
A história da dominação é uma história travestida de valores e ideais que tendem a parcelarizar o homem e a mulher. Privando-os de uma visão plena e total das potencialidades do seu ser. A dominação do homem sobre o homem e do homem sobre a mulher é uma história de negação. A primeira delas é a negação do próprio ser. Negação de seu corpo e de suas marcas identitárias. Ora, se nós admitirmos que nascemos sexuados, mas o ser-homem e o ser-mulher são uma construção, uma conquista, podemos inferir que a feminilidade – e igualmente a masculinidade – não são condições a priori, mas construções culturais e sociais do ser humano. Então fica pertinente admitir que não há como cogitar a pessoa humana, em sua totalidade, se desprovida de uma potencialidade básica, que é o expressar-se para a história na condição cultural construída, mas que naquela, biologicamente, definida — digo, de macho ou fêmea.
Mulheres e homens, devemos completar nossa natureza animal, pois chegamos sem um repertório concluído, capaz de conferir a cada um uma identidade pronta e acabada. Apenas nós poderemos fazer isso! Cada um será sempre e, necessariamente, diverso do outro, porque expressará, para a história, opções/condições que lhe são peculiares. A busca da identidade me parece esforço de síntese do nosso humano ser. Não implica a necessidade de se prender a um marco que determine, a priori, toda a trajetória no mundo da vida, mas sim um pôr-se a caminho, buscando pontos de sustentação, ou seja, a fundamentação possível da existência. Gosto muito da palavra síntese, pois desconfio que é nisso que consiste a busca da identidade, num esforço interminável de síntese. Nesse sentido, vejo que homens e mulheres fomos, ambos, interditados por uma história que nos privou de voltarmo-nos para nós mesmos como projetos a serem construídos. Tal negação está expressa na dominação da qual todos padecemos.
Minhas considerações pretendem se articular como reflexão filosófica sobre a questão da sexualidade e dominação, sem apostar num enfoque psicológico e/ou sociológico do tema, porque viso colocar, apenas, uma contribuição possível para o debate multidisciplinar. Embora eu cogite ser fundamental para todas as áreas do conhecimento a questão do poder na relação homem-mulher, ocupa-me sobremaneira entender a lógica da denominação do ser humano homem ou mulher. Tenho como premissa que essa lógica nos coisifica e coloca seus interesses acima da própria natureza. Assim, entendo que o ego cogito cartesiano legitima o “eu conquisto” e o “eu fálico”, produzindo uma plurocracia diferenciada.
Dussel relata que “vários autores afirmaram que o sexo mantém íntimas relações com o poder; que a sexualidade tem estado comprometida com as relações de dominação existentes ao longo destes anos da civilização humana”. Para Freud, a repressão e a sublimação dos instintos sexuais correspondem a uma condição necessária para a vida em sociedade. Reich percebe que a repressão da sexualidade está a serviço das sociedades autoritárias. Foucault sustenta que o capitalismo avançado espalha o sexo e aumenta o seu poder por meio dele.
Na verdade, a história da dominação da mulher pelo homem é a história da subjugação de ambos pela estrutura de poder do sistema. Esse é um poder que não se observa a olho nu, pois age no submundo do inconsciente. Foi essa percepção que conduziu Marcuse a sentenciar a história como sendo a história da dominação, na qual mecanismos são produzidos e predispõem os indivíduos a aceitarem a reprodução do sistema autoritário. O condicionamento autoritário começa no berço, quando a criança entra em contato, na família patriarcal, com o pai, o símbolo máximo da supressão do prazer, e o lacaio-mor da autoridade estatal. Dessa forma, ainda em tenra idade, os indivíduos são condicionados a aderirem ao autoritarismo e a transmiti-lo, sendo, assim, castrados e submetidos a forte sentimento de culpa, toda vez que agem ou simplesmente pensam em desacordo com os ditames da autoridade. Trata-se de uma sociedade heteronormativa.
