
No dia 18 de junho foi lançado o Movimento Velharada Rebelde, um grupo que foi rebelde na juventude e que agora, rebelde na sua velhice, não se ressente nem se envergonha de ser chamado de velho e quer lutar pelo direito de ser feliz e pela garantia da dignidade da sua velhice, individual e coletiva.
O Movimento nasceu da união do grupo Mulheres Inquietas, formado por Alice Diesel, Ana Lúcia Pompermayer e Heloisa Palaoro, que realiza uma série de eventos, com a Casa Alice, uma organização sem fins lucrativos, fundada em 1999, que promove o direito à comunicação, arte e cultura entre comunidades ignoradas pela mídia tradicional, contribuindo para democratizar e qualificar a informação, em busca de um mundo mais justo.
Os propósitos do Velharada Rebelde são muitos e são inspiradores. A energia do grupo na sua Manifestação foi maravilhosa, cheia de calor e de vida. No dia 21/06, num domingo nublado no Brique da Redenção, quando estive presente, ao som de Raul Seixas e muita música dos anos 60 a 80, reuniram-se dezenas de velhas e velhos orgulhosos de sua trajetória e inconformados com o status que a sociedade lhes confere, dispostos a colocar um basta nas injustiças e desrespeitos que sofrem.
Abaixo, segue o Manifesto construído coletivamente pelo grupo no primeiro encontro e lido naquele domingo durante a manifestação ocorrida na Redenção. Se você se identificar com essas propostas e propósitos, hoje, dia 02/07, às 18h, na Casa Alice (Rua Olavo Bilac, 188, bairro Azenha), acontece o segundo encontro do Movimento Velharada Rebelde, e quem estiver em Porto Alegre está convidada e convidado a participar. Nele, o grupo pretende partir para a “prática” e começar a colocar a mão na massa.
Para quem quer participar de algo que está cheio de boas energias e fazer a diferença, é a hora de colaborar!
“Manifesto Mutante da Velharada Rebelde
Somos velhas. Somos velhos. Estas palavras não nos assustam. Podem nos chamar assim, sem agressividade ou formas pejorativas. Somos as velhas e os velhos do século 21, integrantes de uma geração que sonhou em mudar o mundo e que revolucionou os costumes. Fomos jovens rebeldes e não abrimos mão de nossa rebeldia. Porque, acreditem ou não, a velhice é um privilégio. Só quem morre cedo deixa de viver esta fase da vida que, como todas as outras, tem as suas vantagens e desvantagens.
Propomos enfrentar a vida com realismo, porém sem esquecer a utopia. Ela será a estrela-guia inatingível, mas apontando a direção segura a ser seguida. Nossa luta é por direitos e por respeito. Queremos transmitir nosso legado, porque cada um e cada uma atravessou momentos históricos importantes, transformando-se em guardiães da memória. E uma sociedade sem memória é uma sociedade doente. Ignorar nosso legado é como queimar livros. Por isso, merecemos um lugar neste mapa de diversidade que é o nosso mundo.
Estamos na contramão dos valores que priorizam a beleza, a juventude, a competitividade e o sucesso, desprezando quem foge deste padrão. Assim, pretendemos promover a redução de danos do silêncio e da solidão, duas das principais causas do sofrimento humano, incluindo a desesperança e a depressão. Não aceitamos que nos infantilizem, nos subestimem, nos tirem o direito de decidir sobre nossas vidas e os riscos que podemos correr, pois a vida toda é um risco.
Dispensamos eufemismos traduzidos em falsos sinônimos adocicados para a velhice. Mas entendemos, respeitamos e acolhemos quem ainda se sente desconfortável com estas palavras — velha, velho — tão carregadas de preconceito e pronunciadas quase como uma acusação. Entretanto, repudiamos termos criados por um sistema que nos transforma em novos e meros consumidores.
O Mover é uma insurreição contra o papel de seres inúteis, de fardos, de descartáveis. Merecemos e conquistaremos uma velhice digna com nossa união, nossa palavra e nossa alegria. Porque juntas, a união, a palavra e a alegria são transgressoras, transformadoras e revolucionárias. Para isso, propomos:
Dignidade é fundamental na velhice
• Trabalhar juntas/os para desconstruir o etarismo por meio do Movimento da Velharada Rebelde (Mover), que não por acaso tem esta palavra como sigla.
• Por meio da formação de uma rede articulada com outros movimentos de propostas similares e reuniões abertas periódicas, promover formação ética e política focadas nas questões de saúde física e mental, acessibilidade, justiça econômica, moradia digna, redes de apoio/cuidados públicas, cultura e educação para esta faixa etária, entre outros aspectos capazes de garantir uma vida digna, ativa e saudável e respeitada.
• Manter uma luta constante, persistente e coletiva – às diversas instâncias – por políticas públicas destinadas a esta faixa etária.
• Fazer valer e se incorporar a movimentos para aprimorar o Estatuto do Idoso.
• Lutar por programas governamentais de apoio a sistemas de moradias coletivas e acessíveis a pessoas velhas, possibilitando maior autonomia.
