
Fui à Festa do Camarão procurando camarão. Parece óbvio, mas não é: fiquei boquiaberto. Havia uma única barraca com o crustáceo que dá nome ao evento, cercada por açaí, churros, panfletos políticos e um palco de shows – e uma festa cheia de tudo, menos dele, o protagonista laranja. Descubro que há festas que celebram o que têm, mas que há festas que celebram o que não têm. Se o produto desaparece, mas o seu nome permanece, o que exatamente estamos celebrando? Já escrevi aqui muito sobre Cidreira, que inicia minha coleção “Lugares para passar o fim do mundo”, e talvez seja nessa ausência que mora a verdadeira história de Cidreira: ela não é uma festa gastronômica, mas um dos lugares que revela a disputa pela produção de uma identidade, em que a memória vira mercadoria de uma cidade que fabrica, esquece e reinventa aquilo que decide chamar de seu.
Era numa segunda-feira, dia 7 de setembro, feriado, o último dia da Festa do Camarão, que resolvi ir visitá-la. Eu já havia visto muito das propagandas do evento nas lojas e só não tinha ido por causa da condição de Lola, que precisava de alguém que a cuidasse. Com a presença de meu filho em casa, conseguimos ir com os demais parentes que nos visitaram neste final de semana. Eu já tinha visto toda a transformação do centro de Cidreira com as novas instalações para a feira, com a instalação de toldos no espaço da praça onde fica a Concha Acústica. Com esta estrutura, estacionar transformou-se numa missão impossível, com os terrenos vazios próximos se transformando em estacionamentos pagos.
Ir ao Mega, a principal loja de conveniências, transformou-se numa árdua busca de vaga de estacionamento. Tudo tem seu preço. Já fui a muitas dessas festas pelo estado e há uma rotina: você demora para chegar; quando chega, se tem estacionamento, não tem vaga; se tem vaga, é um preço exorbitante; se você foi só para ir à festa, descobre que investiu mal seus poucos reais e tempo. Isso acontece porque essas festas, como diz a psicanálise, prometem algo que não podem cumprir: satisfazer nossos desejos. E não é qualquer camarão que o fará, tenha certeza. Elas servem mais para ativar a economia local, lugar de confraternização entre amigos comerciantes, motivo de peregrinação dos moradores das praias próximas e menores, que veem em Cidreira um destino comum.
Antropologia das festas
E eu? Eu chego à Festa do Camarão mais movido por curiosidade antropológica do que vontade de comer o crustáceo. Olho ao meu redor e faço minha pequena etnografia para constatar que essas festas têm o incrível papel de trazer segurança à praia por alguns dias. Vejo dezenas de brigadianos aos pares andando pelas ruas da cidade, que pouca segurança tinha dias antes. Eles estão distantes entre si por menos de 20 metros. Há carros de polícia, mas também cavalarianos. Eu lembro do fim de ano em que essa segurança se faz presente. Por quê?
Continuo, mais uma vez, minha etnografia. Eu caminho por entre corredores, como já fiz tantas vezes. Algumas dessas feiras têm uma arquitetura de percurso que obriga você apenas a ir num sentido e passar por tudo. A de Cidreira não. Ela é mais compacta, comparada com outras feiras, e sua arquitetura é marcada por um corredor de acesso principal a estandes que se bifurca, de um lado, em direção ao pátio onde no passado recente ficava um pequeno parque de diversões, e outro espaço, junto à concha acústica, onde são realizados os shows. Mas o princípio de estandes com comerciantes está ali: toda a economia local é convocada a participar, a adquirir seu estande como se fosse o último pote de ouro no fim do arco-íris. Até a loja onde compro produtos de limpeza está ali. Eu me pergunto que diabos tem relação a loja onde compro papel toalha com a festa do camarão.
