
Numa situação mais tensa
Conduzo bem a conversa
Ao sentir a tua presença
Tu tá sempre comigo
Quando tenho domínio
Ou até se não consigo
Te ter na minha memória
Faz haver sentido
Em toda a nossa história
Até depois do nosso jogo
Seja qual foi o resultado
Quero te ligar pro desafogo
Vão longe os teus afetos
As lembranças e o amor
Chegam à alma dos netos
Aprendi do justo e do ético
Acompanhando sempre
Teu jeito até meio ascético
Aquele teu caráter liso
Em geral se mostrava
Com um lindo sorriso
E o teu comportamento reto
Sempre nos chegava
Com a transmissão do afeto
Era engraçado ir ao tribunal
Ver tu atingindo acordos
Usando a rivalidade Gre-Nal
O guri que guardava carro
Aprendeu a falar iídiche
Só pra zoar e tirar sarro
Tu lhe ensinou “tuches” e “potz”
E o menininho preto, rindo,
Nunca se esqueceria de nós
Lá no Olímpico o guri vinha
E a gente dividia com ele
Aquelas nossas paçoquinhas
A gurizada se divertia
Mesmo quando tu apelava
E partia pra patifaria
“Tá indo pro jogo, tio?”
“Não, pra reunião militar”
E o guri sentia um frio
O falador de iídiche se divertia
Ao ver o novo colega
Se assustar com a tua picardia
Eram tempos de ditadura
E tu brincava até com isso
Naquela fase tão obscura
No nosso fusquinha, sob sol ou chuva,
À cancha ia toda a minha turma
E tu ameaçava pôr um no porta-luvas
Foi nesse fusca que aprendi
Em meio aos rolos de tecidos
A pegar a estrada e dirigir
E tua imagem divertida
Sempre conviveu
Com o amor pela vida
Era linda tua sabedoria
Atingia o mais atento
Enquanto o tolo só ria
Se me indagam quem me inspirou
Respondo que, sobretudo,
Devo demais a ti tudo o que sou
Estudei Jornalismo e também Direito
E confesso que o segundo curso
Foi muito porque tu sonhou ter feito
É que não foi fácil a tua infância
A morte precoce do meu avô
Te fez trabalhar com constância
Só mesmo assim num poema
Consigo manifestar
O infinito amor desse tema
Porque o sol dum piquenique
Sempre rimou, pra mim,
Com o teu nome, “Henrique”
Foi o melhor pai do mundo
Que, por mais que tente,
Eu nem sequer circundo
Tu era amigo pra ser moleque
E tinha autoridade
Na hora de me dar um breque
Também sabia ser generoso
Ao ouvir atento o filho
E se mostrar mais amoroso
Na foto, eu ali nos teus braços
Sinto a segurança sob o sol
Que ainda guia os meus passos
Vou revelar uma frustração
Alguns livros que lancei
Não alcançaram a tua visão
É evidente ali a tua influência
E sinto falta de ter tido
A tua muito eufórica anuência
Pois tu te foi antes de eu ousar
Escrever em obras perenes
Coisas que tanto te ouvi falar
Neste mês de abril, dia 23
Faria anos o Hershl, Henrique, pai
E eu divido isso com vocês
Mas não é simples aniversário
Por essas loucuras do tempo,
Celebro aqui o seu centenário!
Enorme beijo, adorado pai!
E no abraço forte vai o recado:
Teu exemplo nunca se esvai
…pois é amor que não se vai
…
Direto da minha rede
Sou radicalmente antibélico e convictamente social-democrata desde sempre. Quero que Israel busque a paz, o reconhecimento e a dignidade dele e de todos ao redor. E, por outro lado, vejo análises sobre a guerra que me inquietam e às vezes assustam basicamente porque frequentemente dão voz a quem nega o que deveria ser inquestionável, que é a legitimidade e a integralidade do Estado judeu em segurança e colaboração com os vizinhos árabes.
