
Conversa num grupo de WhatsApp um dia depois do anúncio do tarifaço trumpista sobre as exportações nacionais. No anúncio da medida, Marco Rubio, o secretário de Estado, tinha, entre outras coisas, dito que o Brasil não negociara de boa-fé com os EUA e que Lula colocara o próprio ego à frente dos interesses dos trabalhadores brasileiros.
Transcorre assim o papo virtual:
Perguntava um:
Vocês viram? O JN, ontem, mostrou o Flávio Bolsonaro lendo a nota do Rubio como se fossem palavras dele, Flávio…
Distração do estagiário? Erro do editor? Ou maldade premeditada?
Os três, respondeu outro.
Um terceiro rebateu:
Estagiário foi quem leu a nota do Rubio. Esse é o perigo: um estagiário quer ser presidente!
Aí, o professor do grupo se manifesta:
Tive estagiários bem melhores que ele…
Volta quem começou a conversa:
Pois é… mas o estagiário ou os estagiários da Globo esqueceram, ou preferiram, não dizer que o Flávio Bolsonaro estava lendo a nota do secretário trumpista…
De novo, o professor:
Seria um problema de identificação absoluta dele (Flávio Bolsonaro) com o Rubio?
A conversa termina assim:
Porta-voz do pai e do tio (Sam).
Todo mundo conhece histórias de estagiários. Não são raros os casos a mostrar iniciantes em determinada carreira que salvaram profissionais experientes de situações negativas.
Mas também temos exemplos de estagiários afobados, ou mal escalados, que puseram algum projeto a perder…
A conversa aí em cima ilustra bem um caso de estagiário mal orientado e mal escalado. O chefe de Flávio Bolsonaro, não por coincidência, pai dele, o Jair Messias — talvez se achando aquele outro Messias, o Ungido — decidiu que o filho deve ser candidato a Presidente da República para retomar o projeto de poder que ele, Jair, tentou implantar quando ganhou a eleição em 2018.
Jair fracassou. Perdeu a eleição em 2022. Deu no que todos conhecemos.
Flávio Bolsonaro acreditou no que papai disse. Ele se julga, agora, o melhor candidato para manter vivo o bolsonarogolpismo. Mas tem se comportado como um mau estagiário.
Alguém lembra de uma atitude, um discurso do Flávio Bolsonaro com mensagem construtiva? Uma demonstração de crença na capacidade do Brasil de superar dificuldades e oferecer vida melhor à população? A crença na importância do país no cenário internacional?
Nada, não é mesmo? O que o candidato do bolsonarogolpismo tem feito é dar tiros nos próprios pés e nos pés de aliados.
As mais recentes jogadas desse ponta de lança da direita ampliam o eixo da disputa eleitoral de Lula x Bolsonaro para resistência x submissão.
As articulações “flavistas” em busca do apoio de Donald Trump — como se o eleitorado da gaúcha Dona Francisca ou da maranhense Nova Iorque vá levar em conta a opinião trumpista na hora de votar — resultam em mais pedras no caminho do que asfaltam a estrada em direção ao Palácio do Planalto.
O candidato bolsonarista chegou ao cúmulo de ir aos Estados Unidos para pedir, não o cancelamento, mas o adiamento do tarifaço norte-americano sobre as exportações brasileiras para depois das eleições. Trump, é claro, não o atendeu…
Mas ficou clara a posição de Flávio diante do dilema: resistir ou submeter-se…
Lula e seus candidatos, especialmente Fernando Haddad, que disputa o governo de São Paulo contra Tarcísio de Freitas, ex-ministro do papai Bolsonaro, agradecem…
E Tarcísio precisa mais do que sumir com aquela foto com o boné do Maga (Make America Great Again) que tirou para comemorar a vitória de Donald Trump.
Segundo notícia distribuída pela Agência Brasil, dos US$ 7,4 bilhões em vendas afetadas pelas tarifas de 25%, US$ 3 bilhões têm origem em São Paulo. O estado economicamente mais forte do país concentra, sozinho, 41,6% do total do valor das exportações afetadas. Isso representa 20% de exportações paulistas aos EUA.
O que fará o governador Tarcísio para provar ao pessoal da Fiesp, principalmente aos empregados da Fiesp, que, mais que Maga, ele quer São Paulo Great Forever?
Vai convencer Flávio Bolsonaro a gravar vídeos para a campanha, garantindo que o Brasil resistirá a qualquer tentativa norte-americana de interferência em assuntos internos do Brasil e que aplicará reciprocidade aos obstáculos trumpistas aos nossos negócios internacionais?
Ou deixará a bandeira da defesa da indústria paulista e nacional nas mãos de Fernando Haddad?
O tamanho do prejuízo dessas (des)articulações bolsonaristas nos Estados Unidos pode ser medido em dados da mais recente pesquisa Quaest.
Na troca de acusações por culpa na aplicação das tarifas, Lula leva vantagem. A pesquisa mostra que 51% dos brasileiros concordam com Lula quando ele diz que Flávio pediu o tarifaço.
Do outro lado, são 30% os que concordam que Lula é o responsável pelas medidas do governo dos EUA.
E mais, 42% dizem que o tarifaço trumpista faz aumentar a vontade de votar em Lula, contra 27% que têm mais vontade de votar em Flávio Bolsonaro.
Outro resultado para pesar na cabeça de quem anda atrás de voto: a pesquisa Quaest aponta que 63% dos brasileiros esperavam prejuízo para si ou para suas famílias com o tarifaço.
Assim, a eleição deste ano, que seria mais um capítulo da novela lulismo x bolsonarismo, vai terminar como uma disputa de resistência x submissão, de autonomia ou alinhamento ao trumpismo.
Os bolsonaristas vão chamar — já estão chamando — submissão de alinhamento estratégico, oportunidade econômica, pragmatismo… mas precisam neutralizar os efeitos negativos da taxação das exportações.
Lula e seu time já tomaram a bandeira da soberania, do patriotismo (tão usado pelo bolsonarismo), da defesa dos interesses nacionais, do protagonismo brasileiro no cenário internacional…
Uma coisa é certa: a família Bolsonaro, com suas articulações em Washington, trouxe Donald Trump para dentro da campanha eleitoral.
E, por enquanto, o norte-americano se parece mais como um míssil em direção ao palanque do bolsonarismo do que como um cabo eleitoral.
Resta saber se Flávio Bolsonaro vai amadurecer no tempo que resta de campanha para a prova final do estágio no dia 4 de outubro.
Até agora, a atuação dele tem facilitado a chegada do veterano PT ao hexacampeonato (tricampeão com Lula em 2002, 2006 e 2022 e bi com Dilma em 2010 e 2014) de Lula à quarta faixa de Presidente da República.