
Tudo começou quando ganhei um reloginho chinês que conta os passos diários. Inseri meus dados e ele me disse que, segundo meu peso e idade, precisava caminhar 6 mil passos por dia. Só faltou complementar: “isso é só para te manter viva”, pois na mesma mensagem de instrução ressaltou que, se quisesse me exercitar, o ideal deveria ser mais de 7.500 passos diários. Num primeiro momento, pareceu uma meta fácil de ser cumprida. Corresponde a distâncias de 3,9 e 5,5 km, respectivamente.
Além disso, os especialistas parecem, no geral, concordar com meu relógio chinês. Só para não sair morrendo por aí, deveríamos andar entre 4 e 5 mil passos por dia. Caminhar entre 7 mil e 10 mil passos, porém, maximiza a proteção cardiovascular, controla a glicose e combate os malefícios de passar muito tempo sentada.
É nesta última parte que mora o problema. Em um dia normal, trabalhando em casa e sentada em frente ao computador, é impossível cumprir até meu objetivo mínimo, mesmo fazendo meia hora de esteira na academia. O relógio não está nem aí se faço musculação, pilates ou qualquer outro exercício.
Passei, então, a incluir caminhadas “artificialmente” em minha rotina sempre que possível, por exemplo, indo a pé a lugares onde normalmente iria de carro ou de metrô, ou dando voltas pelo bairro flanando. Mesmo com o tempo mais livre que tenho atualmente, ainda assim é difícil cumprir meu propósito.
Mas tomei gosto pela coisa. Tanto que me inscrevi para uma caminhada de longa distância. Junto com um grupo de nove mulheres, percorreremos neste mês de setembro, em quinze dias, os 300 quilômetros do Caminho Cora Coralina, em Goiás. Meus familiares e amigos incentivam, mas, no fundo, estão desesperados: “Ela sabe que tem 62 anos? Que é preciso ter muito preparo?”. São perguntas que fazem ao pobre do meu marido assim que saio de perto.
Claro que é desafiador, entretanto, não é antinatural. Do ponto de vista antropológico e anatômico, o corpo humano foi desenhado para se deslocar grandes distâncias, entre 10 e 15 km por dia. Povos caçadores-coletores atuais que mantêm hábitos ancestrais, como a tribo Hadza na África, caminham rotineiramente mais de 13 km diários.
Nas minhas pesquisas (nada profundas, confesso), andar de 20 a 30 km em um único dia, como farei nesta peregrinação rural-literária, é viável para quem tem bom condicionamento, mas exige preparo físico. E estou me preparando. Tenho feito caminhadas e trilhas mais longas e desafiadoras nos finais de semana, além de intensificar meus exercícios. Fiz uma caminhada guiada pelo Circuito das Frutas, no interior de São Paulo, de 23 km. Saí de lá e fui a um show no mesmo dia. E ainda caí na dança.
Nada disso garante que conseguirei fazer todo o caminho, não quero provar nada a ninguém, tampouco a mim mesma. Desafiar-me é prazeroso porque me motiva e tira da zona de conforto. Mas será uma aventura controlada, com equipe de apoio, com a qual poderei contar se não aguentar o tranco. O que mais espero nas minhas andanças é ter boas histórias para contar.