
Estamos vivenciando o apocalipse. Ou uma espécie de teste-drive dele. Não no sentido religioso do apocalipse, mas no sentido que Slavoj Žižek usa a palavra quando tenta diferenciar a catástrofe da revelação. O Apocalipse não se resume à ruína de uma ordem. É o instante em que as aparências se desfazem, quando aquilo que parecia normal expõe sua verdadeira essência, e somos forçados a enfrentar as contradições que a rotina ocultava. Em uma conversa de 2022, chamada “What is freedom today?”, Žižek associa a imagem apocalíptica às crises atuais e mantém a distinção entre catástrofe e revelação. Uma calamidade pode ocorrer sem que tiremos qualquer lição dela. O Apocalipse, em sua acepção mais profunda, é a capacidade de discernir o que está realmente ocorrendo.
É dessa forma que percebo as eleições brasileiras de 2026. Novamente, escrevo numa sexta-feira e não sei quem venceu a eleição. Imaginei, às vésperas do primeiro turno, que tudo seria resolvido ali, mas não foi o caso. Agora, mais uma vez, independentemente do resultado, estou de novo convencido de que não estamos apenas observando uma competição entre dois candidatos à Presidência da República, mas sim entre dois projetos de nação, sendo um deles extremamente perverso. Além dos resultados, é preciso refletir sobre as contradições de nossa sociedade mostradas por esta eleição: ela se diz democrática, mas enfrenta crescentes desafios para aceitar a existência de um destino comum; discutimos a liberdade, mas toleramos a presença de trabalhadores que vivem em constante insegurança; prometemos oportunidades, mas as condições para aproveitá-las são distribuídas de maneira desigual; exaltamos o mérito individual, mas ignoramos as estruturas econômicas e sociais que definem quem tem a chance de prosperar e quem continuará em uma situação de vulnerabilidade. Bem-vindo ao deserto de nosso verdadeiro país, parafraseando outra expressão de Zizek.
A alegoria apocalíptica
Nesta alegoria apocalíptica, ao mesmo tempo que a eleição representa o nosso instante de revelação, ela abriga quatro cavaleiros que preveem a desintegração de nossa existência coletiva. O primeiro é o cavaleiro branco, cuja representação eleitoral mais evidente é Flávio Bolsonaro. Seja na vitória ou na derrota, ele evidencia que o aspecto mais negativo de sua concepção de extrema direita já se encontra presente em nossa sociedade: a aspiração pela restauração da ordem pela autoridade, o poder sobre o diferente e a liberdade individual sob a lei do mercado. Para Flávio, a sociedade pode ser reestruturada por meio da competição, da disciplina econômica e da responsabilização dos indivíduos por suas próprias trajetórias; para Lula, pelo menos, ainda havia um mínimo de humanidade em seu projeto ao defender as políticas sociais. Se eu tivesse formação em psicanálise, poderia afirmar que o projeto social de Flávio se assemelha a uma caracterização da perversão, considerando a magnitude de seu intuito de causar destruição social. O branco, neste contexto, não simboliza uma pureza moral, mas sim a representação de uma salvação política que promete restituir a cada indivíduo o controle sobre sua própria vida, sem, contudo, confrontar as disparidades que possibilitam essa autonomia para uns e a tornam quase inviável para outros. A fundamentação dessa promessa é uma falsidade, assim como a da serpente bíblica, mas isso é uma outra história.
O segundo é o cavaleiro vermelho, que representa a guerra. Ele não possui um único líder, pois sua força está na polarização em si. Isso não é o que observamos ao longo de todo o processo eleitoral? É o cavaleiro que converte oponentes em inimigos, divergências políticas em perigos para a existência e a competição democrática em uma guerra na qual a vitória de um sobre o outro é mais significativa do que a criação de qualquer futuro compartilhado. É a consolidação de uma cultura política de extrema direita que se nutre do rancor, da agressividade e da incapacidade de aceitar que indivíduos que votam de forma distinta podem ter problemas materiais comuns. Tenho essa convicção porque testemunhei situações semelhantes em minha família e nas relações com meus vizinhos, como já compartilhei anteriormente neste espaço. Esta é a guerra mais terrível, pois não confronta nações, mas ocorre dentro das próprias famílias e nas relações de pertencimento a uma comunidade. E a extrema direita conseguiu realizar isso nestas eleições.
