
Imagine que você esteja na paz do seu lar, reunido com a família depois de um dia de trabalho. A sua casa está cheia de vozes conhecidas que cantam, dançam e agradecem a um ser superior pelas coisas boas da vida. De repente, um grupo de desconhecidos empurra a porta e entra, interrompendo a festa. Mexem nos seus pertences, invadem espaços íntimos e, excedendo todos os limites, comem da sua comida e obrigam as mulheres da casa a dançarem com eles.
No início, você sente medo e exige que saiam. Tenta se defender, chama os vizinhos para ajudar, mas não consegue afastá-los. Invasivos e curiosos, eles se encantam com aquilo que você ainda não reconhece como riqueza e passam a propor trocas desiguais, com o intuito de convencer você de suas boas intenções. Sob a promessa de progresso, você acaba permitindo que fiquem. No fundo, porém, o interesse deles sempre foi tomar para si o que lhes pertence.
Insatisfeitos, os estrangeiros também se apropriam das residências de outras pessoas. Donos de tudo, impõem novas regras e costumes e convertem você a uma nova religião, invalidando a fé que existia até então. Há quem tente resistir, mas não tem a mesma força. Outros, certos de que não há mais o que fazer, submetem-se às novas leis, acatando ordens para continuar vivendo.
Não se trata de uma distopia. Minhas palavras se referem a fatos que se repetem ao longo da história. Histórias de invasões apelidadas de “descobrimento”, contadas há séculos a partir da ótica do conquistador. Violências justificadas e validadas pelos detentores do poder.
Em As veias abertas da América Latina, Eduardo Galeano expõe o processo que explorou territórios até o limite, forçando povos nativos a trabalharem em prol de um progresso que em nada lhes pertencia. Quanto mais se extraía da terra, mais o colonizador enriquecia, restando ao colonizado apenas os efeitos da devastação. Enquanto colônia de Portugal, o Brasil pouco se beneficiou dos recursos que produziu. Por isso, compreender essa lógica de exploração é urgente, para não seguir alimentando a ideia entreguista que ainda marca o país.
Além do apagamento histórico de culturas, naturalizou-se entre os brasileiros a supervalorização do que vem de fora. Nesse contexto, tornou-se difícil reconhecer-se como não europeu, apesar de séculos de miscigenação. Como consequência, o país passou a desvalorizar a própria terra e suas origens, o que se reflete na forma como os povos originários foram tratados. Reduzidos ao termo “índio”, muitas vezes foram vistos como inimigos, quando a ameaça vinha de fora.
Foram os povos originários que protegeram as riquezas naturais que temos hoje, mantendo uma relação de cuidado com a terra e preservando florestas, rios e modos de vida que não se baseiam no esgotamento de recursos. Mesmo com o espaço reduzido ao longo dos anos, continuam lutando pela demarcação de terras e contra exploradores da natureza. São importantes não apenas no dia do “índio”, expressão ainda utilizada por muitos para se referir à data instituída no governo Vargas, mas todos os dias.
O termo “índio” reduz várias etnias a uma só. Como afirma Daniel Munduruku, “índio é uma palavra vazia de significado”, enquanto “indígena” remete à origem. Mais correto ainda é nomear cada povo: Munduruku, Yanomami, Guarani, Krenak. O mesmo vale para o 19 de abril, que, desde 2022, passou a ser chamado de Dia dos Povos Originários, reconhecendo essa diversidade.
Precisamos lembrar constantemente de que, antes da chegada dos invasores, havia gente em casa, e essa gente continua viva e forte, apesar de, quase todos os dias, alguém voltar a forçar a porta.
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