
O único grupo etário que continuará crescendo no mundo neste século, de acordo com a ONU, é o de pessoas 60+. Mas ainda vivemos num mundo em que informações como essas são recebidas com aparente surpresa, mesmo que o processo de transição demográfica venha ocorrendo, e sendo anunciado, no país e no mundo, desde 1970.
No Brasil, conforme dados da PNAD Contínua, anunciados nesse mês de abril, nos últimos 12 anos houve um incremento de 58,7% da população 60+, enquanto que ocorreu uma diminuição das pessoas com menos de 30 anos de 49,9% em 2012 e de 41,4% em 2025.
Quando se apresentam as informações acima, muito se fala sobre previdência, porque diminuirá o número de contribuintes para ela em contrapartida ao de pensionistas, e aumento da pressão sobre o sistema de saúde, porque hoje 70% das pessoas com 60 anos ou mais dependem do SUS, como se apenas essas dimensões fossem ser impactadas na sociedade e de maneira caótica.
É preciso incluir outras áreas da sociedade quando miramos o futuro da sociedade longeva com a qual conviveremos. Amanhã, no 1º de Maio, homenageamos e celebramos trabalhadores, bem como lembramos lutas por melhores condições de trabalho, e essa é uma dimensão fundamental se queremos pensar um país próspero em que existirão mais pessoas 60 mais do que crianças e adolescentes a partir de 2030.
Afinal, essa transição demográfica significa que, com menos jovens no mercado de trabalho e um número cada vez maior de pessoas envelhescentes e envelhecidas, o mercado precisará se reposicionar e se adaptar, quer queira, quer não.
Em algum momento não vai conseguir priorizar o jovem profissional para suas vagas, como é o padrão hoje. Em algum ponto do futuro, precisará deixar seu idadismo de lado e ter na maioria do seu grupo de colaboradores profissionais mais velhos, que hoje sequer são considerados.
O que é Idadismo / Etarismo / Ageísmo
O termo ageism foi cunhado em 1969 pelo médico, psiquiatra e gerontologista norte-americano Robert Neil Butler. No Brasil, foi traduzido como ageísmo e é sinônimo de idadismo ou etarismo. A Organização Mundial da Saúde (OMS), em seu Relatório Mundial sobre Idadismo, recomenda o uso do termo idadismo.
Idadismo é o fenômeno social que se refere à forma como pensamos (estereótipo), sentimos (preconceito) e agimos (discriminação) com as pessoas com base na idade (da infância até a velhice) que elas têm.
Conforme estudo feito com milhares de pessoas no mundo todo, uma em cada duas pessoas é idadista em relação a pessoas idosas. Entende-se que o idadismo é maior conforme a pessoa envelhece, pois, entre outros dados – também por pesquisas –, sabe-se que estereótipos e preconceitos positivos são claramente mais identificados em crianças, jovens e adultos do que em pessoas idosas.
No trabalho
Apesar de termos uma legislação que “proíbe discriminação em processos seletivos por idade, gênero, raça, estado civil, origem e deficiência”, sabemos que o mercado de trabalho está longe disso e que precisa praticar para chegar a um patamar de igualdade e equidade entre esses pilares.
A maior longevidade das pessoas e, com essas pessoas sendo a maioria, vindo de todas as origens, gêneros, estados civis, com ou sem deficiência, com a maior diversidade existente na sociedade, proporcionará variados impactos para o mundo do trabalho.
A visão dos 50+
No caso específico da idade, este ano foi divulgada uma pesquisa realizada pela Maturi em parceria com a consultoria Rhopen, feita com profissionais 50+. Nela buscaram “compreender como profissionais com 50+ percebem sua trajetória no trabalho, quais fatores influenciam sua permanência ou desejo de mudança, como avaliam as oportunidades disponíveis e de que forma vivenciam desafios, expectativas e decisões ao longo da carreira”.
· Os textos revelam que a expectativa não é por espaços exclusivos, mas por equipes diversas, convivência cotidiana e trocas genuínas de conhecimento: “Quero aprender com os mais jovens”, “Não precisamos ser separados por idade”. “Mistura gera troca real”.
· A segmentação por gênero indica percepções distintas sobre o respeito à idade no ambiente de trabalho. Enquanto homens 50+ tendem a perceber maior reconhecimento associado à idade, mulheres 50+ relatam níveis mais baixos dessa percepção. O dado sugere que o envelhecimento profissional tem sido vivenciado de forma diferente entre homens e mulheres.