O terceiro é o cavaleiro negro, simbolizando a fome e a falta de recursos. Se Lula foi eleito, ainda teremos nossos principais projetos sociais, mas, se foi Flávio, seu programa de cortes tem antecedentes no impacto das políticas de austeridade do programa de extrema direita de Javier Milei na Argentina. Basta olhar os dramas de seus cidadãos para entender nosso futuro: tanto lá como em nosso futuro, se eleito Flávio, os custos sociais das políticas de austeridade serão cruéis, a pressão sobre os rendimentos, insuportável, a situação dos aposentados e a precariedade dos que dependem dos serviços públicos desconsiderados. Lula sempre foi contra cortes que significassem penalização dos mais pobres; Flávio Bolsonaro não. A pergunta persistente nestas eleições: uma reforma econômica pode ser implementada sacrificando o bem-estar social? É possível imaginar isso de uma perspectiva ética? Para mim, não.
O quarto cavaleiro é de cor amarelo-pálido e representa a morte. Entendo que, seja qual for o que foi eleito, o que morreu em parte da sociedade nestas eleições foi o sentimento de solidariedade social. Não estou falando apenas do fim das políticas públicas que Flávio Bolsonaro implementará caso seja eleito. Refiro-me a algo mais profundo dentro da sociedade: a perda da capacidade de reconhecer que os direitos dos outros também constituem uma condição de nossa própria liberdade. Enquanto Lula ainda se empenha nessa concepção, Flávio não. Sua visão, se de fato for escolhida pela maioria da sociedade, significa que ela não vê que é a mesma perspectiva que enxerga a aposentadoria de uma pessoa como um impedimento para a chance de outra; que vê o funcionário público retratado como o vilão do pagador de impostos; que o pobre deve ser culpado por sua própria pobreza e que a precariedade laboral é resultado único das decisões do trabalhador. Se Lula for eleito, significa que a maioria da sociedade ainda acredita em solidariedade, mas o presidente, para garanti-la, terá de enfrentar um congresso opositor, já que muitas dessas propostas de retrocesso poderão emergir do próprio congresso em 2027, vindas da extrema direita eleita.
É verdade que esses quatro cavaleiros não representam uma descrição fiel dos personagens bíblicos, mas entendo que fazem uma imagem da política brasileira recente. Vamos refletir, hoje, segunda-feira, que, não importa quem seja o eleito, qual é a sociedade que construímos desde a Constituição de 1988. De qualquer forma, entendo que precisamos encarar o fato de que nossa sociedade está passando por uma crise de solidariedade social, que não se originou nesta eleição e que não será resolvida com a vitória de qualquer candidato, mas que o eleito pode significar seu aprofundamento ou sua redução.
A recente batalha de classes
É uma tarefa complexa analisar as eleições no Brasil; basta consultar qualquer especialista em ciência política. O que a divisão dos eleitores indica? Na primeira rodada, Flávio Bolsonaro obteve cerca de 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. Lula tinha mais apoio entre os mais velhos, e Flávio tinha mais força em alguns segmentos da população adulta. Entre os jovens, os resultados variavam conforme a idade e a pesquisa considerada. Não há, portanto, uma geração inteira que se identifique completamente com um dos candidatos. Apoiar Lula, especialmente entre grupos de menor renda e beneficiários de políticas sociais, mostra o quanto a proteção pública é vital para grandes porções do eleitorado. A força de Flávio entre segmentos de renda mais alta, por outro lado, sugere que as expectativas econômicas, a percepção do papel do Estado e as interpretações da desigualdade são questões importantes nessa disputa. Mas eleitorado não se traduz de forma automática na sua condição econômica, porque as experiências de insegurança, a cultura, a religião, a identidade política, a avaliação dos governos e as expectativas em relação ao futuro influenciam a escolha.
Por isso aprecio o trabalho de Pierre Rosanvallon, especialmente seu Les épreuves de la vie: comprendre autrement les Français (Seuil, 2021). Neste livro, ele defende que devemos entender não apenas a posição objetiva dos eleitores, mas também como eles percebem e interpretam a própria situação. Dois trabalhadores que enfrentam a mesma precariedade podem ter conclusões políticas divergentes. Um pode ver sua insegurança como fruto de relações econômicas que exigem proteção em grupo; outro pode considerá-la resultado de impostos excessivos, intervenção do Estado ou concessões de privilégios a terceiros. Sua questão é: o que ocorre quando indivíduos que enfrentam a mesma insegurança material não reconhecem que as origens de seus problemas são semelhantes? Outro autor que também aprecio é Robert Castel. Em seu As metamorfoses da questão social (Vozes, 1996), ele traça a evolução das proteções sociais ligadas ao trabalho assalariado. Seu ponto principal é que o trabalho não é apenas um meio de ganhar dinheiro, é uma das mais importantes maneiras de se integrar socialmente, pois possibilita o acesso a direitos, reconhecimento, segurança e redes de pertencimento.