A cidade se faz presente
É que a Festa do Camarão não é só dele. É da cidade. Círculo um pouco mais. Vejo desde espaços da Prefeitura, da Câmara Municipal, dos vendedores de imóveis, vendedores de roupas e artesãos. Se todo o Cidreirense já conhece esse comércio, moradores de outras praias nem tanto, daí o interesse em participar. Passo pela área de alimentação e vejo essas pequenas microempresas de doces, o vendedor de açaí, o vendedor de churros. Mas eu estou curioso. Cadê o camarão? Lá longe, vejo um palco onde estudantes fazem demonstração de esportes e, do outro lado, um telão com imagens de shows. Continuo perguntando: cadê o camarão? Como o café descafeinado de que fala Zizek, que nos promete o café desprovido de seu princípio ativo, a cafeína, e, portanto, descafeinado, descubro que na Festa do Camarão há apenas um único estande vendendo o produto. Penso então que seu nome deveria ser “Festa do Camarão Descamaronado” ou “Festa Descamarada”, expressão que me atrai mais, pois sugere algo de esquerda – camarada, entendeu? [pano rápido] “Camarão vermelho é comunista”, poderiam dizer, e por aí afora… Dou risada!
Talvez por isso não tivesse camarão na festa, me ocorre dias depois. Não sei. Ainda estou perplexo: se a festa do camarão não tem camarão, o que ela é? Peço à IA Gemini um levantamento de teses, pesquisas, escritos e relatos sobre festas populares no RS em geral, e a do Camarão, em particular. Começo a ler o levantamento e a organizar minhas ideias. Vamos à festa do Camarão com o objetivo de comprá-lo, mas, na verdade, há algo mais. Ali há uma luta social aberta: é a memória da pesca local que disputa espaço com um evento que se quer transformar em emblema municipal. O camarão não é uma mercadoria turística qualquer, porque, me alerta a IA, aqui em Cidreira, ele pode estar menos presente na economia pesqueira local do que no imaginário produzido pela Festa, o que explica exatamente minha constatação na visita: como é que uma Festa que leva o nome de “Camarão” não tem… camarão?
A ausência que repercute
É isso que chama a atenção. Não apenas de mim, mas do senhor que encontro, horas depois, no supermercado e comenta comigo sobre a ausência célebre da festa. É que há algo de estranho numa festa do câmara, que deveria servir de reunião de todos os produtores da região, que tem apenas uma única barraca vendendo. Há, em Cidreira, dois estabelecimentos locais que vendem camarão: o primeiro, na entrada da cidade, mais antigo e que se fez presente na festa, e um segundo, mais novo, que não estava, ainda que houvesse para ele um lugar separado. Foi o que me informou o feirante: “Olha, o problema é que tem muita burocracia, muita exigência para estar aqui, a licença, então é difícil vir.” Olho sua barraca: o camarão é, de longe, um pobre participante, com algumas sacas de um quilo à mostra, com outros peixes como a violinha, o salmão, entre outros.
Se a Festa do Camarão era para celebrar o camarão, mas ele não está lá, o que é que se está celebrando? De fato, o camarão é parte da economia pesqueira local, mas ela, de longe, não é muito grande. Transformado em símbolo da identidade de Cidreira, com seus camarões de concreto espalhados pelas avenidas, é um signo do lugar, como a abelha que produz mel de Pinhal e a tainha assada de Tramandaí, feitos para dar uma marca à economia do lugar. Na visão de Massimo Montanari, em seu A comida como cultura (SENAC, 2008), o camarão não é apenas uma resposta que damos à nossa fome. Há muitos tipos de camarão e formas de prepará-lo, e entendo que é isso que uma festa do camarão deveria mostrar, assim como faz a Festa da Uva ou da Tainha. A festa celebra as formas como fazemos o camarão, como o escolhemos, como o colocamos numa hierarquia – do pequeno ao grande. É o processo de trabalho que transforma o camarão num símbolo de uma cidade e tema de uma festa, o que Cidreira parece desejar. Não se come apenas camarão, se decide que é o crustáceo que pode representar a cidade. Aparentemente, Cidreira já decidiu ao longo de sua história isso, apenas esqueceu de combinar com ele sua presença. Dou de risos.
