
Já não há mais dúvidas. A terceira via da pista que leva ao gabinete do terceiro andar do Palácio do Planalto vai ficar vazia. A dúvida é: quem vai ocupar o espaço aberto? Lula ou Flávio Bolsonaro? Por enquanto, cada um trafega tentando impedir o outro de chegar ao centro. Lula já anda mais por ali do que filho do Bolsonaro, nascido e criado bem à direita.
O tri-presidente conhece essa terceira via desde os tempos de sindicalista, quando desviava da esquerda ao centro para conquistar alguma vitória trabalhista. Em 2002, depois de três derrotas consecutivas, foi ao centro para ganhar a eleição com um empresário compondo a chapa e o apoio de 13 partidos no segundo turno.
Flávio Bolsonaro só conhece a faixa da direita, por onde sempre trafegou livre, com o pai e os irmãos. Ele até tem tentado olhar um pouco ao centro. Mas sem muito êxito, como mostram as pesquisas, e vamos ver mais adiante.
Os Bolsonaro têm uma atração forte pela direita, como vimos no final da semana passada. O senador foi ao Texas, no sábado, 28 de março, e, apresentado pelo irmão Eduardo — que abandonou o mandato de deputado federal e foi viver nos Estados Unidos para não enfrentar denúncias na Justiça —, discursou numa tal Conferência de Ação Política Conservadora. E deixou aflorar a descrença em si mesmo, manipulou informações e pôs o Brasil à disposição de Donald Trump. Algumas frases do filho que quer ser o pai. Aqui, reduzindo-se a um reflexo do genitor:
Eu sei que muitos de vocês estão olhando para mim agora e pensando que me reconhecem de algum lugar. Vocês, provavelmente, estão pensando no meu pai…
Ou está misturando as datas da eleição de Lula e da prisão de Jair Bolsonaro:
… quando prenderam meu pai, eles trouxeram este homem de volta ao poder (apontando para um telão que exibia a foto de Lula abraçando Nicolás Maduro).
Ora, Lula foi eleito em 2022. Bolsonaro disputou a eleição e só foi condenado a 27 anos de cadeia em 2025… Ao contrário, em 2018, Lula não disputou a eleição porque estava na prisão. Jair ganhou de Fernando Haddad.
O discurso primário e simplista do Bolsonaro que quer presidir o país, segundo ele mesmo, líder da América Latina, vai ao ponto de criticar a intensificação da parceria do Brasil com a China. Ele parece não saber — ou não sabe mesmo — que a China é o terceiro maior parceiro comercial dos Estados Unidos. Talvez por isso Flávio Bolsonaro praticamente tenha deixado claro que, eleito presidente, colocará à disposição de Trump as reservas brasileiras de terras raras e minerais estratégicos, hoje, em parte, exportadas para Pequim…
Por enquanto, Flávio Bolsonaro fala o que quer sem muita contestação. As pesquisas têm mostrado um certo crescimento da candidatura dele, embora Lula ainda lidere a corrida ao Planalto. Mas esse autorretrato que o Bolsonaro filho tenta pintar, com cores mais neutras, para se diferenciar do papai e se mostrar mais ao centro do que à direita, não está pegando muito…
Em pesquisa com 2.004 eleitores, realizada no começo de março e publicada no dia 27, o Datafolha mostra que o eleitorado que se diz de centro prefere Lula na Presidência da República. Os pesquisadores pediram que, numa escala de 1 a 7 (em que 1 é o máximo à esquerda e 7 à direita), o eleitor dissesse em que número estava. O 4 é número do centro. Para esses, foi perguntado em quem votaria. Deu Lula com 31%. Só 17% disseram que votariam em Flávio Bolsonaro.
Os pesquisadores do instituto também perguntaram, sem mostrar o nome de ninguém, em quem o eleitor que se declara de centro votaria. Lula foi apontado como o candidato preferencial de 15% do grupo. Flávio Bolsonaro foi lembrado por 2%. Outros 2% lembraram Jair…
O tempo que a direita ainda dispõe para pintar o retrato do Bolsonaro moderado vai diminuindo. A campanha vem aí. E, mais do que o horário eleitoral, este ano, os debates serão decisivos como nunca foram. O candidato do PL, até agora, além de se colocar a serviço de Trump e de atacar Lula, não disse nada.
Que feitos do governo do pai terá para mostrar? O que ele mesmo faz por brasileiras e brasileiros no Senado Federal? Que programas do governo paterno vai lembrar? O que terá para contrapor às imagens do pai imitando o sofrimento de acometidos pela Covid que, certamente, vão voltar? Como vai responder quando alguém lembrar os ataques do pai dele às mulheres? O que terá para criticar a queda do desemprego, isenção do Imposto de Renda, os programas sociais?
E a vida do Lula, na campanha, será fácil? Conseguirá ocupar espaço nas redes sociais com a mesma desenvoltura da direita? A isenção do imposto de renda vai fazer diferença no bolso do eleitorado a ponto de entenderem que foi Lula que fez? As denúncias envolvendo Lulinha e vários aliados serão neutralizadas? Lula conseguirá se manter fora do caso Master?
Por enquanto, com meio carro à frente e muito mais experiência na corrida presidencial, Lula pode fechar a passagem de Flávio Bolsonaro que, no primeiro turno, vai dividir espaço na faixa da direita com outros dois ou três candidatos.
Enfim, não teremos candidato da terceira via — aliás, nunca tivemos, né? —, mas os eleitores da terceira via vão decidir a eleição. E ainda bem que o retrovisor mais usado fica à esquerda. Dá pra levar a corrida até a chegada com, pelo menos, duas rodas na esquerda e duas no centro… deixando a direita bem à direita.
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