Segundo a análise de Castel, a sociedade salarial estabeleceu mecanismos que permitiram a certos grupos de trabalhadores superar a constante insegurança da vida. Nenhuma proteção previdenciária, nem direitos trabalhistas, nem negociação coletiva, nem serviços públicos foram frutos da boa vontade do mercado. Derivaram de conflitos sociais, mobilização política e instituições construídas. Essas eleições ameaçaram a sociedade salarial porque, como Castel demonstra, colocaram do lado oposto propostas que defendem e põem em dúvida essas proteções, que passaram a ser vistas como insuficientes para eliminar as desigualdades, e por isso foram afetadas radicalmente por novas visões da relação entre trabalho e vulnerabilidade. Se o trabalhador passou a contar com seguranças que não se baseavam apenas em sua habilidade de negociação no mercado, o projeto de Flávio Bolsonaro pretende desmantelar, caso tenha sucesso, justamente essas garantias em nome do mercado e do “empreendedorismo”. Em sua obra, Castel analisa a ampliação da vulnerabilidade e o risco de desfiliação, isto é, o enfraquecimento dos laços que ligam os indivíduos ao trabalho e às redes de proteção social. A dinâmica social muda quando essas garantias se tornam mais fracas.
Estamos em épocas de precarização, quando um trabalhador pode estar empregado e, ainda assim, não ter renda suficiente, previsibilidade em sua profissão ou proteção previdenciária. É possível trabalhar sem parar e ainda assim não conseguir estabelecer uma trajetória de vida que seja minimamente segura. O trabalho perde o papel de assegurar a integração social para parte da população que passa a conviver com a insegurança. Essa mudança tem um impacto direto nas interações entre as gerações. Se os jovens constatam que o trabalho não lhes oferece as mesmas oportunidades de independência que esperavam, podem ver os direitos conquistados por outras gerações como privilégios inalcançáveis. É a nova disputa entre classes mencionada por Rosanvallon. Quando os aposentados sentem que sua segurança financeira está em risco, podem temer que a ampliação dos direitos de outros grupos prejudique sua própria proteção. A questão política não deveria ser decidir quem tem direito à segurança: deveria ser entender por que não é possível para a sociedade assegurar a todos uma vida digna. E os projetos de governo devem ser analisados pela sociedade quanto à sua capacidade de assegurar essas prerrogativas. O que a eleição nos diz disso?
Uma sociedade precarizada
Na precarização do trabalho observada na sociedade brasileira, a perspectiva de Castel permite afirmar que o que ocorreu no país não se limitou à simples deterioração de contratos e salários. No entanto, o que é mais importante são as condições institucionais que possibilitam ao indivíduo identificar-se como integrante de uma sociedade. Quando o trabalho deixa de ser uma fonte de segurança e as instituições públicas são vistas como incapazes de assegurar direitos, a vivência da vulnerabilidade tende a se tornar uma experiência individual. Não é alarmante constatar que, nesta eleição, uma parte da sociedade se percebe a si mesma como culpada por riscos que não controla totalmente? É nesse sentido que a solidariedade, enquanto questão central, corre o risco de ser comprometida. Não é possível que uma parte da sociedade considere que a proteção coletiva seja um mero adereço moral sobreposto à economia: ela representou uma conquista na busca das condições históricas necessárias para mitigar a insegurança gerada pelo próprio mercado. Um plano que defende isso corrói a solidariedade.
