
“Até que alguém tenha amado um animal, uma parte de sua alma se mantém adormecida”.
Atribuído a Anatole France
Correr é mais do que mero movimento para um cão; é a própria tradução da liberdade. Quem acompanhou a história de Lola nestas páginas certamente se lembra da Border Collie de três meses, adotada por minha família em estado de extrema fragilidade. Ela havia se recuperado plenamente e agora, aos oito meses, vivia a plenitude de sua juventude nas areias da praia de Cidreira. Para ela, a vida se resumia ao salto, à corrida exuberante atrás dos pássaros à beira-mar e ao vento batendo no focinho. Li certa vez que um cão de sua raça está entre os maiores corredores do mundo animal. Correr é vida; correr é tudo na existência de um cachorro. No entanto, a fragilidade da vida sempre espreita a nossa vã necessidade de controle. Ao chegar ao hotel pet onde Lola passara o fim de semana, deparei-me com um fato que interrompeu nossa rotina de forma brutal: “Foi um acidente. Ela correu, pulou a cerca atrás de uma pomba e se machucou”, disse-me a proprietária do estabelecimento. Ali, na divisa estreita entre a euforia e a tragédia, a história de Lola — e a de nossa família — estava prestes a mudar para sempre.
Sem palavras
Eu olhava para a dona do hotel. Agachada junto a Lola, ela tentava, sem palavras, expressar sua dor pelo ocorrido. Cães são como crianças e, como bem nos ensinaram nossos pais, não podem ser deixados sozinhos por um instante sequer. Por alguma razão, Lola foi deixada, e isso se provou fatal. A proprietária sempre me dissera: “Não se preocupe, aqui estamos sempre juntos, brincamos sempre com ela, sempre tem alguém junto”. E eu sempre acreditei. De fato, sempre que viajava e a deixava ali, tinha certeza de que receberia total atenção; a dona frequentemente me enviava vídeos de Lola correndo pelo pátio. Até agora.
É como se o destino me punisse por ter falado demais. Quando a deixei lá, numa sexta-feira, um casal visitava o local. Como eu só tinha ótimas impressões até então, fiz questão de transmiti-las àqueles tutores. Afinal, eu realmente gostava do espaço: era amplo, e os quartos destinados aos cães incluíam até ar-condicionado. Anteriormente, havia deixado Lola ali por 20 dias durante uma viagem a Lisboa e nada acontecera. Contudo, nos momentos que antecederam a minha chegada naquela segunda-feira para buscá-la, o destino foi cruel. O grito agudo de Lola ecoou pelo hotel. Os ajudantes e a proprietária correram para ver o que houvera. Ela estava no chão, com a pata severamente machucada pelo impacto do salto.
Quanto pode um cão saltar?
Eu já havia perguntado à proprietária se ela já vira Lola tentando pular as cercas do estabelecimento, e a resposta fora negativa. Questionava isso por pura preocupação com a sua capacidade de salto, o que também discuti com seu adestrador. “Ela pode pular até 1,20 metro”, ele me dissera. O dado me aliviava em relação à cerca de casa, mas mantinha meu alerta quanto à proteção da piscina. Ao observar as divisórias do hotel, notei que algumas eram altas, mas outras nem tanto. Daí a surpresa da proprietária com o feito de Lola. “Eu não imaginava que ela iria pular”, repetia, ainda agachada ao lado da cadela caída, enquanto me narrava o que aconteceu. Fiquei pensando: se eu tivesse chegado alguns minutos antes, teria evitado a tragédia?
Nessas situações em que acidentes ocorrem em espaços de terceiros, pareceu-me correto exigir que a primeira intervenção fosse responsabilidade do hotel; afinal, o acidente ocorreu sob sua guarda. A dona prontamente a levou à sua veterinária de confiança, que providenciou um raio-X e, em seguida, a um hospital veterinário de periferia para o primeiro atendimento. Combinamos de nos reencontrar lá, mas, impossibilitada de comparecer, ela enviou seu pai — trata-se de uma empresa familiar. No hospital, a veterinária plantonista realizou os procedimentos necessários sob anestesia para recolocar os ossos da pata no lugar. Após um novo raio-X de controle, advertiu-me: “É uma região muito delicada, equivalente ao nosso pé, repleta de ossos pequenos e fundamentais”.