Sempre lembrando que Israel é a pequena e única terra de origem do povo mais perseguido, segregado, violado e etnicamente resiliente da história humana, por milênios (e a minha família está entre as vítimas). As pessoas nem percebem os detalhes que machucam, porque me (nos) apagam. Exemplo: eu também achei um horror o Trump falar em “extinguir uma civilização”, numa declaração absurdamente violenta que vi mais como garganteio (mas na política e na diplomacia precisamos ser literais, e ele foi detestável, ainda mais que tem poderio atômico).
O que me desconforta profundamente, e isso é só um exemplo entre tantos do meu ponto de vista (lugar de fala) judaico, é que ninguém desses escandalizados lembra que os aiatolás buscam ter armamento nuclear, há décadas têm como política oficial (e isso não é “garganteio”) aniquilar Israel (“extinguir uma civilização”) e, caso tenham a bomba atômica (como os EUA têm), não avisariam nem ameaçariam.
A usariam como usaram armas em atentados terroristas inclusive aqui ao lado (embaixada de Israel e Amia). Os caras usam homem-bomba prometendo o paraíso! O que os frearia?! Enfim, se você continua me chamando de “belicista” e outros horrores que vão contra tudo o q sempre fui e acreditei, é porque não entendeu e não quer entender, por má vontade ou algo pior, porque é capaz inclusive de rejeitar um texto esclarecedor sobre a nossa dor real, assunto atual e urgente.
E isso só faz eu sentir mais mágoa e vontade de me enfiar num gueto emocional, me afastar de tanto cinismo e hipocrisia. E, a propósito, foi nessa visão seletiva que a ótima Tabata Amaral (PSB) pensou ao elaborar o seu importantíssimo projeto, que pode ser discutido e melhorado, mas é essencial.
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Muita confusão de conceitos. Um amigo me disse que a única solução justa pra Israel e Palestina é a de 2 Estados pra 2 povos, que eu deveria defender isso e que o “sionismo” é um horror. Esclareci que concordo em relação aos 2 Estados pra 2 povos e que defendo isso desde sempre, mas tive que explicar: defendo justamente por ser sionista, e ele próprio adere ao sionismo na sua forma historicamente mais majoritária ao fazer essa defesa. As pessoas precisam entender que equiparar “sionismo” e “expansionismo” é um erro.
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Giorgia Meloni era uma horrenda fascista, mas agora é uma boa companheira, porque… criticou Israel!
Estabelecimentos comerciais vetam judeus no Brasil, mas os caras silenciam sobre isso e vociferam contra a falta de trabalho pra uma atriz por ter falado horrores contra Israel -suposto veto que ocorreu a milhares de quilômetros daqui.
Ouvi por aí que os quadros enviados pelos aiatolás pra uma reunião são “qualificados” (sic) enquanto o Trump manda o Vance. Pergunto: se governos como o do Trump, do Netanyahu e de outros não podem ter quadros qualificados entre seus integrantes, o dos aiatolás, infinitamente mais fascista, ignorante e obscurantista, pode ter seres razoáveis?!
O padre não celebra a missa de Páscoa em Jerusalém por segurança (eu lamentei isso, óbvio!), e é um gritedo contra Israel. Pelo mesmo motivo, os judeus não vão ao Muro das Lamentações, que fica vazio em pleno Pessach… e o silêncio é sepulcral.
Ficam chocados (com razão) ao ver o Trump bravatear o “fim de uma civilização”, mas normalizam a política oficial da teocracia iraniana de fazer exatamente isso, mas pra valer, com outra civilização (Israel) caso tenha por onde (“bomba atômica”). Tendo armamento nuclear, nem vão avisar. Vão cumprir uma determinação oficial explícita, absurda e completamente normalizada.
Tu mostra esses evidentes disparates pros caras, reclama que te sente ferido porque claramente há viés antissemita neles. E são eles que se ofendem!!!
E ainda acham que a Tabata Amaral tá errada.
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Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann estão AQUI.