O tema da crise da sociedade do trabalho também está presente na crítica que Robert Kurz faz em seu O colapso da modernização (Paz e Terra, 1992). Foi ele quem avisou, décadas atrás, que o aumento da produção e do emprego formal não seriam suficientes para garantir, por tempo indeterminado, a integração social, ao contrário. É o que aconteceu entre nós: o desenvolvimento capitalista no Brasil gerou uma sociedade que incorporou totalmente a lógica da produção de mercadorias. Existir é estar submerso nela, acreditar em sua razão de ser. No entanto, a promessa de que os frutos do crescimento seriam distribuídos de maneira equitativa não se cumpriu. Uma parte considerável é destinada a alguns poucos; aos demais, restam apenas as migalhas. O mais preocupante é que o anseio por inovações tecnológicas é responsável por diminuir as oportunidades de emprego. Se a vida em sociedade se render à lógica do dinheiro, como subentende o programa de Flávio Bolsonaro, estaremos condenados. Quando Lula defende políticas públicas, significa que ainda temos uma chance de construir uma sociedade solidária. Quem ganhou? Quando um governante acredita que cada pessoa é a única responsável por sua capacidade de trabalhar, produzir e competir, a desigualdade se perpetua devido às condições do capital necessárias para atender a essas expectativas. Que tipo de sociedade é esta que temos, em que uma parcela dela abraça a promessa de liberdade pessoal sem se questionar sobre a dependência de sistemas que estão além do controle do indivíduo? Que tipo de sociedade é esta que permite que o indivíduo seja chamado a investir em seu próprio crescimento, adquirir novas habilidades, se adaptar às transformações e assumir os riscos de sua jornada? Minha resposta: é a sociedade que se entrega de corpo e alma completamente ao neoliberalismo, atribuindo o fracasso de seus membros unicamente às suas decisões pessoais, sem levar em conta o contexto geral e as desigualdades sociais, o fato de que as oportunidades sempre foram assimétricas desde o começo.
A revelação do apocalipse eleitoral é também que habitamos uma sociedade marcada pelo ressentimento. Saímos do processo eleitoral com a constatação de que predomina em parte significativa de nossa sociedade a concepção de que cada indivíduo deve contar unicamente consigo mesmo, com suas habilidades para competir no mercado, que é o único espaço onde é possível estabelecer relações sociais, porque o outro, as instituições, a ideia de solidariedade social, fracassou. Destruição da solidariedade social significa: os outros deixam de ser vistos como potenciais parceiros na mudança das condições sociais e passam a ser vistos como rivais por empregos, rendas, serviços públicos e reconhecimento. Contudo, é importante ressaltar que o princípio de solidariedade que existia entre parte da população não se desfez de forma instantânea; ao contrário, foi resultado de anos de propagação de valores neoliberais, como o empreendedorismo, o individualismo e o consumismo. Essas influências levaram à transformação da competição entre indivíduos semelhantes em um princípio cotidiano de sobrevivência.
Como saímos das eleições
Saímos dessa eleição em uma condição pior do que estávamos antes. Não se trata de disputas internas – as convicções de um, as crenças de outro – mas sim de que a precarização do trabalho conseguiu criar uma base material sólida que favorece a disseminação das ideias da extrema direita. Se ela chegou ou não à Presidência, não tenho como saber enquanto escrevo. O que eu percebo é que a constante insegurança no emprego cultivou um ambiente propício para o ressentimento. Isso não é geral, contudo: vi na semana que antecedeu as eleições um movimento de motoboys organizado que declarou seu apoio a Lula pouco antes do segundo turno. Nem todos os trabalhadores precarizados têm a mesma orientação ideológica, o mesmo desencanto, o mesmo ressentimento, pois alguns ainda são capazes de focar suas decisões na crítica às estruturas que geram a vulnerabilidade.
Falo do princípio da solidariedade: a que solidariedade me refiro? Desde a organização da vida em comum e a criação de instituições que compartilham riscos, asseguram direitos e atenuam os efeitos prejudiciais das desigualdades. O artigo 3º da Constituição define, entre os principais objetivos da República, a criação de uma sociedade que seja livre, justa e solidária, a eliminação da pobreza e da marginalização, bem como a diminuição das desigualdades sociais e regionais. O artigo 1º estabelece que a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa são os pilares da República. Mas, para os defensores do neoliberalismo, simplesmente reconhecer a livre iniciativa não é suficiente. Se seus representantes conseguirem chegar à Presidência – eles já estão no Congresso – o que eu realmente espero que não aconteça, a partir do dia 1.º de janeiro, o que estará em jogo é que a própria estrutura do Estado Brasileiro será avaliada apenas com base na diminuição de despesas ou na melhoria da eficiência na administração.