Futuro incerto
Começava ali uma página inédita e sombria na história de Lola. Ela se recuperaria? Carregaria lesões permanentes? O que significa um acidente na vida de um cão — e o que ele projeta em nossa própria existência? Dias depois, olho pela janela. Meu vizinho de praia, A., possui diversos cães e alguns gatos. Ele solta os dois cães maiores de vez em quando, e eles sempre retornam religiosamente. Há, entretanto, dois menores. O primeiro é Hot, um cão a quem costumamos chamar de “fiapo de manga” devido ao seu aspecto magro, pertencente a uma dessas raças que se tornaram febre nas novelas atuais. Na realidade, eu o vejo como o personagem Neo, do filme Matrix, em versão canina. Seus saltos em direção à parede e a velocidade de seus reflexos lembram os movimentos do personagem do filme na clássica cena do metrô, duelando contra o Agente Smith. O segundo é Tequila, uma cadelinha que, desde que a conheço, exibe uma patinha acidentada e recolhida. Ela caminha de forma claudicante, “perneta”, experimentando o mundo a partir de sua condição especial. Vive em desvantagem, mas vive intensamente: corre, com evidente dificuldade, atrás dos outros cães na rua e observa a vida sob a ótica única que só um cão deficiente possui, sem a velocidade de Hot. Esse é o retrato da desigualdade canina. Não basta ser um cão de família humilde — pois este ainda pode ser amado —; quando surge uma deficiência física, toda a história de um cão é irremediavelmente alterada.
A veterinária do hospital explicou-me a gravidade do quadro. Afirmou que a luxação era severa e que sequelas eram prováveis. “Indico este médico veterinário; ele é um ortopedista excelente”. Como ela havia conseguido reduzir a luxação de Lola, gozava de nosso crédito; era uma profissional idosa, daquelas que se recusam a se aposentar porque a profissão se confunde com a própria vida. “Está vendo estas mãos calejadas? É de tanto ajustar ossos de cãezinhos como Lola”, disse-me com orgulho.
Cuidar de um cão
De volta ao meu apartamento em Porto Alegre, situado no primeiro andar, enfrentamos o primeiro obstáculo: o hall de escadas. Embora seja um trajeto tranquilo para mim e minha esposa hoje, sabemos que, no futuro, esses degraus cobrarão seu preço. Joelhos sempre serão joelhos. Teve início, então, o processo de adaptação. Com a pata enfaixada e imobilizada, Lola ficou impossibilitada de subir as escadas. Restou-me a tarefa de carregá-la no colo, degrau por degrau. Devo isso a ela por todos os momentos de felicidade que nos proporcionou e que ainda nos proporcionará: eu a carrego agora como ela me conduzia em nossos passeios, e essa inversão de papéis é suficiente para fazer brotar uma lágrima em meus olhos.
Há três necessidades básicas que resumem a rotina biológica de um cão e que bem poderiam intitular um filme: comer, urinar e defecar, ou… bem, você entendeu. Os Border Collies são pontuais como os ingleses com o chá das cinco. Tornou-se obrigatório estar disponível para descê-la à pracinha a cada duas horas para urinar e ao menos três vezes ao dia para defecar, totalizando cerca de seis saídas diárias. São seis viagens de subida e descida, carregando um animal de 25 quilos nos braços de um idoso de 62 anos. Lola percebe o meu esforço físico e parece lamentar por isso; lambe-me a testa, um gesto que, na linguagem canina, expressa imensa gratidão e alta estima.
O caminho para a cura
Seguindo a recomendação da primeira veterinária, buscamos a clínica indicada, localizada em um bairro nobre da capital. Tratava-se, visivelmente, de um estabelecimento voltado a uma clientela de alto poder aquisitivo e seus animais de luxo. Minha Border Collie enquadrava-se nesse perfil? No máximo, era um cão que sofrera uma espécie de “queda social”: longe de pastorear rebanhos de ovelhas nas ricas fazendas escocesas, ela teve o azar — ou a sorte? — de nascer em um criadouro semelhante ao retratado no filme Marley & Eu, em que os animais são tratados meramente como fontes de renda e reprodução. Foi ali que a encontrei. No saguão do hospital veterinário, desfilavam exemplares de Lulu da Pomerânia, telas de TV decoravam as paredes e o estacionamento dispunha de manobrista exclusivo.
