o momento em que a Modernidade decidiu debruçar-se criticamente sobre si mesma, denunciando-a como injusta ou inautêntica e propondo mundos melhores, que a relação entre os livros e o mundo complicou-se ainda mais, gerando a angústia da sua rejeição (do mundo “como ele é”) e que pode exprimir-se tanto na sensibilidade dita “romântica”, quanto na criticidade “acadêmica”. No primeiro caso, pode-se terminar no patético ou no trágico, mas o segundo sempre termina numa… cátedra universitária!