A administração pública não existe para esse fim: sua finalidade é garantir direitos, oferecer serviços e atender às demandas da população. Como já indicava Émile Durkheim, a crescente diferenciação das funções sociais gera interdependências que não podem ser mantidas apenas por acordos individuais, sendo a solidariedade uma condição essencial para a coesão social, mesmo que suas manifestações mudem ao longo da história. De acordo com Rosanvallon, em A sociedade dos iguais (Ateliê de Humanidades, 2024), a igualdade está ligada a relações de reciprocidade e reconhecimento: não é suficiente apenas repartir recursos se as pessoas começam a ver umas às outras como pertencentes a universos sociais que não se compatibilizam. Qual destas concepções triunfou nesta eleição quando se trata de solidariedade? A do candidato que pretende mantê-la como fundamento constitucional e orientação para a estruturação dos direitos coletivos ou do que busca transformá-la em individualismo absoluto e descomplicado para o capital lucrar mais? É a proposta que busca preservar os sistemas institucionais em operação, que existem nos âmbitos da previdência, saúde, educação, assistência e proteção ao trabalho, ou aquela que sugere a diminuição desses sistemas? É a proposta que afirma que habitamos um mundo onde cada um deve cuidar de si mesmo, ou aquela que consegue reconhecer a habilidade dos outros como membros ativos de uma comunidade que compartilha direitos? Estas dimensões serão impactadas de acordo com o candidato que for eleito e seu plano de governo. Se Flavio venceu, a sociedade pode ter impulsionado uma proposta que, de forma oficial, afirma que preservará os direitos constitucionais, enquanto simultaneamente diminui as condições materiais necessárias para que as pessoas possam usufruir desses direitos, transformando aqueles que se beneficiam deles em alvos de desconfiança moral. Se Lula saiu vitorioso, isso indica que a sociedade ainda valoriza a função do Estado na esfera social.
A crise de solidariedade
Independentemente de quem foi eleito, em maior ou menor medida, as eleições evidenciam que a sociedade brasileira vive uma crise de solidariedade. Ela iniciou quando a mutualidade que fundamenta os direitos foi trocada pela indagação sobre o que cada um ganha em retorno pelo que oferece. Não foi isso que levou o futuro ministro da Saúde de Flávio a se envolver com o setor da saúde? É dele a ideia de que cada um deve ser responsável pelos custos de sua saúde, de que a sociedade não é – repito, não é – responsável para arcar com sua cura. Isso não revolta o seu estômago? O meu sim. Essa questão não é trivial quando se trata da gestão de recursos públicos, mas se torna prejudicial quando simplifica a vida em sociedade a uma análise pessoal de prós e contras. Uma comunidade solidária não precisa exigir que todos compartilhem os mesmos interesses de forma imediata, mas sim que os conflitos sejam geridos de tal forma que ninguém seja privado das condições essenciais para uma vida digna simplesmente por estar em uma posição econômica desfavorável.
A reforma administrativa é um reflexo disso. Por isso, um dos focos centrais das políticas neoliberais é o ataque direto ao serviço público. Sou funcionário público inativo. No decorrer de uma reunião entre os servidores, da qual participei na semana passada, foi analisada a proposta de reforma administrativa que está sendo debatida no Congresso Nacional. Pânico geral. A proposta é de destruição iminente das carreiras públicas. Mas, novamente, a questão central da solidariedade social emergiu no debate porque a proposta de reforma em pauta não se limita aos direitos dos servidores públicos; refere-se ao tipo de Estado a ser construído e às condições institucionais necessárias para assegurar direitos à população. Se um presidente de viés de extrema direita foi o eleito, a partir de 2026, no Congresso também neoliberal, a PEC 38/2025 permitirá que a lógica de mercado permeie todas as esferas do Estado. A questão reside em identificar quais mudanças estão sendo sugeridas, quem será impactado por elas e quais efeitos isso pode ter na autonomia dos servidores públicos, na sustentabilidade das políticas públicas e na capacidade do Estado de resistir a pressões econômicas e políticas. Elas se inserem em uma discussão mais ampla sobre a estrutura do serviço público, a estabilidade dos servidores e a interação entre o Estado, o mercado e a sociedade.