Enviamos os exames ao especialista com antecedência. Contudo, mesmo em um ambiente requintado, observei que a impontualidade impera. O veterinário atrasou-se consideravelmente. “Ele está em um procedimento cirúrgico”, justificou a secretária. “Compreendo”, respondi, pensando que emergências são rotineiras em um hospital. Quando ele finalmente surgiu, minha primeira reação foi traçar um paralelo imediato: Lola seria atendida pelo… The Rock! Refiro-me, claro, ao personagem célebre do ator Dwayne Johnson. O veterinário impunha-se pela estatura física, tangenciando os 1,90 metros de altura. Fiquei a pensar como um cirurgião, de quem se exigem mãos milimetricamente delicadas, possuía um porte tão corpulento. Sem rodeios, ele disparou: “Onde estão os raios-X?”. Expliquei que haviam sido entregues na recepção e terminamos por analisar as imagens diretamente na tela do meu celular. Ele as examinou de relance e sentenciou: “É grave. Caso cirúrgico. É algo comum; fiz uma cirurgia idêntica na semana passada. Não é urgente, mas precisa ser feita”. A fala parecia calculada para transmitir segurança. Questionado sobre o prognóstico, garantiu: “Após a cirurgia, a pata fica como nova, ela voltará a correr normalmente, tudo retorna ao normal”. Eu queria muito acreditar nisso. Solicitou de imediato os exames pré-operatórios de sangue, que realizamos ali mesmo.
Clínicas veterinárias sob o domínio do capital
Retornamos para casa. À noite, contudo, fomos surpreendidos por uma abordagem desconfortável. Recebemos o orçamento detalhado via WhatsApp. A atendente informou os valores e estipulou que os honorários do cirurgião deveriam ser transferidos imediatamente para assegurar a reserva da data cirúrgica. Passava das 20 horas, eu estava relaxado assistindo a séries coreanas, e o procedimento fora agendado apenas para o final da semana seguinte. A própria consulta determinou que não havia urgência médica, porque a lesão estava estabilizada. Longe de mim desvalorizar a medicina veterinária; cada profissional conhece o valor de seu ofício e já havíamos consentido com a operação. Porém, exigir o pagamento imediato de 6 mil reais de um total de 9 mil, talvez mais, avisara a atendente — no meio da noite, para um ato que ocorreria dias depois, acendeu meu sinal de alerta. Por que a pressa? Por que não resolver em horário comercial? A pressão assemelhava-se aos gatilhos psicológicos utilizados em golpes virtuais. Pedi tempo, controlei a ansiedade e decidi pesquisar.
Foi então que me deparei com a engrenagem do complexo médico-veterinário-capitalista. H. Theis, em seu artigo “Veterinary Medicine: Profession or Business?” (disponível aqui), discute as profundas contradições entre o dever ético da profissão e a lógica mercantilista que a coloniza. Theis argumenta que, embora a cobrança de honorários seja legítima para a sustentabilidade da prática, a atividade não pode ser reduzida ao puro comércio, uma vez que integra a estrutura de saúde pública e carrega uma responsabilidade social que o lucro não pode anular. Esse diagnóstico é corroborado por M. Traub-Werner e colaboradores, no recente estudo “Advocating for the resurgence of the independent veterinary practice segment in the US” (disponível aqui), no qual demonstram como as clínicas veterinárias foram progressivamente convertidas em ativos financeiros altamente lucrativos. O cenário norte-americano serve de espelho para o mercado brasileiro:
“Os serviços veterinários são vistos como mais resilientes em crises econômicas, oferecendo retornos consistentes mesmo durante um ciclo econômico volátil. Os donos de pets pagam pelos cuidados com os animais, mesmo em tempos complicados. Isso, combinado com o custo incomumente baixo do capital nas últimas décadas, criou as condições para uma ágil consolidação de mercado. Os grandes investidores rapidamente construíram uma grande presença no mercado da medicina veterinária. Desde esses primeiros ingressos corporativos na década de 1980, investidores de private equity ou capital de risco (…) e companhias de capital aberto adquiriram todas as clínicas veterinárias independentes. A maioria das práticas corporativas hoje é respaldada por private equity (…). Os grupos que não são de capital aberto geralmente buscam negócios existentes que possam ser aprimorados com eficiência e gestão experiente, para depois vendê-los com lucro. Na maioria dos casos, esses negócios são de propriedade de não veterinários, geralmente de pessoas que vêm de fora da indústria veterinária. Em 2017, as práticas corporativas representavam aproximadamente 10% das práticas gerais de animais de companhia. Hoje, aproximadamente 75% das práticas especializadas e de emergência e 25% das práticas de atenção primária, representando 50% da receita veterinária nacional, pertencem a consolidadores corporativos”.
