
Todo mundo mente. A mentira faz parte do mundo. E ela não é necessariamente uma coisa ruim. No livro A Hora da Estrela, da Clarice Lispector, Rodrigo S. M., o narrador, avisa, já nas primeiras páginas, que ele mente apenas na hora exata da mentira, mas que, quando escreve, não. Se é verdade ou mentira, o leitor que decida. Como se trata de uma ficção, seja qual for a escolha, não há risco de ferimentos.
Na vida real e no mundo dos adultos, já não dá para dizer o mesmo. Eu costumo dividir as mentiras em duas categorias básicas sujeitas a desdobramentos: a benigna e a maligna. A benigna é quando faltar com a verdade, distorcer a verdade ou mesmo omiti-la não afeta ou prejudica outras pessoas e, de certa forma, protege nossa privacidade. E não afeta por vários motivos, sendo relevante o de que a mentira aplicada não gera quebra de confiança por tratar de assuntos que não são da nossa conta.
Como o quê? Como, por exemplo: o seu peso, a sua idade, quanto você ganha por mês, quanto custou o seu carro, por que você não tem carro, por que você não dirige e, por aí, dá para imaginar centenas de perguntas especulativas. Eu não gosto de gente xereta e chata. Gosto de gente curiosa e interessante.
Já a mentira maligna opera dentro de outro espectro e vem carregada de segundas, terceiras, muitas intenções, quase sempre com a finalidade de encobrir uma verdade que, se vier à tona, afetará os sentimentos, as opiniões e as decisões de alguém sobre nós e, é claro, trará sofrimento. Talvez, fazer o outro sofrer seja algo que uma pessoa mentirosa busque, ainda que em um nível inconsciente. Buscar um resultado, ou seja, uma consequência, pode estar entre suas razões.
Lary Freitas, minha amiga, também jornalista, que estuda temas ligados a relações humanas, destacou a frase: “Se tem um setor com alta potência criativa, é o das consequências. Raramente, alguém tem controle sobre elas.”, que escrevi no texto Corpos, Egos e Deslealdades em julho passado.
“Fiquei juntando tuas palavras, vivências minhas, a observação ao sofrimento de pessoas queridas que foram muito feridas recentemente, e isso me trouxe a sensação de que, nas relações atuais, há um desdém pelas consequências. Não há uma reflexão da parte dos parceiros em como suas atitudes vão ferir o outro”, ela me disse.
No alvo, pensei, penso, perguntando-me por que não refletem ou, se refletem, por que não se freiam? Muito antes de eu começar a ter aulas de Física na escola, lá em casa, sabíamos que toda ação gera uma reação. Meus pais e todas as pessoas envolvidas em minha educação repetiam frases, como: pense antes de falar, de responder às questões de uma prova, de dizer sim, não, sei, não sei, enfim, pense.
Bernardo Soares, meu heterônimo de Fernando Pessoa favorito, no Livro do Desassossego, que também está em minhas listas de favoritos, falando sobre o ser humano, escreveu: “A maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento”. Pensar é sentir e vice-versa. Mentiras malignas, talvez, sejam o apagamento de ambos. Não sei. Mentiras malignas, dizem, os de coração mais generoso, implicam perdão. E perdão, segundo alguns, tem de ser dado a qualquer custo. Como não dou o meu, discordo, mas aceito, de bom grado, o alheio. Fiquem à vontade para me perdoar por não saber fazer o mesmo.