O problema do defeso
Em 2013, encontro no site da Prefeitura que a pesca do camarão teria originado o antigo Festival do Camarão, posteriormente denominado Festa Estadual do Camarão e Frutos do Mar, mas essa construção de identidade local não foi algo simples. Uma das fontes aqui que se contrapõe à visão oficial é a do jornal local O Marisco. Pronto, de novo, não é camarão, é outra coisa. Está vendo a dificuldade? Em reportagem datada de 2004, ele aponta, às vésperas da festa do Camarão daquele ano, uma crítica à escolha da data do evento. O texto lembrava que o período de defeso terminava em 31 de maio e argumentava que os pescadores locais dificilmente conseguiriam capturar camarão suficiente em poucos dias para depois abastecer a festa. A matéria denunciava, portanto, a possibilidade de haver camarão trazido de outras regiões e formulava o problema: qual seria o sentido de uma “festa de produção” que não beneficiasse os pescadores locais? Seria esta a explicação de Zizek: a ideologia não precisa consistir em uma mentira que ninguém conhece. Todos podem saber que o camarão vendido na festa não corresponde necessariamente à produção local e, ainda assim, a festa continua funcionando como Festa do Camarão de Cidreira.
Isto é notável. Quer dizer, o signo sobrevive àquilo que supostamente deveria fundamentá-lo. Caminho pelos corredores da festa do camarão e ele não está lá. Ou melhor, está em quantidade tão pequena que é como se não estivesse lá. É que o camarão, nesse sentido, não é aquilo que Cidreira produz com sua atividade pesqueira, mas é aquilo por meio do qual Cidreira deseja ser vista. Para Zizek, é exatamente assim que funciona a fantasia: ela não precisa corresponder literalmente à realidade para organizar a vida social, basta que seja suficiente para que motive visitantes, comerciantes, governo local e moradores a participarem da festa: ela é, nesse sentido, seu ritual de identificação.
O conflito de identidades
Apontei em artigo aqui nesta plataforma (disponível aqui) que a história de Cidreira está associada a sua condição de antiga praia de veraneio, com suas casas, chalés e toda a cultura praieira que foi descrita por Paixão Cortes e Ivan Terra em seus estudos. Nessa perspectiva, a identidade do município está na memória dos moradores desse período e constato, por isso, um conflito de narrativas: o que define a identidade de Cidreira é ser a terra da pesca do camarão ou ser um exemplar da cultura praieira? O Jornal O Marisco continua sendo a principal fonte desse conflito de identidades. Nele vemos que a “Festa Estadual do Camarão e Frutos do Mar” foi realizada em sua quarta edição em 2003, “com abertura de pavilhões, praça de alimentação, shows, dança, CTGs, torneios esportivos, teatro, encontro de corais e atividades institucionais”. Ao longo do tempo a festa se diversifica, com a inclusão de esportes, como o circuito gaúcho de surfe, que origina no ano seguinte o Festival do Camarão Winter Surf. Existe mais como “festa”, do que “do camarão”.
Não consigo localizar as razões da interrupção, por cerca de 15 anos, da festa, apenas o seu retorno, em 2019. Esta é uma edição híbrida com gastronomia, artesanato, teatro, entretenimento e grandes atrações musicais. Programas como o Galpão Crioulo, da RBS TV, foram realizados no evento, com grupos e músicos como Tchê Chaleira, Lincon Ramos, Ivan Therra e Grupo Kikumbí, Capitão Faustino, Grupo Querência, informação que consta no site da Rede Globo. Entendo que as próprias referências das edições são confusas: a edição atual, que seria a 9ª, é apresentada como a festa que se realiza depois de sete anos, como o site Litoral na Rede informa. Ao contrário das demais festas, que apresentam uma continuidade, a Festa do Camarão é descontinua; como tradição, ela é interrompida e recuperada. Por quê?
A reinvenção da Festa do Camarão
Lembro da leitura de Eric Hobsbawn, de seu clássico A invenção das tradições (Paz e Terra, 1984). É verdade que a leitura que estudantes como eu fazíamos dele na universidade era de outras obras, principalmente sua famosa “Tetralogia das Eras”, obrigatória nos meus anos de formação, como os volumes densos de A Era das revoluções (1789-1848), a Era do Capital (1848-1875), a Era dos Impérios (1875-1914) e a Era dos Extremos (1914-1991). Mas eu era particularmente interessado nas obras dele que “corriam por fora” do circuito tradicional e que eu acompanhava, como Bandidos (Paz e Terra, 1969) e Rebeldes Primitivos (Companhia das Letras, 2025).