Uma falsa imagem
A leitura desse panorama abalou-me profundamente. Percebi-me enredado de alguma forma, mais uma vez, nas malhas do capitalismo predatório que critico. Olhando retrospectivamente para a clínica luxuosa, com seu marketing agressivo nas redes sociais, notei que sua estrutura em nada diferia do ambiente corporativo de uma multinacional. O texto de Traub-Werner defende o ressurgimento das clínicas independentes — independentes, precisamente, dessa lógica de acumulação que explora o atendimento. Eu posso estar errado, mas identifiquei ali o que me pareceu uma nefasta simbiose comercial: uma triagem feita por hospitais veterinários de periferia, desenhada para canalizar pacientes a cirurgiões vinculados a grandes empresas veterinárias que lucram com a angústia dos tutores. Trata-se do conceito de “campo” teorizado por Pierre Bourdieu: mesmo quando tentamos nos isolar para focar na cura de um pet querido, as estruturas econômicas nos perseguem. Sob o verniz da excelência técnica, descobri que a clínica acumulava dezenas de reclamações no portal Reclame Aqui. Históricos de supostos erros médicos, cobranças abusivas fora da média de mercado e intimidação por parte do corpo administrativo eram recorrentes. Não encontrei o currículo acadêmico detalhado do cirurgião, apenas retratos publicitários dele sorrindo ao lado de cães, imagens que contrastavam terrivelmente com a realidade nua e crua dos relatos dos clientes. Ademais, por que o hospital veterinário do primeiro atendimento, que dispunha de ortopedista próprio, indicaria um profissional externo? A manobra soou-me antiética.
Eu e D. iniciamos a busca por uma segunda opinião. Confiança era a palavra-chave. Eu não conhecia os primeiros veterinários, mas guardava na memória a figura do Dr. E., veterinário que atua em Cidreira. Decidi consultá-lo. Ele confirmou a existência de uma mercantilização predatória no setor, orientada a indicar cirurgias mesmo quando tratamentos conservadores seriam viáveis. Indicou-me, então, um cirurgião de sua estrita confiança pessoal. Como sou cliente do Dr. E. há mais de duas décadas, segui sua orientação. Lembrei-me imediatamente do filósofo Byung-Chul Han e de suas reflexões em A Sociedade da Transparência (Vozes, 2012). Han expõe que o mercado contemporâneo frequentemente tenta substituir a confiança autêntica por indicadores artificiais de transparência, que podem ser vistos nestas clínicas suntuosas, em suas redes sociais milimetricamente geridas e preços estratosféricos que simulam status. Em seus termos, essa “hipertransparência” funciona como uma vitrine higienizada que mascara a ausência de substância ou de cuidado real, precipitando o que o autor chama de “o inferno do igual”.
