
Helena Terra escreveu, em sua coluna aqui na Sler, sobre a deslealdade na era das redes sociais, o que me acendeu a ideia de também escrever sobre (des)lealdade.
Sempre que pedem para que eu diga a minha maior qualidade, respondo sem titubear: lealdade. E, quando peço para pessoas próximas dizerem o mesmo sobre mim, muitas usam a mesma palavra.
Não sei quando tive a percepção de que era uma pessoa leal, mas acredito que muito provavelmente experienciando a deslealdade alheia e ficando indignada com certas atitudes. Até hoje não consigo entender o que leva uma pessoa a, sem nenhum motivo externo, escolher magoar quem chama de amigo/namorado. Sou uma pessoa sensível, o que me deixa ainda mais vulnerável a qualquer tipo de maldade.
O adjetivo “leal” tem sua etimologia atrelada à “lei”, o que não faz jus ao que a palavra se tornou popularmente. Na minha visão, ser leal é respeitar as pessoas com quem você tem vínculos (sejam familiares, de relacionamento ou amizades), ter responsabilidade emocional para com o próximo e honrar a verdade.
Em uma viagem a Cabo Verde, na África, enquanto nos banhávamos no mar morno e delicioso da ilha de Santiago, eu e Flávia, minha melhor amiga, falávamos sobre como somos perfeccionistas, cada uma à sua maneira. Concluímos que eu tenho uma questão com um perfeccionismo moral: não tolero ser injusta e preciso sempre estar totalmente alinhada com a verdade (o que é extremamente exaustivo e frustrante, visto que há cada vez mais pessoas dispostas a moldar a mesma para melhor serví-las). Dito isso, é claro que cometo erros de julgamento, afinal, sou humana. Mas sempre que acontece, me despedaça. Também sou pouco tolerante com pessoas infiéis, desleais, mentirosas ou até mesmo egoístas, o que me gera um grande abismo relacional com, vamos ser sinceros, a maior parte dos seres humanos (por isso gosto tanto dos animais).
Cultivo amizades de quase trinta anos, tenho relações profundas com muita gente, confio de olhos fechados na maior parte dos meus amigos e familiares, mas, ultimamente, escolho a dedo quem realmente tem acesso à minha lealdade, ao meu verdadeiro eu. Nesse aspecto, sou muito exigente comigo mesma e com aqueles ao meu redor, confesso. Perdoo, dou chances, relevo muitas pequenas faltas, mas por dentro não esqueço, infelizmente, apesar de já ter aprendido essa lição: não esperar que os outros tenham as mesmas atitudes que nós mesmos.
Por isso, hoje, lealdade não é apenas a minha maior qualidade, mas também o meu maior filtro. Não me arrependo de ter aprendido, com o tempo, a proteger esse espaço que antes eu oferecia livremente a qualquer um. Ser leal exige reciprocidade, e eu já entendi que prefiro ter poucos, mas verdadeiros, a muitos que só existem enquanto for conveniente.