É neste conjunto que está seu livro sobre as tradições. Ali, Hobsbawm argumenta que muitas das práticas, símbolos e rituais que consideramos “antigos” ou “ancestrais” são, na verdade, criações recentes estabelecidas deliberadamente pelas elites ou pelo Estado em períodos de rápida transformação social para criar um senso de identidade e pertencimento coletivo, legitimar o poder de certas instituições ou governos e inculcar valores e normas de comportamento por meio da repetição e do apelo a um passado idealizado. É nesse sentido que ele exemplifica o uso do kilt de estampas xadrez escocesas, vistas como tradições milenares quando são produto do século XIX. Nesse sentido, a Festa do Camarão de Cidreira poderia ser vista como uma tradição reinventada, em que a festa precisa ser retomada para reconstruir, mesmo anos depois, a ideia de continuidade.
A festa atual
Olho o site da Prefeitura, que anuncia a Festa do Camarão. Sua edição de 2026 é claramente municipal, já que a Prefeitura é promotora, por meio da Secretaria Municipal de Turismo e Desporto e da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Profissional – SEDEP – responsável pelos processos de ocupação comercial e seleção de empresas. Em seus editais, por exemplo, os artesãos moradores de Cidreira tiveram direito a 20 espaços. Outros editais fizeram chamamento para empresas da área de alimentação, comércio, serviços, unidades móveis, bebidas e ambulantes, que também passaram por processo formal de seleção para participarem, além do chamamento para patrocínio empresarial, para associar marcas ao evento. Os agentes são o município, a comunidade e o mercado.
O ponto de encontro deveria ser o camarão, não? Pois é, não é bem assim. Antes da realização da Festa, a Prefeitura de Cidreira criou o projeto “Sabores que unem”, reunindo restaurantes locais e um chef convidado das Faculdades Senac. O propósito declarado foi construir colaborativamente um prato típico capaz de representar o evento. Uma das preparações apresentadas foi “filé de papa-terra ao molho de camarão”. Eu já tinha estranhado a ausência do camarão: agora vejo que o camarão passou de ator principal a coadjuvante: molho? De novo, como sugere Hobsbawn, é isso que acontece com as tradições inventadas: ao invés de pegar um prato tradicional existente primeiro e celebrar depois, o que aconteceu foi o contrário, com a prefeitura procurando produzir um prato que apareceria como representação gastronômica da comunidade. Neste ponto, Montanari explica que, de fato, a tradição alimentar não é uma relíquia do passado, mas seleção, combinação, esquecimento e invenção.
Uma festa guarda-chuva
A modernidade fabrica tradição, inclusive as culinárias, com o camarão. Eu preferiria o velho camarão gigante à milanesa frita, como o que comi na Praia de Ingleses. Será que terei de voltar lá? Entendo que o camarão é apenas um detalhe da festa que leva seu nome, que está mais para uma festa “guarda-chuva”, em que cabem todos. Vejo que esta edição reuniu culinária, comércio, apresentações escolares, fanfarras, teatro, CTGs, samba, música gospel, rock, dança, esportes, serviços públicos, concurso gastronômico e grandes shows. Entre as atrações estiveram Serginho Moah, Corpo e Alma, Tchê Barbaridade, Felipe Araújo, Grupo do Bola, Grupo Chocolate e Armandinho. O camarão que dá nome à festa é apenas um ator secundário, já não a monopoliza, espécie de “significante organizador” em torno do qual são agregadas atividades econômicas, culturais, políticas, educacionais e de entretenimento que poderiam, isoladamente, ocorrer em qualquer outro evento.