O dominador cultiva, em si, a pseudoconsciência de sua pretensa superioridade e, por isso, subjuga indistintamente a todos. No sentido pleno da sexualidade, interdita sexualmente sua companheira, que estará reduzida à condição de serva, ou, como dizem alguns, “objeto de cama e mesa”.
No primeiro momento, temo que a mulher e o homem cultivem falsa consciência de si. À mulher é dado seu reconhecimento na condição de subserviência, como uma amante tolerante e reprodutora fiel. Àquele, introjetam-se as funções de domínio como próprias. Torna-se senhor dos prazeres e dos amores. O amante, nas horas vagas de seu ofício sério, entrega-se ao deleite do sexo nos braços de sua submissa parceira. Digamos que tão cômoda função deitou o homem num machismo que, muitas vezes, o brutalizou como forma de expressão de sua masculinidade. O macho subjetiva sua masculinidade sob a lógica de que ele “tem o falo”, o que lhe garante, simbolicamente, poder e plenitude. Enquanto a fêmea é identificada como “sujeito da falta”, lugar de gozo suplementar.
Em verdade, é a si que o senhor procura quando encontra uma companheira. É o próprio ser que, nela, se espelha; é o mesmo, ou, se preferir, a sua outra parte que ele deseja possuir. Não lhe chega, à consciência, a mulher como o “outro”, totalmente distinto, senão na sua representação genital. Diria que o senhor tem todas as razões para zelar por seu domínio, pois é a si que quer possuir. Daí a ânsia de “domar” o outro, porque o outro, para ele, é o “mesmo”.
Ora, essa relação de poder e domínio é, paradoxalmente, relação de dependência. O senhor depende da sua serva para tornar-se senhor, e somente o é na submissão dela. A escrava, por sua vez, toma progressiva consciência de sua importância para a manutenção do “status” de seu “homem”. Nessa relação desigual, o “amo” tem tudo a perder, enquanto a escrava tem tudo a ganhar. A mulher, no processo de conscientização de si mesma, procura traçar a sua identidade. Tenta construir sua feminilidade. Isto é, dizer de si à história, tornar-se presente como pessoa. Sobretudo, como “diferente”. Tornar-se mulher, assenhorar-se de seu corpo e de sua vida.
Enclausurado pela sedução de seu próprio domínio, o homem não se põe a refletir sobre si. Não precisa! No domínio de sua sexualidade, basta desejar e, aí, encontrar a mulher para confirmá-lo. Desconfio que, enquanto a mulher conquista, progressivamente, relativo afastamento da estrutura autoritária que lhe impôs amarras, negando-lhe o fundamental direito de ser. O homem — como Narciso, enredado na própria sedução — padece das carências e necessidades de quem, somente na dominação do outro, encontra sua justificação. Diria que todo esse processo de construção da feminilidade que testemunhamos no decorrer dos últimos decênios, com todos os seus limites, vai constituindo-se na derrocada da afirmação da cultura machista. Qual será o desdobramento? Não creio ser possível vislumbrar. No momento, presenciamos uma reação em cadeia de machos feridos em sua masculinidade que agridem e matam as mulheres; tornando urgente, para além do aparato legal e estratégias de segurança pública, pensarmos caminhos para a construção de uma “masculinidade saudável”.
As formas simbólicas amparam o machismo cruento e audaz. Isso de maneira nenhuma justifica quaisquer que sejam os fenômenos de violência. Não é fácil mudar uma cultura. Todavia, precisamos urgentemente de processos educativos que não se intimidem em tratar das masculinidades. Não estou falando em educação sexual. Proponho uma educação humana para uma convivência saudável com o outro. As agências educacionais, os governos e as políticas públicas precisam atentar com urgência e enfrentar o tema sem pestanejar.
Enfrentar o machismo tóxico é um processo contínuo de desconstrução cultural e comportamental, essencial para promover a igualdade de gênero e melhorar a saúde mental e física de toda a sociedade. Eis uma tarefa de todos nós!
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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