Um dos principais objetivos dessa proposta neoliberal é minar a estabilidade dos servidores públicos. Não se trata de um privilégio individual equiparado a uma vantagem particular, mas sim de um instrumento constitucional destinado a salvaguardar o exercício impessoal das funções públicas, minimizar a exposição a pressões políticas e garantir a continuidade no exercício de certas funções. Não afasta a responsabilização por infrações nem torna o servidor isento das causas legais de perda do cargo. Atacar carreiras não é uma estratégia neoliberal qualquer: elas concentram saberes, vivências, responsabilidades, tudo o que permite que políticas públicas se mantenham além do tempo de um governo. Uma boa parte do discurso de Flávio Bolsonaro seguia a linha de que uma reorganização ou até mesmo uma redução pode ser justificável, mas o problema é que ela gera perda de especialização, insegurança profissional e descontinuidade administrativa. Em suma, põe em risco de desorganização o Estado que conhecemos.
Obstáculos à solidariedade social
A lógica da competição entre indivíduos pode se tornar um obstáculo à responsabilidade compartilhada, resultando na perda da capacidade do serviço público de alinhar suas atividades em função de metas coletivas. O Estado que temos hoje busca promover a solidariedade social. Um dos programas, o de Flávio, visa corroê-la. Qual a proposta que ganhou? Eu não sei. A proposta que defende a diminuição dos serviços públicos em favor de alternativas privadas prejudica o cidadão de baixa renda, que depende ainda mais da eficácia da escola pública, do Sistema Único de Saúde, da previdência, da assistência social e dos serviços de justiça. A outra não. A questão reside em como manter uma administração que continue a servir ao público, sem se transformar em um instrumento de interesses privados ou de pressões políticas temporárias.
O discurso neoliberal gerou uma disputa entre o servidor público e o cidadão, embora eles não sejam inimigos. A reforma administrativa não leva em conta essas relações, e a solidariedade não morre, nesse caso, necessariamente por uma escolha deliberada de eliminar direitos. Pode ocorrer de forma gradual, por meio da desestruturação das instituições que os viabilizam. É essa a proposta de Flávio. Se Lula ganhou, pelo menos poderemos contar com a resistência de uma linha política que considera essencial a proteção social, a valorização do salário-mínimo e a intervenção do Estado para diminuir as desigualdades. No entanto, ainda haverá um longo caminho a percorrer para transformar a mentalidade anti-solidariedade social que a precarização do trabalho gerou. Isso inclui a inserção no mercado de trabalho dos jovens, a luta contra a insegurança habitacional e os tetos de financiamento dos serviços públicos, sem contar com um Congresso à direita, que vai dificultar a implementação de propostas que visem ampliar a proteção social. O desafio não é apenas manter os programas existentes, mas sim criar condições para que mais pessoas não precisem contar com soluções emergenciais e possam pensar no futuro. É preciso investir em políticas de emprego, qualificação profissional, educação pública, habitação, saúde, previdência social e proteção aos trabalhadores informais. Com sua proposta de corte radical, tudo isso é inviabilizado.
No entanto, uma política de esquerda não deve se restringir a gerenciar a precariedade. É necessário combater as circunstâncias que as mantêm. Além disso, é preciso admitir que a luta pelos direitos sociais não é sinônimo de obter o apoio político daqueles que mais precisam deles. A vivência da precariedade pode gerar expectativas não correspondidas, desconfiança e sentimentos de amargura. Se a esquerda não for capaz de transformar as políticas públicas em vivências reais de dignidade, segurança e reconhecimento, ela poderá manter uma diretriz programática benéfica aos mais pobres sem conseguir restabelecer os laços políticos essenciais para sustentá-la. Se conseguir, o desafio do governo Lula será converter a proteção social em uma iniciativa de apoio mútuo entre gerações. Ou seja, não devemos mostrar a aposentadoria dos mais velhos como um empecilho para o futuro dos mais jovens, assim como não devemos apresentar a criação de mais oportunidades para os jovens como um risco para os direitos que já foram conquistados. Isso também implica em apoiar o serviço público, reconhecendo suas falhas, e impulsionar sua melhoria sem permitir que a modernização signifique deterioração.