• Formar comunidades pactuais afetivas, inspiradas no espírito comunitário das aldeias, onde existe o princípio básico de uns cuidarem dos outros. As/os integrantes destas comunidades podem ou não viver sob o mesmo teto, formando um círculo comprometido com cada participante, nos bons e nos maus momentos.
• Incorporar-se à luta pela democratização/regularização da comunicação, reivindicando maior acesso às novas tecnologias no sentido de simplificar processos em serviços de primeira necessidade e, assim, promover a inclusão de pessoas velhas, resgatando a necessidade de espaços e atendimentos presenciais e atendimento humano quando necessário.
• Seguir sonhando, ter causas e projetos e continuar participando ativamente da vida em sociedade, frequentando espaços culturais, de lazer e de defesa da cidadania.
• Manter-se atualizados sobre o que acontece ao nosso redor e no mundo, incluindo política, economia, cultura e outros aspectos da vida em comunidade.
• Nunca calar ao ser discriminada/o ou escarnecida/o. Denunciar e buscar assessoria jurídica quando necessário, assim como reivindicar serviços de atendimento legal para questões relacionadas ao etarismo, como também funcionamento adequado das delegacias de idosos.
• Promover a convivência saudável com familiares, amigas/os e pessoas de todas as idades, com a mente aberta, mas conscientes das experiências, saberes e conquistas.
• Cuidar da saúde exercitando corpo/mente e, para isso, reivindicar espaços com livre acesso para esta faixa etária com opções variadas, sejam relacionadas à capacidade física ou intelectual.
• Exigir o respeito ao nosso corpo e à nossa sexualidade, combatendo estereótipos estéticos, comportamentais e de gênero.
• Ter acesso ao mundo do trabalho – se esta for a preferência ou necessidade da pessoa – sem discriminação de idade e combater as injustiças, a ilegalidade e o desrespeito aos trabalhadores velhos descartados e explorados no mercado.
• Lutar por aposentadorias e pensões dignas, incluindo reajustes do Salário Mínimo.
Cuidados e finitude
• Informa-se sobre as políticas públicas/programas capazes de beneficiar e garantir os direitos legais das pessoas velhas ou portadoras de doenças físicas e/ou mentais,
• Encarar com realismo a finitude, preservando e respeitando o direito de escolha de cada uma e de cada um.
• Aceitar ajuda das pessoas próximas quando necessário, mas sem permitir que ninguém se sinta no direito de dizer o que é melhor para nós.
• Além de sempre trazer entre os pertences informações essenciais – como ser doadora/or de órgãos ou mesmo de corpos –, informar os familiares, cuidadores e pessoas próximas sobre propósitos e desejos pessoais.
• Ter como opção o registro de um Testamento Vital ou Procuração para Cuidados de Saúde – devidamente registrados em cartório – não apenas dos bens materiais, como do que queremos para nós em caso de não podermos manifestar nossa vontade.
• Desapegar-se e buscar para destinação do nosso legado material ainda em vida.
• Tirar o peso dos ombros. Se algo que foi feito precisa ser reparado e ainda houver tempo para isso, fazer o mais breve possível.
• Manter canais de conexão com os jovens para conscientizá-los e fazer combinações necessárias para nós e para eles, incluindo como devem proceder após a nossa morte com relação à destinação do corpo, ao desmonte da casa e à partilha dos bens mais valiosos, tanto material quanto sentimentalmente.
• No caso de velhos, quem assume o cuidado dos pais e/ou de uma pessoa ainda mais velha – principalmente se estas já tiverem comprometimento cognitivo – tentar colocar-se em seu lugar e respeitar a sua personalidade/preferências dentro do possível, sem infantilizá-la ou inverter os papéis. É importante que o cuidador também cuide da própria saúde física/mental, valendo-se de ajuda profissional e/ou redes de apoio, quando economicamente viável.
• Entender a institucionalização como um recurso extremo, embora reconhecendo que, no atual sistema de vida, as famílias têm poucas possibilidades e recursos para manter em casa uma pessoa velha com necessidades especiais. Nesse sentido, incorporar-se à luta por locais (asilos, casas de repouso, clínicas, residenciais) qualificados e com mensalidades acessíveis, mediante políticas públicas governamentais que também ampliem o programa de cuidado domiciliar à pessoa idosa.
Mundo além de nós
• Manter uma posição antifascista e contra todas as formas de dominação humana.
• Combater discriminações e preconceitos como racismo, sexismo, lesbofobia e capacitismo, entre outros.
• Alinhar-se a causas que defendem formas de vida justas e climáticas, sabendo que muitas sementes tardam a germinar.
• Articular formas de transmitir o legado imaterial – saberes, habilidades, conhecimentos, experiências, registros históricos e culturais – para as próximas gerações. Nesse sentido, é importante criar estratégias para ouvir e ser ouvida/o, sem julgamentos prévios, e aprendendo mutuamente.
• Viver até o último dia da vida com a maior qualidade possível, sem abdicar da rebeldia.”
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.