A sociedade de controle sou eu
As avaliações negativas encontradas na internet quebraram a ilusão de idoneidade que a estética da primeira clínica sugeria. Sob outra ótica, o meu gesto de vasculhar a reputação digital da clínica e de seu responsável revelou que eu também encarno a vigilância digital descrita por Han. Na falta de uma confiança institucionalizada, recorremos ao controle e ao escrutínio digital. O “não saber positivo” de que fala Han exige, no limite, um salto de fé: jamais deteremos a certeza técnica absoluta sobre um diagnóstico veterinário porque não somos da área. A confiança verdadeira opera justamente no território do “não saber”. O veterinário ideal é aquele com quem estabelecemos um vínculo ético e moral, não meramente comercial. Senti-me resgatado pela sociedade dos rituais do pensador coreano e agendei a consulta com o profissional indicado. Para começar, o valor cobrado era a metade do anterior. A clínica possuía estrutura digna, porém despida de telas de TV excessivas ou manobristas. Antes mesmo de analisar as imagens, o médico colocou Lola no chão e ordenou: “Deixe-a caminhar”. O comando soou como uma terna repreensão ao meu ímpeto superprotetor. Após o exame clínico, concluiu: “Ela é jovem, vamos adotar a via tradicional e permitir que o próprio organismo faça o seu trabalho. Vamos dar uma chance a ela”. Era exatamente o que eu e D. queríamos ouvir. Voltamos à praia.
Um cão é um cão
A realidade, contudo, não se moldou aos nossos desejos. Esperávamos que Lola repousasse e se recuperasse na calmaria do litoral. Mas Lola é, essencialmente, um cão. E a praia transbordava de estímulos. Primeiro, foram os novos cães dos vizinhos que se mudaram para uma casa de temporada próxima; segundo, as investidas ruidosas dos animais de A. que insistiam em latir no portão; terceiro, a movimentação constante do entregador de jornais, dos coletores de lixo e do fluxo interminável de entregas da Shopee. Em suma, o animal que deveria guardar repouso absoluto encontrava motivos para correr e saltar mesmo nos limites estreitos da sala de nossa casa de praia, agravando severamente o seu estado.
Ao retornarmos na semana seguinte para a revisão médica, o cenário era dramático. O atrito constante da tala e do algodão provocara uma laceração no couro de sua perna. O médico examinou o membro, apalpou a articulação e constatou o pior: os ossos haviam se deslocado novamente. Mesmo quando oferecemos tempo ao animal, sua natureza indômita sabota o tratamento. Tanto o Dr. E. quanto o especialista foram categóricos: qualquer que fosse o desfecho, haveria perda permanente de mobilidade. Essa certeza anatômica colidia frontalmente com as promessas milagrosas do primeiro cirurgião, o “The Rock”. Eu queria acreditar em milagres, mas o amor a um cão exige aceitá-lo em qualquer condição. O prognóstico definitivo desenhou-se: uma cirurgia complexa, uma convalescença dolorosa e a redução irreversível dos movimentos. Lola nunca mais correria na beira da praia.
Meu luto
Diante do diagnóstico, olhei Lola no consultório. O comprometimento do tendão da pata traseira extirpara de vez a sua capacidade de arranque. Ela caminhará, certamente, mas as corridas desenfreadas de outrora pertencem agora ao plano das lembranças. Sinto-me em luto. Vivencio esse acidente como uma “pequena morte” de Lola: a morte de sua rotina saudável e de sua vivacidade motora. Choro por dentro. Essa configuração do luto foi descrita pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross em sua obra clássica Sobre a Morte e o Morrer (Martins Fontes, 2017), frequentemente resgatada pelo filósofo Slavoj Žižek para ilustrar crises ideológicas e traumas subjetivos: o luto não se restringe à perda física de um indivíduo, mas estende-se à perda de uma ilusão ou de uma realidade anterior. É o que se passa comigo: desvanece-se a ilusão de correr ao lado de Lola nas manhãs na praia de Cidreira. Nos termos da psiquiatra, sinto a deficiência física de Lola como uma “pequena morte”.
