A jornalista Silvia Poppovic afirmou que tem milhões de seguidores porque evita temas polêmicos. Eu sigo outro caminho. Não escrevo para conseguir likes, escrevo para provocar reflexão. E é justamente por respeitar a inteligência dos meus leitores que proponho questionar o que me parece um equívoco da política contemporânea: a crença de que os rótulos “esquerda” e “direita” ainda explicam quem somos, o que pensamos e, sobretudo, em quem deveríamos votar.
Na prática, grande parte das pessoas não vota por identificação profunda, mas por rejeição ao adversário. O debate político virou um jogo de etiquetas: quem é “de esquerda” é tratado como comunista; quem é “de direita”, como fascista. Só que a realidade é muito mais complexa do que slogans de internet. A maioria das pessoas deseja justiça, segurança, liberdade e menos corrupção.
O problema é que muitas dessas discussões perderam profundidade e foram substituídas por paixões automáticas. Há quem defenda meritocracia com fervor e nunca se perguntou se ela vale para quem nasceu sem escola, sem saneamento e sem rede de proteção. Há quem fale em liberdade, mas não suporta conviver com quem pensa diferente. Há quem condene programas sociais e ignore que, para milhões de famílias, eles representam a diferença entre a fome e a sobrevivência. E há quem considere que todos os políticos são corruptos, que todos são iguais e, portanto, tanto faz em quem votar.
Merece atenção especial o fenômeno do “pobre de direita”: o motorista de aplicativo, o microempreendedor, o autônomo que rala doze horas por dia e vota em candidatos que defendem interesses dos grandes empresários e do mercado financeiro. Essa pessoa frequentemente enxerga no beneficiário dos programas sociais um adversário, não percebe que ambos são, na prática, vítimas do mesmo sistema que os mantém vulneráveis. Enquanto isso, o jovem não se engaja politicamente e muitas vezes adota bandeiras de influenciadores sem examinar os interesses que financiam essa comunicação tão eficiente.
O exercício que proponho é o seguinte: converse com pessoas que você identifica como de esquerda e de direita, e faça as mesmas perguntas a todas. O Estado deve socorrer bancos em crise e subsidiar grandes empresas? Deve, ao mesmo tempo, oferecer moradia, saúde e transferência de renda para os mais pobres? Deve regular as big techs? Deve continuar permitindo que conteúdos pornográficos e violentos sejam direcionados para as crianças? E na pauta dos costumes: seria aceitável proibir o aborto para uma menina de 12 anos vítima de estupro? O Estado e a sociedade deveriam se responsabilizar pelas crianças que nasceram resultado de estupros? O Estado deveria adotar uma religião oficial? E se essa não fosse a sua? Se a pessoa for religiosa, aceita conviver normalmente com pessoas de outras religiões ou sem religião? Anote as respostas. Você provavelmente descobrirá que as diferenças entre as pessoas comuns são menores do que os discursos fazem parecer. As maiores contradições, muitas vezes, estão dentro do mesmo grupo ideológico.
A divisão rígida entre esquerda e direita pode ser conveniente para políticos, influenciadores e algoritmos, porque alimenta conflitos permanentes. Democracias não morrem apenas pela intervenção militar, morrem também quando cidadãos abdicam de pensar e delegam suas convicções a um rótulo ou a um algoritmo projetado para manter a raiva. O voto consciente exige o esforço de olhar para além do discurso, examinar o histórico, cobrar coerência e reconhecer que, no fim, o que transforma ou destrói a vida das pessoas não é o discurso de um candidato, mas as consequências concretas das decisões que ele toma quando chega ao poder.
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