Alini Nunes de Oliveira e Maria Del Carmen Matilde Huertas Calvent, em seu artigo “As múltiplas funções das festas no espaço geográfico” (disponível aqui ) mostra que festas gastronômicas e produtivas exercem simultaneamente funções econômicas, culturais, turísticas, identitárias e de sociabilidade. Temos exemplos clássicos com a Festa da Uva, Festa da Soja, Festa da Bergamota, Festa da Melancia e Festa do Feijão. É verdade que também nestas festas a prefeitura costuma ocupar posição decisiva na organização e coexistem na exposição produtos agrícolas, artesanato, alimentação, parques, comércio, música e espetáculos. É aqui que a identidade cede à força da mercadoria: as festas tornaram-se instrumentos de promoção dos municípios, as empresas locais funcionam como espaços de projeção de lideranças políticas. Eu caminho na feira e uma menina está distribuindo panfletos; um pouco adiante, na saída, vários simpatizantes de um político local; no caminho, em direção ao carro, vejo um diretório político. Cidreira não é exceção: ela faz parte do sistema capitalista de festas de produto. E, às vezes, nem disso, já que na festa da uva você encontra o personagem principal em abundância; aqui não.
Em busca da identidade perdida da festa
É uma pena. A cidade tinha tudo para ter mantido a continuidade da festa. É só olhar as demais. A Festa da Uva, de Caxias do Sul, teve sua primeira edição em 1931, ligada à exposição de uvas e intercâmbio entre produtores, até tornar-se a grande celebração da imigração italiana baseada nos conceitos de trabalho e progresso. Se a uva chama a italianidade, o camarão deveria chamar a economia da pesca, mas essa identidade misturou-se à cultura balneária e se perdeu. Onde estão os verdadeiros pescadores de camarão? A Oktoberfest de Santa Cruz do Sul é bem mais nova, mesmo assim, possui uma centralidade na identidade, já que visa valorizar a germanidade, transformada em narrativa pública, espetáculo e território. Tão jovem quanto a Oktoberfest é a Fenadoce, que data de 1986, que se profissionalizou e foi assumida pela CDL, transformando a tradição doceira em marca e patrimônio turístico.
Nossa Festa do Camarão está mais para a Festa do Moranguinho de Bom Princípio, que se transformou em grande feira agrícola, comercial e musical. Nunca conseguiu rivalizar à altura com a Festa Nacional do Peixe de Tramandaí, que tem tainha assada como centro, além de shows, comércio e cultura. Ali, o fundamento está na atividade da pesca, que produz a gastronomia e o turismo. A diferença é que, enquanto a festa de Tramandaí é marcada pela continuidade, a de Cidreira é marcada pela descontinuidade: pelo menos seis edições até 2003; ativa em 2004, interrompida por cerca de 15 anos, retomada em 2019 e novamente em 2026. É uma cidade à procura de sua identidade litorânea.
O que falta à festa?
O que falta à Festa do Camarão? Não apenas camarão, é claro, mas uma narrativa consistente que a faça parte da história de Cidreira. A Festa da Uva, como mostram Maria Catarina Chitolina Zanini e Miriam de Oliveira Santos, em seu “As Festas da Uva de Caxias do Sul, RS (Brasil): historicidade, mensagens, memórias e significados” (disponível aqui), nasceu em 1931, vinculada aos produtos dos colonos e à vitivinicultura, e posteriormente tornou-se uma exposição econômica e narrativa sobre imigração, trabalho, riqueza e identidade. É, segundo as autoras, uma “festa da ordem”, pois nela aparecem e se reafirmam valores e hierarquias sociais. Que valores sociais a comunidade de Cidreira quer reafirmar na sua Festa do Camarão?
É verdade que não se trata apenas de memória. Danúbia Cremonese Sehn mostra em sua dissertação de mestrado “A contribuição da Oktoberfest para o discurso identitário germânico de Santa Cruz do Sul”, defendida na UNISC em 2009 (disponível aqui ) que a festa não é simplesmente expressão espontânea de uma identidade alemã anterior a ela; a própria Oktoberfest ajuda a produzir, negociar e legitimar essa identidade, inclusive por meio de elites políticas e da imprensa. Cristiane Berselli, Luciano Torres Tricárico e Diva de Mello Rossini em “Os signos e símbolos do patrimônio nas ações do marketing: uma relação possível?” Reflexões a partir das campanhas da Feira Nacional do Doce (Fenadoce) de Pelotas/RS (disponível aqui ), também reforça que a identidade, patrimônio e cultura doceira são incorporados às estratégias de marca e marketing da feira. Não tem jeito: o capitalismo tende a devorar a cultura.
