
Que ser imigrante é desafiador, a maior parte das pessoas está ciente. Mas também existe uma grande riqueza em transitar por dois mundos: o contraste que só se revela a quem vive em outro canto do planeta e retorna ao que um dia foi casa.
O contraste é o que diferencia luz e sombra: nenhuma das duas se define sozinha; uma só existe, aos nossos olhos, em relação à outra. Então, a comparação entre os dois lares é inevitável e nos faz enxergar o que não é visível para quem habita somente um dos mundos.
O caos de São Paulo, impossível de passar despercebido até pelos paulistanos mais enraizados, se torna ainda mais incoerente quando se vive em uma rua sem saída em uma pequena aldeia perto do mar, onde o silêncio é interrompido somente pelo piar dos pássaros, latir dos cães e uivar do vento. O barulho incessante, a poluição visual que engole a escuridão, a hipervigilância que volta assim que saio do aeroporto de Guarulhos, o trânsito – bibibibi das motos – tudo parece irreal.
Em terra firme, após um longo voo de nove horas, entro no Uber. Não sei se eu ou o motorista iniciamos o assunto: quarenta minutos de viagem até a Vila Madalena, uma conversa acalorada sobre Ilhabela, borrachudos, filhos, religião, família, água de coco… o tempo voa, me sinto falando com um velho amigo. Me dou conta de que isso, em Portugal, não acontece, e, de certa forma, me acostumei à rispidez típica dos portugueses.
Em Juiz de Fora, passeando pelo centro atrás de uma sandália para minha tia Lúcia, fico espantada com a quantidade de pessoas viciadas, pedindo dinheiro na rua, dormindo pelas calçadas, zanzando com garrafas de cachaça na mão. Tenho pena, estranho me deparar com tantas em tão pouco tempo e espaço. Fico com medo de levar uma garrafada por não responder ao “boa tarde” de um adolescente completamente alcoolizado e drogado. Quando eu morava aqui, não reparava muito nisso. O mesmo ocorre com o luxo, antes normalizado por mim: os apartamentos enormes, os funcionários das famílias, os carros do ano supertecnológicos, o consumismo, os restaurantes com valet, enfim.
O gostinho do almoço, muito bem temperado, influência de tantas culturas, contrasta com o sabor simples do azeite e sal da comida portuguesa, assim como a magnitude da natureza, o tamanho das árvores, das frutas, dos bichos, tão característico do Brasil.
Me sinto com a capacidade de notar o que antes era invisível justamente porque era comum. Venho sempre com novas referências, novos “normais”. Quem fica, vive dentro de uma única luz e, por isso, não a percebe como luz: é apenas o mundo, sem alternativa, que a revela. Ao atravessarmos o oceano e depois voltarmos, carregamos duas referências que divergem, e é desse atrito que nasce o contraste, que nasce uma nova percepção.