
Desde o fim da semana passada, os moradores do Condomínio Solar de Brasília, na capital federal, têm uma certeza: qualquer estampido mais forte ouvido na vizinhança será ou terá sido de fogos de artifício comemorando gol do Brasil. Na casa mais famosa do lugar, não há mais armas de fogo.
O ministro Alexandre de Moraes, na decisão que autorizou a prorrogação da prisão domiciliar, determinou, também, que as armas do ex-presidente Jair Bolsonaro fossem entregues em 48 horas. Antes, Michelle Bolsonaro, a dona (primeira-dama?) da casa, tinha mandado inutilizar uma pistola do marido.
Parênteses: com a ordem dada a um segurança, Michelle contrariou o embaixador do bolsonarismo nos Estados Unidos, Paulo Figueiredo, para quem a mulher só acerta quando faz o que o marido manda. Fecho.
Providências compreensíveis: a da Michelle e a do Alexandre. Arma de fogo exige controle, cautela e responsabilidade. O problema é que ninguém pensou, e parece que não há, uma medida preventiva contra a modalidade preferida pela família e por alguns de seus aliados: o tiro no próprio pé.
A arma que dispara o tiro no pé é a palavra, e essa não há cofre que segure. É um equipamento de uso contínuo, portátil e de acionamento instantâneo. Um microfone ligado, uma rede social aberta, a pergunta do repórter bem informado, a cobrança do adversário — tudo é gatilho para o disparo da palavra. Bem usada, a palavra é ferramenta.
Na boca de um despreparado, é arma contra todos e contra o próprio usuário.
Os bolsonaristas, qualquer dia, não terão mais pés… Deixemos de lado aqueles lá de trás, quando o Eduardo Bolsonaro fugiu para os Estados Unidos e foi instigar o Trump contra o Brasil e alguns brasileiros. Fiquemos com os mais recentes. Parece, até, que há um torneio de tiro entre os xerifes da direita para ver quem acerta mais nos pés dos amigos e nos próprios.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, por exemplo. Na tentativa de interromper o duelo verbal entre o preferido do papai e Michelle, que reclamara de maus-tratos por parte do enteado num vídeo muito bem produzido, disparou: “Desse jeito, vamos perder a eleição e, se a gente perder, o Bolsonaro fica mais 10 anos preso!
Quer dizer, a coisa mais importante que Flávio terá a fazer, caso ganhe a eleição, é soltar o pai, que já cumpre pena no conforto do lar…
Mas e o desemprego, a falta de segurança, os juros altos, os problemas na área de saúde, a inflação tão denunciados pela direita? Se Bolsonaro for perdoado, estará tudo isso resolvido?
Alguns dizem que, com essa declaração, o presidente do PL acabou trocando os pés pelas mãos…
Também temos rajadas recentes do Flávio Bolsonaro nos próprios pés. O candidato do papai chegou ao cúmulo de anunciar que, vitorioso, teria uma equipe de transição à disposição do governo dos Estados Unidos. E até divulgou a carta do secretário de Estado, Marco Rubio, agradecendo a generosa oferta…
Para fechar o autoflagelo das palavras, Flávio Bolsonaro pediu que Trump adie a aplicação de taxas sobre as exportações brasileiras para depois da eleição.
Esses tiros desferidos pela direita nos próprios pés estão chegando aos ouvidos da campanha de Lula com o brilho daqueles fogos que enfeitam e alegram o réveillon no Brasil inteiro.
E assim vai o bolsonarismo. A cada crise, em vez de procurar um extintor, alguém aparece com um galão de gasolina. Quando a fumaça começa a baixar, outro resolve explicar melhor. E, quando finalmente surge uma oportunidade de silêncio estratégico, entra em cena um especialista em “esclarecer os fatos”, produzindo exatamente o efeito contrário.
A impressão é que existe uma competição interna. Uns disputam quem dá a declaração mais desnecessária. Outros tentam descobrir quem consegue transformar um problema administrável numa tese de doutorado em autossabotagem.
Se existisse modalidade olímpica para isso, o pódio seria disputadíssimo.
Enquanto advogados procuram argumentos jurídicos sofisticados, algum aliado resolve oferecer munição gratuita ao adversário. É quase um trabalho voluntário de colaboração processual, só que sem combinar com a defesa.
Lula agradece. Em tempo de Copa do Mundo, ele quer se tetra presidente. Os lulistas querem que a direita siga dando caneladas e chutões contra a própria área. E torcem para que Lula jogue parado, matando no peito as bolas levantadas pelos adversários e fazendo jogadas de efeito que agradam toda a arquibancada… E sem grandes declarações antes do apito final…
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