
Sob o governo populista de extrema direita de Nayib Bukele, um em cada 50 salvadorenhos está na prisão. No Brasil, isso equivaleria a uma população carcerária de 4,3 milhões de pessoas (hoje são 900 mil). Em El Salvador, esses prisioneiros dividem espaço, no Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT) — a mega prisão salvadorenha —, com centenas de pessoas deportadas dos Estados Unidos por Donald Trump.
Países menos desenvolvidos receberem resíduos de países ricos – como as roupas que lotam o deserto do Atacama, no Chile – já me parecem terríveis; receberem seres humanos é de uma indignidade que nem sei nomear. O mais triste é que muitos brasileiros acham isso bacana e apoiam a postura do governo Bukele. É claro que nenhum deles acha que será preso ou que seus parentes e amigos o serão. Se não pensam no custo social de medidas como essa, que dirá o custo econômico de manter tanta gente encarcerada.
No início de setembro, durante o Festival Piauí de Jornalismo, que aconteceu em São Paulo com o tema “No Olho do Furacão: diretores de redação em tempos de tormenta”, o jornalista salvadorenho Carlos Dada, diretor do jornal El Faro, contou uma história que ilustra bem esse fato. Dada e sua equipe sofrem perseguições no país, estão todos exilados e lutam para manter o El Faro a partir do exterior.
Segundo o jornalista, recentemente ele estava em um evento no qual receberia um prêmio e foi abordado por um “homem, muito bem-vestido”, que disse ser um empresário brasileiro. Falou ser fã de Bukele e que gostaria que fizessem o mesmo no Brasil, para acabar com a bandidagem nas favelas brasileiras. Dada respondeu que seria necessário apenas soltar algumas bombas nas favelas e estaria tudo resolvido. O empresário se escandalizou e disse que a proposta era imoral, pois mataria muitas pessoas inocentes. Ao que Dada respondeu: “então…”.
A política de segurança de El Salvador tem sido apresentada indiretamente ao empresariado paulista por meio de figuras políticas brasileiras. Em eventos organizados em casas de grandes empresários em São Paulo (como lideranças ligadas à varejista Riachuelo), o Modelo Bukele é frequentemente debatido e citado por parlamentares como uma referência de atração de negócios por meio da ordem pública.
Dada relatou, ainda, a passagem do chefe da Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, em agosto último, em São Paulo, para apresentar o Modelo Bukele para industriais, quando foi ovacionado. “Esses empresários poderiam utilizar bem melhor seu direito à informação”, disse o jornalista.
Em sua fala no Festival Piauí, o diretor do El Faro contou que tem sido difícil praticar o jornalismo livre em seu país. Telefones de repórteres têm sido grampeados para identificar as fontes que falam com eles. Um drone chegou a entrar na casa de Dada antes que decidisse deixar El Salvador.
O diretor do El Faro lamentou que a tecnologia esteja sendo usada como mecanismo de controle voltado a instalar uma voz única. Na opinião do jornalista, há dez anos acreditava-se que a internet tornaria o jornalismo mais livre, mas isso não aconteceu. “As redes sociais são o sonho dos governos autoritários. Infelizmente, hoje há mais governos autoritários do que democráticos no mundo”. Estima-se que 72% da população mundial vive sob autocracias, regimes com tendência a ditaduras ou ditaduras claras.
Formalmente, El Salvador ainda mantém a estrutura de uma república democrática presidencialista, com a realização periódica de eleições. No entanto, relatórios internacionais, cientistas políticos e institutos especializados (como o Freedom House e o IDEA Internacional) apontam que o país sofreu uma rápida transição para um regime híbrido ou autocracia eleitoral sob o comando do presidente Nayib Bukele.
Carlos Dada contou que, quando estava há um ano no poder, Bukele entrou armado e cercado de militares no parlamento, sentou-se à mesa da presidência da casa, passou dois minutos sem dizer nada, olhando para cima, e saiu. Do lado de fora, declarou que estava falando com Deus e que este lhe pediu para “ter paciência”. É bom lembrarmos que mensagens celestes não costumam ter lógica e podem mudar a qualquer momento.