Minha experiência em festas
Já fui à Festa da Uva, Moranguinho e agora vi a Festa do Camarão de Cidreira. Eu sei que é inevitável que o mercado se aproprie da tradição para produzir lucro. Minha pergunta é a seguinte: quando o alimento vira marca, quem passa a controlar sua representação? Sei que, mesmo com a mercantilização da cultura, que critico, as festas ainda criam oportunidade, nos termos de Michel Mafessoli, daquilo que ele chama de “estar-junto”. Esses alunos de capoeira de uma escola que se apresentam no centro da feira e que vejo à distância estão se divertindo juntos. Eles apresentam os movimentos que treinaram para aquele momento, ainda que muitos estejam só entretidos com os estandes e os produtos à venda. Não é possível negar uma sociabilidade emocional, mesmo que fragmentária, naquele lugar: existem formas de proximidade e pertencimento efêmeras ali que tentam sobreviver. Até no estande político, a poucos metros dali, isso acontece. O fato de que pessoas dispersas foram reunidas num mesmo espaço pode parecer superficial, mas elas se conhecem, e isto basta. Comem juntas, os proprietários de um e outro estande conversam entre si, assistem aos mesmos shows, reconhecem-se como conhecidos e fazem o milagre da sociabilidade simplesmente porque circulam num lugar.
A mercadoria não elimina necessariamente a comunidade. Mas eu gostaria que houvesse uma finalidade a mais nisso tudo, que a memória – lugar de minha formação – tivesse sido melhor representada. Ali, apenas vejo se alimentarem reciprocamente comunidade e produção de mercadorias, mas a história do lugar pouco é falada; menos ainda a história de seus pescadores. Sei que essas festas, ao longo do tempo, estão se tornando muito parecidas, e por isso meu receio. No capitalismo contemporâneo, as festas servem para vender não apenas objetos, mas identidades, experiências e pertencimentos. E tudo fica igual, nos termos de Han. Estou num lugar para consumir camarão; o máximo que acontece é eu sair com um pacote de filé de peixe. Isso não é estranho para você? Para mim é. Estou num lugar com o objetivo de conhecer a verdadeira Cidreira, a do litoral, a dos seus pescadores e sua tradição, mas o que vejo é mais do mesmo rito de consumo. A cultura litorânea aparece pouco; sequer pratos típicos ou produtos vejo na minha visita: crepe ou açaí é prato típico de Cidreira? Deveria ser obrigatória uma passagem por um museu da cidade, se a cidade tivesse um. Como já relatei, o mais próximo disso é o museu Margarido, e, pelo que pude observar, ele não foi convidado. Assim, o próprio pertencimento torna-se mercadoria.
Uma festa estratificada
Acho engraçada essa forma de organizar eventos. Foram organizados paralelamente, segundo o site da Prefeitura de Cidreira, camarotes, pista, VIP, front e setores de acesso diferenciados nos grandes shows. A festa popular não desaparece, mas é estratificada: seu público divide-se entre aqueles que podem pagar e veem os melhores shows, e os que não podem, e veem os de segunda ordem. Todos celebram a mesma coisa, mas não necessariamente do mesmo lugar. Fim da ideia de festas como produtoras de comunhão social: agora, ela não suspende mais as diferenças sociais, muitas vezes as exibe. Olho o site da Prefeitura e vejo que falam extensivamente em comerciantes, patrocinadores, chefs, restaurantes, artesãos, shows e empreendedores. Mas onde está o pescador artesanal dentro da Festa do Camarão? Meu vizinho diz que compra de um pescador artesanal; o outro, vai ele mesmo com outro pescar e traz o sustento da família. Esse é o personagem mais simbólico de Cidreira, porque pode ser qualquer um. Aqui, qualquer um pesca na beira da praia ou nos rios e lagos. Pescar não é atividade econômica, é lazer.
