
Durante muito tempo, a geopolítica parecia um tema distante da vida real, algo restrito a diplomatas ou a decisões de governo. Mas os acontecimentos recentes mostraram o contrário, pois o que ocorre fora do país atravessa fronteiras e chega rapidamente ao nosso cotidiano, seja na forma de inflação, de juros ou do impacto no câmbio. Tudo está relacionado e tem interferência direta em nossas vidas.
Conflitos recentes expuseram uma realidade que muitos ignoravam: as cadeias globais de comércio internacional são frágeis. Quando tensões aumentam, energia vira instrumento político, fertilizantes se tornam gargalos e rotas comerciais passam a valer tanto quanto recursos naturais. E o impacto disso não fica restrito aos conflitos. Ele chega aos preços, aos ativos e às decisões econômicas locais.
Ao refletir sobre esse cenário, vejo cinco norteadores geopolíticos que podem influenciar diretamente o futuro econômico do Brasil.
O primeiro é a segurança alimentar.
O Brasil se consolidou como potência agrícola, mas importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no campo. Uma parcela importante vem de regiões marcadas por instabilidade política e conflitos. Isso significa que parte da nossa produção depende de cadeias externas sobre as quais não temos controle.
O solo é brasileiro. A força de trabalho, o plantio, o cultivo e a colheita são brasileiros. O fertilizante, não. Fica evidente a urgência de ampliar a produção nacional e diversificar geograficamente os fornecedores.
O segundo norteador é a energia.
Mesmo sendo um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o Brasil ainda importa de 20% a 25% do diesel consumido. Exportamos óleo bruto e compramos parte do produto refinado. Produzir matéria-prima não significa controlar a cadeia estratégica.
Fortalecer o refino e a indústria petroquímica vai além de uma política econômica. É reduzir a vulnerabilidade nacional.
O terceiro norteador é a logística.
Projetos como o corredor bioceânico, ligando o Brasil ao Pacífico via Paraguai, Argentina e Chile, têm potencial de reduzir em até 15 dias o acesso comercial à Ásia. Pode parecer um detalhe técnico, mas não é.
Menos tempo significa menor custo. Menor custo amplia competitividade. Infraestrutura gera competitividade, altera fluxo de investimentos, impulsiona novas rotas para o comércio exterior e crescimento de longo prazo.
É a força silenciosa que define a velocidade de um país.
O quarto norteador é tecnologia.
As guerras recentes mostraram que o padrão mudou. Drones de menor custo passaram a ter alto impacto estratégico. A lógica deixou de ser apenas armamento pesado: agora, inteligência, software e produção em escala importam tanto quanto poder militar tradicional.
O Brasil possui capacidade técnica, centros de pesquisa e indústria. Empresas como a Embraer e instituições como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica mostram isso. O desafio não é conhecimento, mas estar pronto para atender à escala industrial e estabelecer parcerias estratégicas.
O quinto norteador é defesa.
A Avibras, empresa brasileira de defesa, constrói foguetes militares e é responsável pelo sistema Astros, exportado para diversos países, possui mais de 90% de nacionalização e sustenta uma cadeia com dezenas de empresas brasileiras. Ainda assim, esteve próxima da insolvência recentemente.
A indústria de defesa de um país deve ser tratada como um ativo estratégico nacional e não negligenciada. O ponto central, portanto, não é a guerra: é a dependência.
Dependência de energia, de insumos, de logística, de tecnologia, de defesa.
Esses são os pilares silenciosos da economia real. É sobre eles que inflação, juros, câmbio e ativos se movem.
O Brasil ainda tem tempo para decidir qual papel deseja ocupar nesse tabuleiro, porque o futuro raramente pertence aos que apenas reagem aos acontecimentos. Ele pertence àqueles que conseguem compreender os movimentos antes da crise, antes das manchetes jornalísticas e antes que os efeitos apareçam, inevitavelmente, no bolso das pessoas.
No fim, geopolítica é isso: a capacidade de enxergar hoje aquilo que o mercado só perceberá amanhã.
Rafael Sampaio é assessor de Investimentos na XP Investimentos e especialista em Investimentos (CEA®). Certificações: ANCORD | PCA. Pós-Graduação em Finanças & Banking, tem mais de 16 anos entre mercado financeiro e gestão de projetos. Atua com planejamento patrimonial com propósito e estratégia, transformando decisões em liberdade financeira. @realsampaio
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