
And you are young and life is long
And there is time to kill today
And then one day you find
Ten years have got behind you
E você é jovem e a vida é longa
E ainda há tempo para jogar fora
E então você percebe um dia
Que dez anos ficaram para trás
(Time, Pink Floyd – tradução do autor deste artigo)
Em 1991, meu último ano de Ensino Médio (que na época chamávamos de Segundo Grau), minha professora de português nos incumbiu, durante uma das últimas aulas do ano, a escrever uma redação no formato de uma carta para nós mesmos no ano 2000 – então ainda a quase uma década de distância. Adoraria ter essa carta ainda hoje para talvez me constranger na presença de vocês, meus sete ou oito leitores, citando a prosa constrangedora de um adolescente de 17 anos que pensava escrever muito melhor do que escrevia de fato, apesar dos elogios calorosos com que a professora na época recebeu meu texto. Mas não tenho mais nem essa carta nem nenhum trabalho escolar, então desse vexame estou salvo.
Não sei se o impulso da professora para passar essa tarefa específica foi de algum modo inspirado pelo filme do suíço Alain Tanner, Jonas que terá 25 anos no ano 2000, um filme que eu não conhecia na época e só fui saber que existia uns anos depois, quando o assisti após pegar numa locadora. O filme é lindo, e lembrar dele é melancólico ao perceber, em retrospecto, que o mundo enveredou por caminhos totalmente imprevistos e cada vez mais distante da utopia comunitária que os personagens do filme tentam pôr em prática.
Para mim, que vi o filme ali por 1996, ele, na época, não parecia ser o que eu estava esperando. Talvez porque eu quisesse acompanhar a coisa mais pelo ponto de vista do tal Jonas do título, e não da geração de seus pais, uma vez que eu, naqueles jovens anos 1990, tive uma estranha e indefinida identificação com o título, porque, nascido em 1974, no mês de junho, eu chegaria ao ano 2000 e viveria seis meses nele ainda com a idade de 25 anos, como o suposto Jonas que representa a utopia daqueles velhos combatentes da utopia já um tanto desiludidos.
Me lembrei disso agora, ao perceber que, prestes a fazer 52, tenho hoje, sem nem dar por isso, o dobro da idade que tinha no ano 2000, que parece ter sido ao mesmo tempo ontem e há tanto tempo. Com o prazo deste texto começando a morder meus calcanhares, cheguei a revirar na cabeça a possibilidade de compor uma nova “carta para o meu eu do ano 2000”, que seria informada não pelas vagas esperanças e muitas incertezas que eu sentia na adolescência, mas por um tom mais analítico, percebendo, comentando e acusando as muitas falhas que eu percebo naquele personagem que fui naquela época.
Desisti da empreitada não por alguma vergonha qualquer de quem fui ou de ventilar essa percepção, mas pelo simples fato de que meu gosto estético hoje se rebela e se insurge de modo visceral à forma da “carta para si mesmo”. É um tipo de composição brega e autoindulgente que hoje em dia eu só escreveria sob a ameaça de me quebrarem os dedos com um martelo. Uma masturbação emocional barata disfarçada de autoanálise.
Assim, deixei a ideia da carta de lado, mas aquele jovem Carlos André do ano 2000 seguiu assombrando meus pensamentos. Talvez seja apenas um efeito colateral de uma ideia que maturo há alguns anos de desenvolver um romance-coral sobre o mundo do ano 2000 – uma ideia que foi ela própria resultado do modo atabalhoado como vivi aquele período. Comecei o ano vendo os fogos na beira do Gasômetro, ao lado daquela que seria, na época, a mulher da minha vida, e terminei deprimido, morando numa quitinete sem mobília, mergulhado em romances fugazes infelizes e me recuperando de um acidente de trânsito e de uma cirurgia.