Atravessei cada uma das etapas descritas por Kübler-Ross. A primeira foi a negação, materializada na busca incessante por uma segunda opinião que contestasse a gravidade do quadro. Minha esposa, D., já ultrapassou essa fase e encontra-se na etapa da raiva. Sua indignação direciona-se contra o desleixo dos cuidadores do hotel pet, movida por um legítimo desejo de responsabilização. Eu, por minha vez, barganharia com a própria realidade se isso fosse viável; se fosse rico, financiaria tratamentos experimentais no exterior se houvesse promessa de restauração total de sua mobilidade. Protelar a decisão nessas duas semanas foi, nos termos de Zizek, o esforço desesperado de adiar o inevitável por meio de uma solução mágica — justamente a fantasia mercantil que o primeiro veterinário tentou nos vender. Para Zizek, após o ato cirúrgico, confrontaremos o “deserto do real”: a vida prática sob a nova limitação. Emergirá, então, a aceitação de que fala Kübler-Ross. A dor não desaparecerá, tampouco o erro do hotel será esquecido, mas será imperativo amar o cão em sua nova condição, colocando em prática o que o Zizek chama de reestruturação subjetiva para que novos canais de afeto possam florescer.
O que faz um cão feliz?
Para Lola, a felicidade possuía uma assinatura olfativa e física muito clara: a fusão de sal marinho, sargaço úmido e aquela maresia espessa que prenunciava a liberdade. O universo ganhava sentido no exato instante em que a guia era desatada e ela corria pela praia. Naquela fração de segundo, ela deixava de ser um animal doméstico para se converter em pura força elementar da natureza. Suas patas golpeavam a areia molhada em um ritmo acelerado, deixando ao redor nuvens translúcidas de espuma do mar. Corria sem preocupação com seu destino, impulsionada pelo milagre intrínseco da velocidade de seu movimento. É a materialização pura da teoria de Paul Virilio: se o cão é uma máquina biológica de velocidade, corrida e exploração do espaço, sua luxação é o acidente específico de seu movimento. Se a velocidade possibilitava Lola dominar o mundo, seu acidente, ao reduzi-la a um mancar doloroso, transforma o espaço em um lugar hostil. É a perda de sua potência dromológica. Lola experimenta a estatização do corpo, passando a depender mais de nós para se mover ou se alimentar. Eu e D. testemunhávamos aquela apoteose vital e sentíamos que a alegria dela justificava a nossa. Lola funcionava como o motor de nossa casa. Estávamos habituados a um motor 2.0; agora, aprenderemos a guiar uma vida 1.0.
Tristan Gooley, em sua obra Como ler uma árvore (Olhares, 2025), ensina a decifrar os segredos íntimos da natureza por meio dos padrões das cascas e das folhas. Sinto-me um detetive semelhante, decodificando a alma de Lola após o acidente. Para um observador casual, o comportamento dela pós-trauma assemelha-se ao de qualquer cão convalescente; para mim, revela uma mutação profunda em sua natureza. A convivência estreita destes meses permitiu-me catalogar cada nuança de seu temperamento. Com o acidente, ela já está mudando.
Quem salva os cães?
Os animais possuem uma linguagem refinada, sobretudo quando o mundo desaba sobre suas patas. A dor de um cão não se verte em lágrimas, mas manifesta-se na incompreensão diante do próprio corpo que falha. Minhas lágrimas, contudo, são reais. Nos dias subsequentes ao acidente, nosso apartamento foi ocupado por um silêncio denso. Lola, antes um cão de força inesgotável, passava mais horas prostrada. Na praia, limitava-se a ir ao pátio para suas necessidades básicas de forma claudicante, retornando imediatamente para o abrigo da sala — um recolhimento impensável antes da tragédia. Quando o sofrimento físico diminuía, ela aguçava os ouvidos para captar os ruídos da rua ou vinha brincar conosco. Numa noite, a cadelinha deficiente do vizinho permaneceu junto ao portão por longos minutos. Estaria ela ali para pedir que abríssemos a passagem ou viera manifestar uma silenciosa solidariedade canina a Lola? Ambas me fitavam com olhos esféricos e úmidos, que pareciam indagar: “O que foi que fizemos de errado?”.
