
Este texto é e não é sobre as coisas materiais e imateriais que se quebram e cortam as pessoas que estão por perto ou sobre as pessoas que quebram coisas e outras, por vezes, devagarinho, sem sequer saber o porquê. Talvez por possuírem um instinto maligno, pulsão de morte maior que a de vida e não hesitarem em rasgar a pele dos sentimentos e da dignidade, como se ninguém fosse sensível, e a mente não sofresse do mesmo modo que o corpo quando ferida pela falta de honestidade, de respeito e de ética dos que pensam em si acima de todas as coisas. Há, entre nós, quem, em uma lógica quase divina, se veja como extraordinário e superior, símile do Rodion Românovitch Raskólnikov, aquele sujeito que pensou que seria capaz de sustentar as consequências de sua arrogância.
A primeira vez que li o Crime e Castigo, eu não gostei muito ou não gostei como quando o li pela segunda vez. Na primeira, o texto havia sido traduzido do russo para o francês e do francês para o português, e eu não tinha nem dezoito anos. Dado importante porque o tempo tende a apurar a inteligência, logo quem a carrega. Quando alguém me diz que determinada pessoa tem a vida toda pela frente, como se isso fosse uma virtude e uma vantagem em relação aos mais velhos, entendo a fala como ilusória e vazia. Virtuosos são os que, ano a ano, fizeram aniversários, vencendo 365 dias sem sucumbirem.
Na segunda leitura, sem nenhuma língua intermediando a escrita do Fiódor Dostoiévski, meu autor favorito depois do Raduan Nassar, caí de amor por ele, o que, na época, entendi como uma queda admirável. Meu filho ainda usava fraldas e poucos assuntos e mesmo livros me interessavam como a ele, com suas covinhas, falando de si e de suas descobertas na terceira pessoa. Naquela época, talvez por eu ser uma mulher cem por cento compatível com a maternidade (a sobrevivência da espécie me motiva), em um tipo de exercício de fé, voltei a acreditar e a confiar, verbo fundamental, na integridade e na bondade humanas, um período em que, mais que potentes, minhas horas corriam felizes.
Mozart, um homem do século 18, disse que a felicidade existe apenas na imaginação. La Rochefoucauld, um homem do século 17, que a felicidade ou a infelicidade dos homens depende não menos do seu temperamento do que de sua fortuna. Não sei o que a maior parte dos homens deste século diz e como se percebem e a nós. Alguns amigos têm me feito duras críticas sobre o caráter de algumas mulheres. Críticas que acato, ainda que estranhe. Nos últimos dez anos, confiei mais do que deveria na ideia de que as dificuldades e falhas graves do gênero feminino derivavam apenas da opressão do patriarcado. O egoísmo, o oportunismo, a maldade independem de cromossomos X ou Y. E em qualquer um de seus representantes me causa repugnância. Há pessoas que não posso ver nem por fotografia. Gente que usou e magoou afetos meus ou a mim. E aí não se trata de rancor. É mais uma questão de autopreservação e de manter a qualidade de vida.
Qualidade de vida implica confiança. Não vou dizer que absoluta porque qualquer pessoa com o mínimo de lucidez sabe que não existe ser humano infalível, mas que existem os com mais boa vontade, empenhados em acertar mais do que em errar, não tenho dúvida. Outro dia, meu amigo Eloar Guazzelli Filho, um gênio do mundo dos desenhos, nascido na mesma cidade que eu, terra da minha terra, falando sobre felicidade, me disse algo que tive de anotar: “Mas uma coisa que eu penso é que o cuidado com que as pessoas constroem a sua infelicidade é mil vezes maior, se é que tem algum cuidado em construir uma harmonia”. Confiança é harmonia, equilíbrio e segurança.
De vez em quando, passa no feed das minhas redes sociais um card com um dizer atribuído ao Ernest Hemingway: “Importa mais quem está ao seu lado nas trincheiras do que a própria guerra”, diz. Falaram-me que essa frase estaria no livro Adeus às Armas. Li quando menina e não lembro de tê-la lido. Tenho agora o meu exemplar. Uma hora dessas, fazendo a merecida releitura, checarei a autenticidade. Nele, há uma apresentação intitulada Sobre a Indiferença do Mundo. O autor é o Luiz Antonio Aguiar, escritor e, como o Guazzelli, também, entre outras atividades, roteirista de quadrinhos. E, em sua apresentação, Aguiar destaca uma passagem:
“Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles se tornam mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Então, aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata”.
Por que muitos se tornam mais fortes justamente no ponto onde forem quebrados?, tenho me perguntado, ainda sem respostas.
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