
Acordar e manter acesa a sensação de si mesmo parece a coisa mais automática do mundo. Não nos damos conta de que esse compêndio de repetições, ao qual chamamos de eu, foi um soldado treinado entre duas tensões diárias: o amor pela segurança do cotidiano, pelo que é conhecido, e a paixão pela ruptura.
Aprender requer um pouco dos dois: a coragem da ruptura e, posteriormente, a insistência e a consolidação da segurança. Isso não fui eu que inventei; é velhíssimo em psicologia. Jean Piaget chamava de assimilação e acomodação. Hoje em dia, a profundidade dos nossos conhecimentos se compara a um pires, porque somos hiperassimiladores. Queremos provar o mundo: um pouquinho de uma coisa, um bocadinho de outra e, no fim, nos alimentamos bastante mal. A timeline é a nossa junk food. Uso a língua do outro colonizador aqui para que não reste dúvida de onde isso vem. O celular, por sua vez, parece magnetizado por nossas mãos e olhar. Enfim, pouco nutritivo e perigosamente aditivo.
O scrolling infinito surge como um tipo de masturbação acéfala, um autoerotismo mortífero. Só que não se trata exatamente da morte do corpo, mas da morte do desejo. Esse motor de vida que não se contenta apenas em acordar e se encontrar com a sensação de si mesmo, mas que nos desafia em certa direção. Muitas vezes, talvez nas melhores, essa direção é também comunitária, em conexão vertical e horizontal.
Como nos posicionamos como analistas nesse mundo que está trocando encontros reais pelo touch screen? Ou, trocando narrativas longas por excesso de desinformação e compras absurdas? E, mais ainda, como nos posicionamos sem vestir a roupa da velha nostalgia? Sem desdenhar dos avanços que a tecnologia realmente nos deu, como os atendimentos online que, inegavelmente, ampliaram o acesso aos serviços de saúde. Na psicanálise lacaniana, chamamos esse polo oposto ao desejo de gozo. A não confundir com o prazer, mas, justamente, aquilo que Freud posicionou como além do princípio do prazer. Viemos equipados com essa sanha destruidora. Nisso, cada um de nós é bem parecido com o colonizador que, no fundo, quer mesmo é a morte do nosso desejo. É o melhor jeito de se subjugar.
Uma boa maneira de assassinar o desejo é com a permanente atenção a toda e qualquer demanda, inclusive com o excesso de oferta. Para seguir com a metáfora da comida, é assim que matamos a vontade que a criança tem de comer: oferecer até a exaustão. É batata!
Não posso parar de pensar na quantidade de soluções tecnológicas e domésticas que existem hoje em dia. Um enorme e assustador excesso de ofertas. Bugigangas que parecem inocentes ao resolverem problemas que sequer existem. Objetos que nos criam mais preguiça e que massacram a nossa criatividade e capacidade de resolver banalidades. Nesse sentido, sou fã das gambiarras – sempre e quando elas evitem uma compra por impulso e solucionem um problema real.
A empresa colonial não dorme nunca. Ela pode falar inglês e querer terras raras ou ter olhos puxados e querer que você compre loucamente. Qualquer que seja o empuxo, a única direção mais ou menos segura ainda é a dimensão desejante.