Uma vitória de Lula não poria fim ao Apocalipse da solidariedade social em andamento, mas significa a possibilidade de seu enfrentamento por meio de políticas públicas, negociação democrática e restauração dos laços coletivos. Contudo, essa possibilidade estaria atrelada a decisões políticas específicas, à capacidade de colocá-las em prática e à disposição de desafiar os interesses que lucram com a divisão social. O apocalipse, de forma literal, se Flávio saiu vitorioso, é o novo panorama que se apresenta. É preciso investigar de que maneira as propostas da sua campanha serão implementadas e o que resta à sociedade como estratégia de enfrentamento. O programa político de extrema direita, que acompanha este candidato, se vitorioso, enfatiza a diminuição de gastos, a modernização do Estado, a digitalização dos serviços públicos e a reavaliação das estruturas administrativas. A crítica de esquerda precisa ir além da pergunta se essas ações reduziriam a capacidade do setor público em servir à população; precisa dar conta de que estão comprometendo o funcionamento de instituições indispensáveis à garantia de direitos. A pergunta central é: quem arcará com os custos das mudanças e quem será favorecido por seus resultados?
Se Flávio é o eleito, a contenção de gastos resultará em uma diminuição da capacidade de atendimento, na perda de profissionais qualificados e no enfraquecimento dos mecanismos de proteção, e aí os efeitos serão ainda mais prejudiciais para aqueles que dependem do Estado. Se a competição e a responsabilização pessoal passarem a ser as lentes pelas quais se interpreta a vida social, os trabalhadores precarizados poderão ser culpabilizados por aquilo que não controlam. A política, nesse sentido, pode acabar dando respostas individuais a questões que são estruturais. Empreender pode ser uma alternativa válida para algumas pessoas, mas não é um substituto para políticas de geração de empregos, proteção previdenciária, educação e saúde. A liberdade de competir não garante, por si só, que as condições de competição sejam justas.
O futuro do serviço público em questão
Isso se aplica ao serviço público. Uma reorganização administrativa que se concentre apenas na diminuição de despesas pode ignorar as demandas sociais que sustentam a necessidade de certas funções e carreiras. O Estado não pode ser blindado contra qualquer transformação, mas também não deve ser visto como uma empresa cuja única meta é cortar custos. Criticar o neoliberalismo não implica em desmerecer a relevância da eficiência, da inovação ou da responsabilidade fiscal, mas é preciso mostrar que esses objetivos não podem ser vistos como distintos das condições de vida da população. Por isso, mais uma vez, é preciso prestar atenção ao que aconteceu na Argentina com Javier Milei, quando o ajuste econômico gerou conflitos distributivos, problemas em setores da economia e pressões sobre rendimentos e serviços públicos. A questão consiste em indagar se um programa de estabilização e diminuição do Estado é capaz de gerar uma recuperação social que se sustente ao longo do tempo e de que forma são distribuídos os custos associados à sua execução. Quer dizer, o cerne da questão reside em determinar se essa orientação aumentaria a autonomia material dos cidadãos ou se, por outro lado, transferiria para os indivíduos responsabilidades que anteriormente eram compartilhadas pelas instituições públicas. A morte da solidariedade social não precisa ser uma decisão explícita, pode surgir a noção de que cada indivíduo deve arcar sozinho com as repercussões de um sistema que distribui de forma desigual as oportunidades e os recursos. É isso que é preciso ter clareza.
Após as eleições, vem a pergunta: e agora? Cenários distintos se delineiam de acordo com o vencedor das eleições. A problemática que permeia ambos os casos é anterior ao veredito das urnas: de que maneira é possível reconstituir os laços coletivos em uma sociedade em que o trabalho não garante mais a todos as condições de integração que ainda são demandadas por cada indivíduo? A leitura de Rosanvallon, portanto, revela como a vivência da injustiça pode se converter em ressentimento e brigas entre grupos. A de Castel ilustra as consequências do enfraquecimento das proteções associadas ao trabalho. A de Kurz coloca em dúvida a possibilidade de integração universal pela própria lógica da sociedade capitalista do trabalho. Daí porque eu vejo a polarização no Brasil como algo que vai além do embate de opiniões. É uma luta sobre a maneira de interpretar o que somos e como repartirmos os riscos em uma sociedade que é extremamente desigual.
Quando os trabalhadores não têm segurança no emprego, quando os jovens não conseguem projetar o futuro, quando os aposentados receiam perder seu poder de compra e quando os serviços públicos lutam para atender às necessidades sociais, a solidariedade é enfraquecida; defender a solidariedade social se torna uma tarefa muito mais difícil. As pessoas são induzidas a encontrar bodes expiatórios para sua insegurança, e a política consegue transformar isso em conflito entre grupos. É precisamente por essa razão que a defesa dos mais necessitados não pode ser encarada como um aspecto secundário ou uma mera opção entre programas eleitorais. Ela é essencial para restaurar a vida democrática.