A história é longa demais para contar inteira, mas naquele ano me separei, emagreci vinte quilos, vivi quase um ano de dores intensas que só bem tarde foram descobertas como uma crise de vesícula biliar. A cirurgia foi normal, mas a recuperação foi bem lenta – mais de mês, ao contrário das duas semanas prometidas. Nesse processo, emagreci mais 15 quilos. Fico pensando nisso, aliás, uma vez que estou tentando concluir a leitura do romance Infinita, da Camila Macari, em que a protagonista, uma mulher que embarca em uma jornada de reflexão sobre os rumos da própria vida depois de ficar tão gorda que quebra uma cadeira em um bar de calçada. Eu deveria e até gostaria de emagrecer, mas, coincidentemente, os períodos mais magros de minha vida foram os mais frágeis e infelizes. Fome e dificuldades financeiras nos anos de 1993/1994, depois da morte do meu pai, e as dores físicas e psicológicas daqueles primeiros anos 2000.
À parte disso, eu me lembro muito bem daquele Carlos André dos primeiros anos 2000 como um grandíssimo babaca. Arrogante, irritadiço, mercurial, descontrolado, mergulhado demais na própria cabeça e nas próprias questões para perceber muito do mundo à sua volta. O que é hilário de lembrar quando penso que já naqueles primeiros anos 2000 eu me sentia bastante distante dos defeitos que via em mim nos anos 1990, quando eu era um militante de esquerda radical cheio ainda das coisas que havia trazido de uma criação no interior do Rio Grande do Sul, entre elas uma homofobia de fachada da qual me constranjo até hoje.
Não havia nos rompantes de despautérios homofóbicos com os quais eu gostava de chocar os demais nada de verdadeiramente sincero, pensando agora, era mais o teatro da macheza gaúcha preocupada em “não ser confundido com veado”. Até o dia em que me caiu a ficha: “E se for, e daí?”. Quem tinha problema com isso costumava ser os caras mais babacas do ecossistema. Por que diabos eu queria me juntar a essa turma? Pra quê?
Como eu disse, já no início dos anos 2000 eu tinha meio que amenizado muito dessa parte pouco elogiável da minha performance pública, logo, eu olhava para meros cinco anos antes e pensava: “Cara, como eu era babaca”. Sendo ainda um imenso babaca. Talvez o maior objetivo da vida humana nesta terra seja esse: reconhecer a cada cinco ou dez anos como você era babaca e tentar não ser mais aquele babaca naqueles temas específicos – mantendo sempre aberta a possibilidade de você ainda ser um babaca em vários tópicos imperceptíveis que só farão sentido no futuro.
Eu me lembro, portanto, de ser jovem, cabeludo (isso eu realmente sinto falta), estar perdido, com uma vida planejada ruída diante dos meus pés e uma total confusão para retomar o caminho. Mas que se dedicava ao trabalho no jornalismo como uma das âncoras em que se manter a salvo. Não sinto pena daquele que fui, apenas uma solidariedade doída. Porque ele afundava num mundo pessoal desconjuntado enquanto ainda havia à sua volta muita coisa boa acontecendo. Tempos sem ascensão de um olavismo como esteira intelectual do puro individualismo babaca. Tempos em que o evento a “colocar Porto Alegre no mapa” era o Fórum Social Mundial, e não essa Comic-Con do neoliberalismo contemporâneo que é o South Summit.
Sei lá. Hoje que me vejo uma pessoa melhor do que naquela época, me parece que os tempos pioraram – sei que todo velho acha isso, mas defendo em minha visão uma leve diferença. Todo velho acha que no seu tempo tudo era melhor, inclusive ele. Eu reconheço que era uma pessoa pior e que os tempos não eram melhores, mas que ao menos havia no ar uma possibilidade de sonhar com uma mudança positiva. Talvez eu não esteja frequentando os “rolês” certos, mas isso me parece hoje ausente. Olhado em retrospecto, é como se o início do milênio fosse um futuro que envelheceu mal.
Acho que, como os personagens de Jonas, que terá 25 anos no ano 2000, talvez o que eu mais sinta falta seja mesmo daquela esperança de utopia. Ou ao menos, a sensação, hoje aparentemente perdida, de que a utopia futura estava do nosso lado…
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