· 85% dos profissionais 50+ afirmam que suas organizações não oferecem apoio à transição de aposentadoria. Para profissionais que desejam permanecer ativos, planejar transições graduais ou reorganizar seus projetos de vida, a ausência desse apoio pode dificultar decisões e gerar incertezas sobre o futuro profissional.
57%, ou seja, 6 em cada 10, relatam já terem se sentido discriminados por idade em processos seletivos.
· 23% dos profissionais 50+ afirmam já terem ocultado sua idade para aumentar as chances no mercado de trabalho, ou seja, ¼ tem como estratégia omitir sua idade para não ser rejeitado nos primeiros estágios de um processo seletivo.
Acompanhando o olhar dos 50+ por meio desse estudo, uma das conclusões apresentadas pelos pesquisadores é a de que “de um lado, (há) pessoas (50+) dispostas a seguir contribuindo. Do outro, estruturas que são percebidas como ainda operando com modelos curtos de carreira, ciclos mal definidos e uma dificuldade persistente de lidar com a longevidade profissional. Para os profissionais 50+, não se trata de resistência à mudança, mas de um mercado que muda sem incluir todos no processo”. Quem irá discordar?
A visão das empresas
A Labora com a Robert Half conduziram em 2023 e 2024 estudo sobre diversidade geracional nas organizações, idadismo e inclusão, com as empresas, e dele extraíram resultados importantes:
Em 2024, a maioria das empresas (61%) ainda não havia tomado medidas para reter profissionais acima de 50 anos. No entanto, esse número representava uma melhoria em relação ao ano anterior, quando 71% das empresas admitiam não ter feito nada a respeito.
Quando questionadas diretamente, 63% das empresas afirmam nunca ter vivenciado casos de etarismo. No entanto, quando analisadas as respostas mais detalhadamente, essas mesmas empresas reconhecem que as oportunidades de desenvolvimento não são iguais para todas as idades e que ainda há espaço para avançar; 69% das empresas respondentes reconhecem que não oferecem oportunidades equitativas para diferentes idades em seus ambientes de trabalho.
Segundo a pesquisa, 67% dos respondentes acreditam que é crucial oferecer treinamento sobre o tema para as lideranças, e 66% consideram eficaz promover informações e palestras sobre etarismo para todas as pessoas colaboradoras.
77% das empresas afirmam não ter iniciativas intencionais para ampliar a diversidade geracional em seus processos seletivos. Destas, 39% afirmam que estão discutindo a implementação de medidas, enquanto 38% acreditam que não precisam de ações específicas, assumindo que qualquer pessoa pode participar dos programas existentes sem ajustes adicionais para incluir pessoas mais velhas.
Em uma em cada quatro empresas respondentes, profissionais 50+ representam até 5% da força de trabalho. Apenas 13,3% das empresas têm profissionais acima de 50 anos que constituem 25% ou mais do quadro de pessoas colaboradoras. No levantamento do ano passado, essa proporção era de 12,50%, indicando que os números permanecem estáveis, sem uma tendência clara de mudança.
Um dado alarmante é a falta de consciência ou disponibilidade de dados sobre a relevância dessas informações. Enquanto 10% das empresas afirmam não saber o percentual de profissionais 50+ em sua força de trabalho, essa incerteza aumenta drasticamente para 38% quando se trata de interseccionalidades, como o percentual de pessoas LGBTQIA+ 50+.
Consonância
Por esses olhares, dos profissionais 50+ e das empresas, percebemos a consonância do idadismo estrutural existente no mercado de trabalho e a necessidade urgente de ação, posto que a transição demográfica deixou de ser previsão para ser um fato.
A mudança desse idadismo estrutural vai ser por bem ou por mal? É ruim tratar dessa maneira assunto tão sério, mas o envelhecimento no perfil etário dos profissionais brasileiros já está acontecendo, rápida e continuamente. Mas empresas estão resistindo, e isso não é inteligente. Enquanto isso, as empresas estão perdendo talentos e estão sendo desperdiçados por causa do idadismo.
Eleições
Em ano eleitoral no qual estamos, seria um bom momento para que candidatos ao Legislativo e Executivo incluíssem em seus programas propostas específicas a respeito, ampliando seu repertório sobre a Revolução Prateada para além da Previdência e SUS. Fica aqui a sugestão.
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.