Uma comunidade em que os direitos estão cada vez mais ligados à habilidade de cada um comprar sua própria proteção, separa seus integrantes em dois grupos: os que conseguem se defender no mercado e os que permanecem vulneráveis às consequências disso. Uma sociedade em que os serviços públicos se tornam incapazes de atender à demanda transforma direitos universais em oportunidades que não são iguais para todos. Quando uma sociedade entende a precarização como um sinal de fracasso pessoal, isso diminui a capacidade de se mobilizar em grupo. Não se trata de idealizar o passado nem de supor que a solidariedade poderá ser recuperada apenas por discursos. É necessário reestruturar suas instituições. Isso demanda políticas de trabalho decente, proteção previdenciária, educação pública, saúde, habitação, assistência social e acesso real à justiça. É fundamental também lidar com a questão da regressividade dos tributos, debater como os ganhos econômicos serão distribuídos e garantir que os custos das mudanças na produção não sejam sempre suportados pelos mesmos grupos.
Em relação aos servidores públicos, é necessário entender que a qualidade do Estado não pode ser avaliada apenas pela economia gerada na folha de pagamento. É essencial levar em conta a continuidade dos serviços, a autonomia técnica, a capacidade de formular políticas e a atenção à população. Defender essas condições não significa deixar de lado a avaliação de desempenho ou o combate a privilégios; trata-se de exigir que ambas sejam orientadas para o interesse público e não apenas para o corte de gastos. No que diz respeito aos trabalhadores do setor privado, é necessário combater a informalidade e a falta de segurança, sem transformar o trabalhador que já está protegido em adversário daquele que ainda não obteve essa proteção. Quando se trata das gerações, é imperativo abandonar a falsa dicotomia entre preservar os direitos dos mais velhos e assegurar oportunidades para os mais jovens. Se não, como afirma Rosanvallon, estaremos diante de uma nova luta de classes.
O Brasil após as eleições
O Apocalipse, na acepção que Žižek nos auxilia a refletir, não se resume apenas à representação de um mundo em ruínas. É a oportunidade de identificar as inconsistências que a normalidade escondeu. A eleição no Brasil expõe uma sociedade em que a disputa política se acirrou, enquanto os alicerces materiais da solidariedade ainda se encontram pressionados. O cavaleiro branco oferece redenção por meio da ordem e da rivalidade. O vermelho converte a diversidade em conflito. O negro anuncia um futuro de escassez e disputa pelos recursos. O amarelo-pálido simboliza a morte do reconhecimento recíproco, quando deixamos de ver nos direitos alheios uma condição para a nossa própria liberdade. A imagem apocalíptica não precisa necessariamente concluir em tragédia. Uma revelação pode criar um espaço para a escolha. O que observamos é diretamente relacionado à nossa habilidade de converter diagnósticos em ações políticas.
Se as eleições de 2026 revelarem o poder da polarização, será responsabilidade da esquerda entender por que muitos sentem a insegurança como um abandono e por que alguns buscam respostas em projetos de extrema direita que podem intensificar essa competição social. Não é suficiente criticar o neoliberalismo; é essencial desenvolver alternativas que sejam relevantes na realidade dos trabalhadores, dos jovens, dos idosos e das comunidades que dependem das políticas públicas. A missão não consiste em solicitar que todos tenham o mesmo ponto de vista. É restabelecer as condições necessárias para que indivíduos de diferentes origens possam compartilhar direitos, lidar com desafios coletivos e participar de maneira democrática na definição dos rumos da sociedade.
O resultado das eleições pode não determinar o futuro a longo prazo, mas pode influenciar muito no curto. Em qualquer caso, frente ao eleito, não temos certeza se conseguiremos restaurar a solidariedade social. A batalha prosseguirá após a eleição, tanto nas instituições quanto nos ambientes de trabalho, nas escolas, nos serviços públicos e dentro dos movimentos sociais. Talvez esse seja o desafio mais significativo das eleições de 2026: saber se a democracia vai além da eleição de nossos representantes. Só seremos um povo melhor quando reconhecermos como sociedade que ninguém precise querer que o outro esteja desprotegido para ter a esperança de uma vida melhor.