
Nunca me falta assunto aqui na Sler. Escrevo sobre tudo: um passeio não planejado, uma lembrança infantil ou mesmo uma previsão para o futuro. Qualquer informação que me leve à reflexão e à pesquisa pode parar na minha coluna como crônica. Às vezes escrevo em um tom mais sério, citando referências bibliográficas ou falas de especialistas; em outras, apenas converso com o leitor em uma espécie de desabafo. Há ainda situações em que misturo todos esses recursos, sem me preocupar com rótulos. Começo por um caminho e termino em outro, deixando que as palavras tomem o rumo que lhes convém.
Outra situação bastante corriqueira acontece quando uma nova informação surge depois de um longo período, reacendendo em mim a vontade de retomar algo que eu já havia encerrado. Nesses casos, volto a encher linhas e só paro depois de duas ou três páginas prontas. A verdade é que, a cada dia, surge um novo tema que puxa outro, depois mais outro, e de repente uma fila já se formou sem que eu me desse conta. Ainda assim, há assuntos que não se esgotam em um único texto e me induzem a escrever sobre eles até não ter mais o que dizer.
Foi o que aconteceu com a crônica da semana passada (leia aqui). Embora eu a tenha finalizado, não me pareceu completa. Eu queria dizer mais, provocar mais, mas não encontrei as palavras certas para insistir naquele momento. Regresso, então, não exatamente de onde parei, mas a partir de outro ponto, recorrendo a um recurso do qual nunca me canso: a literatura.
Outro dia comecei a ler Sete Anos, coletânea de crônicas de Fernanda Torres, lançada em 2014 pela Companhia das Letras. Apesar de gostar muito da escrita, pausei a leitura assim que terminei, o texto que abre o livro e relata a experiência vivida pelo elenco e pela produção durante as filmagens do filme de Ruy Guerra. Baseado no romance Quarup, de Antonio Callado, o filme acompanha a trajetória de Padre Nando, vivido por Taumaturgo Ferreira. Ambientado entre as décadas de 1950 e 1960, apresenta o personagem em meio a uma crise íntima que o afasta do sacerdócio e o leva ao Xingu, onde passa a se envolver na resistência ao regime militar.
O que poderia se limitar a um registro de bastidores ganha outra dimensão quando Fernanda compara as emoções sentidas ao assistir ao filme Xingu, de Cao Hamburger, com a sensação de retornar ao mesmo lugar depois de tanto tempo.
“Os dois filmes se fundiram no meu imaginário. A distância que os afasta mede a história do cinema no Brasil, desde os estertores finais da Embrafilme até os dias de hoje. O pouco que assisti na tela me fez imaginar que Xingu, através dos irmãos Villas-Bôas, tivesse finalmente feito a ponte da ciência e da arte cinematográfica com o que temos de mais puro e primitivo. Na minha vida, o hiato entre Kuarup e Xingu marca o fim do desejo suicida da juventude de passar por experiências marcantes e o início da serenidade de quem foge de uma locação prolongada como o diabo foge da cruz.”
Os dois filmes, embora produzidos em épocas diferentes, remetem à criação do Parque Nacional do Xingu, oficializada em 1961. A proposta, defendida pelos irmãos Villas-Bôas, surgiu em meio ao avanço das frentes de ocupação e ao risco de desaparecimento de povos inteiros, buscando assegurar um território onde diferentes etnias pudessem viver protegidas, preservando suas terras, culturas e modos de vida. Essa iniciativa, apesar de representar um marco importante diante de um cenário de invasão constante, impôs limites ao estabelecer fronteiras para povos que antes circulavam livremente.
Para sobreviver aos ataques do homem branco, os verdadeiros donos da terra precisaram se isolar, abdicando de territórios que antes lhes pertenciam. Ao acompanhar essas histórias, seja pela literatura ou pelo cinema, percebemos que o Xingu se tornou um espaço de disputa e de tentativa de proteção que ainda hoje exige atenção.
Por isso, não há como encerrar o debate sobre a luta dos povos indígenas. Ainda há muito a ser revisto. E, se a palavra é a minha forma de contribuir para essa discussão, não tenho dúvida de que esse tema ainda voltará a atravessar o meu caminho.
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