
Em 1967, Porto Alegre me apresentou a grandiosidade. Eu era criança quando vi o Monumento ao Expedicionário: gigante, imponente, inesquecível. Meu avô Alcyr me explicou que aquela obra honrava os soldados da Segunda Guerra. Lembro de observar a guerreira alada, com seu escudo e lança, simbolizando a vitória. Ali nasceu um fascínio: a honra de um escultor em dar forma física à emoção de um povo.
Passei a infância entre super-heróis de TV — Batman, Superman, Capitão América. Heróis que surgiam do nada para deter catástrofes. Mas, ao crescer, a ilusão de que um “civil comum” pudesse trocar de roupa e salvar o dia foi se apagando. A vida adulta veio com suas quedas e recomeços em várias profissões. Somente aos 50 anos, o horizonte clareou: entendi que sou artista. Sou escultor. A partir dessa aceitação, o ferro e o fogo viraram meu ofício e minha voz.
Então, veio 2024. O Rio Grande do Sul enfrentou o impensável. A enchente desabrigou milhares e o poder público viu-se superado pela força das águas. Foi quando vi a profecia da minha infância se cumprir: pessoas comuns saíram de seus sofás, “trocaram de roupa” e tornaram-se heróis. Com barcos precários e coragem infinita, salvaram vidas e animais, movidos por algo que o dinheiro não compra.
Vi o cavalo Caramelo resistir no topo de um telhado e aquilo precisava virar matéria. Esculpi sua resiliência e doei as obras para ajudar as vítimas. Esse gesto acabou gerando o convite da Federasul e da Associação Comercial para um desafio maior: um monumento aos heróis anônimos.
O projeto cresceu, mudou de praça e encontrou seu lugar definitivo na Orla do Guaíba, junto à Usina do Gasômetro — o porto de chegada de tantos resgates. O Monumento aos Heróis Voluntários hoje ergue-se com 5 toneladas de aço corten. Ele não é apenas metal; é um barco sustentado por mãos, representando quem estava na água e quem, de longe, deu o suporte necessário.
Cada traço daquela obra buscou retratar o heroísmo real que testemunhei aos 62 anos. O objetivo é simples: ser um marco eterno de gratidão. Ao voluntário que estendeu a mão quando o céu desabou, o povo gaúcho diz, através do aço:
Muito Obrigado!
Ricardo Cardoso é escultor com vasta experiência em restauro de patrimônio histórico, especializado pela Escola de Ferreiros de Toledo (ES). Seu trabalho transita entre a força do ferro e a sensibilidade da fotografia, cerâmica e madeira. É autor de três monumentos em homenagem à resiliência gaúcha na enchente de 2024 e dedica-se também à escrita e ao ensino da escultura. Atua como voluntário na FASE/RS, acreditando na arte como ferramenta de transformação social. Instagram: @ricardocardosoescultor navegador62@gmail.com
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