Gesäuse, Áustria
Estamos parados para dormir no Parque Nacional de Gesäuse, no centro da Áustria. No momento, são quase sete horas da noite, está completamente escuro lá fora. A lua crescente brilha tímida, iluminando apenas uma pequena parte de si mesma.
Faz menos um grau lá fora, e aqui dentro deve fazer no máximo dois. Muitas vezes tenho a impressão de que, dentro do motorhome, é mais frio do que do lado de fora. Nosso aquecedor não está funcionando por algum motivo banal, que não conseguimos resolver pela falta total de noção técnica. Então, o que fazemos pra aquecer minimamente e não morrermos congelados à noite é viajar com o ar quente da parte do carro ligada. Assim, esquenta também – um pouquinho – a parte da casa.
Para dormir, colocamos seis cobertores e sempre esquentamos uma bolsa de água para aquecer os pés. O Lupo, mistura de labrador, com seus pelos curtos, dorme de roupinha própria, mas sempre fica com as longas orelhas geladas. A Sol é uma mistura de chow-chow, e os veterinários nos explicaram várias vezes que ela tem uma pelagem e subpelagem térmica, o que a protege tanto no inverno quanto no calor. Podemos sentir isso na prática: ao tocar nela, seu pelo nunca está quente, exceto na barriguinha, que tem menos proteção. Sua pelagem retém o calor do corpo e regula a temperatura, enquanto a do Lupo é diferente – ele é um cão quentinho, mas porque o calor de seu corpo escapa pela pelagem, deixando-o vulnerável ao frio que rapidamente chega à pele. Por outro lado, essa diferença se inverte quando estão molhados. O Lupo, descendente de labrador, cuja característica principal da raça é amar estar na água, seca em pouco tempo. Já a Sol, com a densidade da pelagem, demora muito mais para secar completamente. Cada um lida com o frio à sua maneira, mas nós estamos sempre atentos para mantê-los confortáveis – ou, pelo menos, tão confortáveis quanto o frio de Gesäuse nos permite.
Hallstatt, Áustria
Luigi está fazendo o jantar: macarrão ao molho sugo e linguiça. No momento, nossos suprimentos são internacionais: a linguiça é húngara; o macarrão, italiano; a cebola, austríaca; a páprica, eslovena; o papel toalha, espanhol; o arroz, português; e o azeite, francês. Tudo comprado diretamente em mercados locais ao longo do caminho. Temos ainda três pacotes com seis garrafas de água de 1,5 litro cada – o que sobrou de uma confusão que virou piada interna. Na Hungria, Luigi comprou um pacote com seis garrafas, mas, ao abrir, percebemos que todas eram com gás. No dia seguinte, fui ao mercado determinada a comprar as águas certas, mas, para nossa surpresa, trouxe outro pacote com gás. Doze águas com gás e nenhuma sem. Na terceira tentativa, descobrimos o segredo. Na Hungria, a tampa rosa indica água sem gás, e a azul, com gás – exatamente o oposto de todos os países onde já vivi.
Já faz mais de um mês que estamos na estrada. Foram mais de cinco mil quilômetros percorridos e sete países visitados: Portugal, Espanha, França, Itália, Eslovênia, Hungria e Áustria. Pelo caminho, nos encantamos com uma diversidade impressionante de paisagens. Montanhas enormes com o topo nevado, lagos de águas cristalinas congelados, vales verdejantes, rios sinuosos de um azul fascinante, mares gelados, florestas densas, bosques tranquilos, pequenos vilarejos cheios de charme e até grandes cidades – que, embora cheias de vida, definitivamente não são o foco dessa viagem.
(de uma viagem que, aos poucos, vem se transformando em livro)
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