Para a Prefeitura, o camarão representa a cidade. Para o cidadão, uma alternativa de sustento. Ele está nas esculturas das ruas por todo o lugar. Mas chamar a Festa do Camarão, esse conjunto heterogêneo de atividades culturais e econômicas de festa, só mostra que o camarão é um signo fraco para organizar uma narrativa urbana. É preciso, por isso, dar um passo atrás. Se os Cidreirenses querem de fato dizer que o camarão faz parte de sua cultura, é preciso voltar e criar essa tradição. Nenhuma culinária é natural, mas é produto de um trabalho coletivo. Ele pode começar nas escolas, no incentivo à transformação de um prato em tradição e identidade. Seus moradores precisam aprender com as festas que deram certo na preservação de sua tradição, ver o que incentivaram e como. Se as festas forem só pensadas com o objetivo de comércio e turismo, elas perderão o que lhes dá maior valor: o lugar de identidade e sociabilidade.
Em busca de uma festa com história
Por isso é preciso voltar e reconstruir não apenas as origens da festa do camarão, mas a própria história da pesca em Cidreira, mostrando como o crustáceo se tornou emblema urbano. Seria bom que a Prefeitura apoiasse o Museu Margarido, porque uma Festa do Camarão sem a história da pesca do lugar não tem sentido. E ela está lá. Resolver o problema do conflito entre o calendário turístico e o defeso, as épocas de disponibilidade do crustáceo e os interesses dos pescadores é algo fundamental. Como faremos para fazer o signo gastronômico sobreviver à cadeia produtiva que deveria legitimá-lo? As interrupções só podem ser explicadas pelas dificuldades de organização, mas a pergunta é mais pelas razões de manter um discurso de continuidade histórica quando ele não existe na prática, que é repleta de rupturas. Conseguirá agora a feira fixar-se no calendário da cidade?
Outra coisa que me incomoda é esse modelo que transforma tudo em espetáculo. Já critiquei o projeto Noite nos Museus exatamente por isso (disponível aqui ), por transformar o objetivo de uma visita a um museu em uma ida a shows de música. Aqui o motivo da cultura da pesca desaparece frente ao palco cultural, à arena de shows, artesãos, comerciantes, gastronomia e publicidade. Que papel tem esse estar-junto nesses locais? Se se produzem encontros reais, ainda assim é porque é num território temporariamente transformado. Ou não? Ouço que as estruturas da Feira do Peixe, com o seu fim, servirão para as atividades da Semana Farroupilha; sai um tema, entra outro, e o capitalismo aqui só se apropria da efervescência comunitária.
Inventar uma nova festa
Se a prefeitura pode fabricar uma tradição culinária com seu “Sabores que Unem”, é preciso perguntar: unem o quê? Nesse sentido, o pobre do filé de papa-terra tem muito a explicar sobre o caráter secundário de seu molho de camarão; constrói-se uma tradição, mas o lugar importa nesse quebra-cabeça de sabores. Caso contrário, a Festa do Camarão será apenas uma fantasia social de Cidreira. Mais do que ser algo que se come, seus organizadores precisam saber que o camarão é algo que se usa para narrar a cidade que o realiza. Estou, como o personagem John Travolta do meme célebre, olhando para os lados à procura do camarão e de seus pescadores; não se trata de tratar a festa como algo falso, mas ter clareza sobre como é produzida e quem se beneficia dela.
Quando a Festa do Camarão der visibilidade ao mundo social da pesca da cidade, ela terá cumprido sua função. Caso contrário, os pescadores permanecerão invisíveis dentro da imagem festiva que leva seu trabalho. Nesse sentido, a Festa do Camarão só poderá homenagear o crustáceo desde que, ao autonomizar signo e produto, não perca de vista que se trata da própria representação de um trabalho realizado em Cidreira como comunidade litorânea que está em jogo. Se não há mais camarão no presente, que haja, ao menos, o desejo de ter camarão no futuro.