Nos dias de temperatura amena, Lola ainda ensaia mais brincadeiras. Arrasta um brinquedo de sua cesta, mas logo se senta, cansada. Falta-lhe o vigor ancestral da raça para sustentar o jogo. Eu e D. assistimos a essa oscilação crônica entre a euforia e a apatia. Por vezes, sua chama vital parece eclipsada. Outras vezes, não. Contudo, mesmo sob o peso do mal-estar, ela busca nos lamber. Recordo-me de Jay Griffiths em Como os animais nos curam (Olhares, 2026), livro no qual a autora inventaria casos literários e históricos de animais que atuam como escudos terapêuticos e mestres silenciosos da empatia. Lola espelha os cães de Griffiths: resiste à sua própria ruína física para tentar nos resgatar da melancolia, tentando curar a nossa tristeza em detrimento de suas próprias dores. Se um cão é capaz de mitigar a angústia humana, como eu poderia atenuar a dor crônica de Lola?
Um cão triste
Há dias em que Lola capitula à tristeza. Tenta compensar a prisão motora buscando seus brinquedos, mas a dinâmica de correr de nós tornou-se uma impossibilidade física. Antigamente, eu protestava contra o fato de ela me cansar nos passeios, arrastando-me pelas ruas; costumava brincar que ela era a minha academia particular em Cidreira e que aquilo fazia bem à minha saúde. Hoje, sinto um nó na garganta ao compreender que ela talvez nunca mais experimente o vento litorâneo fustigando seu focinho no auge de uma corrida. Ela era a nossa usina de energia; agora, nosso caminhar será lento, compassado, quase solene. Ela dorme mais, recolhe-se mais.
Sento-me no assoalho ao seu lado para envolver sua pata imobilizada com um saco plástico protetor antes de irmos ao pátio. Ela exibe uma meia velha minha que tentou destruir no início, mas à qual acabou por se apegar. Diante dessa transição drástica de um dínamo para a imobilidade, ironizo filosoficamente que Deus talvez tenha intervindo: “Este cão transborda juventude e energia demais; seus tutores, contudo, carregam o peso da velhice. Essa equação não vai fechar.” Para evitar o nosso colapso precoce de nossa relação, imagino que o Criador tenha desejado reduzir a energia de Lola por meio do acidente. Meu riso é seco, amargo. O cão agora compartilha do nosso ritmo de idosos, por vias tortas. Mas a verdade incontestável é que nunca imaginamos o quanto aquela energia indomável era o combustível que nos mantinha vivos.
Consolar um cão
Neste novo cenário, resta-me o dever ético de consolar Lola. Como fazê-lo? Christophe André, em Deixe a vida te consolar (Vestígio, 2022), pontua que toda desolação constitui uma interrupção violenta na existência que avançava sem sobressaltos. A consolação atua como o amparo necessário para atravessar a provação. Ofereço à Lola o que tenho de mais sagrado para ela: a paciência do afeto e da atenção, o toque demorado em sua cabeça, a segurança de minha permanência. Tento exercitar uma doçura inédita. Há provações severas na existência, mas há também frestas de luz, se soubermos contemplá-las. Como ensina André, “a consolação é o curativo colocado sobre a ferida dos desapegos impostos pela vida”. Lola compreende o suporte que lhe damos; a anatomia de sua pata não permitirá uma cura milagrosa, e eu não posso prometer-lhe o retorno à antiga vida veloz. Posso apenas prometer que eu e D. caminharemos ao seu lado, com ternura e esperança nesse momento de tristeza. A natureza guarda em si o segredo da superação, pois, como bem sintetiza André: “É preciso tornar-se tão simples e tão mudo quanto o trigo que cresce ou a chuva que cai. É preciso contentar-se em ser” (p. 150).
Como serão os próximos dias? Eu e D. estamos às vésperas de conduzi-la ao grande procedimento cirúrgico. Espero que atravessemos esse momento unidos na mesma luta. Há uma névoa de melancolia no olhar de Lola; ela observa o entorno com menos vivacidade e mais dor. Caminha pelo pátio com a pata recolhida, pendente. Sua tristeza é uma lâmina afiada; ela pressente a proximidade da areia que continua ali, sob o alcance de seu focinho, mas interditada aos seus passos. Mas eu lhe prometo a ela silenciosamente: você, Lola, voltará a contemplar o mar.