
Sou sócio da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação (ANPEd) há mais de 20 anos. Vi e ouvi os mais importantes educadores brasileiros falarem sobre temas que tocam diretamente a educação nacional em suas diferentes áreas. Trata-se da maior associação de pesquisa em educação da América Latina, com mais de 11 mil associados, entre professores, pesquisadores e alunos de pós-graduação, e que, até o atual governo, tinha assento nos principais fóruns educacionais. A ANPEd tem um rigoroso Comitê Científico responsável pela seleção dos trabalhos apresentados em cada um de seus 23 Grupos de Trabalho (GTs).
Ter um trabalho aprovado para apresentação na ANPEd era uma pequena consagração acadêmica, momento em que seu texto era lido e debatido com os grandes especialistas da área. Fui coordenador do GT de Educação Popular (GT 06) e pude assistir a um paulatino e visível declínio da qualidade dos trabalhos ali apresentados, e a razão disto é bastante curiosa e demonstra claramente os desacertos das políticas de pesquisa e publicação dos órgãos que regem o financiamento e a avaliação da pós-graduação no país. Nós, professores e pesquisadores, somos obrigados a publicar por ano uma certa quantidade de artigos científicos em revistas indexadas e de qualidade (nacional ou internacional), segundo um ranqueamento estabelecido por um desses órgãos (CAPES). “Publicar artigos” é uma obsessão entre nós! É, na verdade, o critério principal que definirá nossa permanência ou exclusão nos programas de pós-graduação. Como publicar livros, coletâneas ou resumos em anais de congressos científicos não vale mais nada, segundo os critérios da CAPES, boa parte dos pesquisadores da educação decidiu renunciar a apresentar trabalho em congressos científicos e, assim, deixa espaço para produções de menor qualidade, textos imaturos de pesquisadores iniciantes. Entre apresentar um trabalho na ANPEd e publicar numa revista importante, nossos pesquisadores não hesitam em optar pela segunda alternativa.
Uma associação que reúne pesquisadores em seus congressos periódicos é um dos melhores sinais de que dispomos para atestar a existência de uma “comunidade científica” e de um “sistema científico” (um conjunto articulado de produção, financiamento, interlocução, validação e visibilidade dos resultados de pesquisa). Mas, quando uma política “produtivista” de publicação desestimula a presença de pesquisadores em seus congressos, é porque nossa relação com a ciência está se tornando autofágica!
Todos os textos de Flávio Brayner estão AQUI.