
Há momentos em que a vida parece ter ultrapassado o limite: o dinheiro acaba antes do mês, falta atendimento no posto de saúde, o emprego se torna incerto, a escola dos filhos não corresponde às expectativas e a violência acompanha cada saída de casa. Até quem está relativamente bem sente que algo se perdeu pelo caminho. É então que a promessa de mudança se parece como abrir uma janela em um quarto abafado.
É compreensível. A esperança de que determinados aspectos da vida possam melhorar nos motiva a seguir em frente. Quem aceita, de bom grado, a ideia de que tudo continuará exatamente como está? O problema é que “mudança” é uma dessas palavras que parecem transmitir muito antes de realmente dizer algo. “É hora de mudar”, “vamos retomar o controle”, “o país voltará a crescer”: todas indicam um caminho. No entanto, quando se busca entender para onde estamos indo, por qual trajetória, em quanto tempo, com quais recursos e com o sacrifício de quem, o diálogo tende a se tornar mais complexo.
Talvez seja esse o poder da palavra. Ela possibilita que pessoas com expectativas bastante distintas cheguem a um acordo por alguns minutos. Todas elas compartilham um desconforto, mesmo que não concordem sobre sua origem nem sobre a solução. Um trabalhador preocupado com a renda, uma mãe exausta à espera de atendimento, um empresário sobrecarregado por impostos, um jovem sem perspectivas, alguém que teme a violência: cada um pode ouvir “mudança” e pensar em algo distinto.
Uma palavra que cabe em muitos desejos
Uma promessa minuciosa exige atenção e pode ser exaustiva para ouvir. Afinal, requer que o candidato esclareça prioridades, reconheça custos e defina quem será beneficiado e quem será prejudicado. Se pretende reduzir despesas, é necessário especificar quais; se deseja expandir serviços, é preciso esclarecer a origem dos recursos. Os detalhes são incômodos porque convertem uma palavra bonita em uma decisão concreta, que frequentemente é desafiadora.
A frase vaga é mais cômoda. “Recuperar a dignidade do país” pode ser rapidamente interpretada, pois cada indivíduo preenche a ideia com suas próprias experiências ou aspirações. Quem teve perda de renda enxerga proteção econômica. Quem já foi mal atendido por um serviço público imagina respeito. Quem está farto de corrupção anseia por uma limpeza moral. A mesma palavra abrange expectativas que talvez não sejam atendidas pelo mesmo governo.
E não é necessário que alguém conduza esse processo de forma altamente sofisticada. Quando queremos muito que algo aconteça, começamos a pensar que uma pessoa específica pode torná-lo realidade. Às vezes, ela simplesmente oferece uma frase ampla o bastante para acolher essa esperança. Nós adicionamos o restante.
Isso não significa que as pessoas sejam ingênuas ou desprovidas de pensamento crítico. Emoção não é o contrário de razão: a ansiedade pode motivar a busca por informação, a indignação pode gerar exigência e o entusiasmo pode estimular a participação. No entanto, as emoções alteram a forma como processamos as informações que temos. Quando uma promessa valida nossas crenças pré-existentes, ela nos parece mais convincente; ao passo que, quando vai contra elas, exigimos justificativas que talvez não demandássemos do candidato de nossa preferência.
O que está oculto na promessa
É nesse momento que o eleitor deve começar a questionar, em vez de aplaudir slogans. Uma promessa geral pode ser válida: os governos não controlam tudo, e uma campanha atrai pessoas que não concordam com todos os detalhes. Nenhum país é dirigido por um único anseio.
Porém, há uma distinção entre permitir espaço para negociação e deixar tudo sem resposta. Uma coisa é afirmar que se deseja diminuir as filas do SUS, e outra é debater os métodos para isso. Outra questão é prometer “revolucionar a saúde” sem estabelecer prioridades, prazos, orçamentos ou responsabilidades. Uma coisa é promover o crescimento. Outra questão é utilizá-lo como uma palavra mágica, sem especificar se será oriundo da indústria, crédito, exportação de matérias-primas, infraestrutura, aumento salarial, redução de impostos ou diminuição do endividamento. Tudo ao mesmo tempo.
A diferença se torna evidente após a eleição. Quando a promessa é clara, o eleitor possui um parâmetro de comparação. Pode perguntar: foi realizado? Em qual grau? Quem foi que impediu? O que foi alterado? Quando a promessa é imprecisa, o governante sempre encontra algo que pode apresentar como promessa realizada. Uma nova legislação, um projeto, um encontro, uma redução de impostos, uma detenção, uma imagem ao lado de um equipamento. A palavra original pode abranger tudo, pois foi concebida para acomodar quase tudo.
E é nesse ponto que a mudança pode acabar prejudicando quem a desejou. Pessoas que votaram juntas percebem que tinham expectativas diferentes. O trabalhador nota que o ajuste afetou o salário ou o serviço que usava. O pequeno empresário percebe que a simplificação beneficiou concorrentes de maior porte. A família que buscava segurança recebe apenas palavras mais severas. Quem pensava em desenvolvimento sustentável observa uma licença ambiental simplificada em prol do progresso. Quem aguardava consideração pelos pobres recebe a notícia de que o sacrifício era imprescindível. A promessa não se extingue; ela troca de proprietário. Começa a ser esclarecida por quem triunfou.
Um antigo alerta
Há quase cem anos, um país do norte da Europa, imerso em uma crise econômica, humilhação nacional e temor do futuro, foi inundado por propaganda que prometia transformação, estabilidade e recuperação. Seu principal político pediu ao povo que lhe concedesse quatro anos para avaliar a nova administração. O que se seguiu foi uma das maiores tragédias da história da humanidade. Esse país era a Alemanha.
A comparação apresenta limites claros. O Brasil atual não se assemelha à Alemanha de quase um século atrás, e recorrer a esse período para fazer um diagnóstico sobre nossa situação seria imprudente. Porém, a história nos lembra que mudança não garante qualidade. Uma sociedade exausta pode conceder poder excessivo a quem promete recuperar sua grandeza ou solucionar todos os problemas de imediato. Precisamos entender o que a promessa permite, quem ela vai proteger e quais instituições permanecerão intocadas quando o entusiasmo inicial se esvair.
O Brasil está passando por uma eleição em que a palavra mudança está presente em quase todas as conversas. É normal que seja assim. Existem muitos motivos para almejar um país mais seguro, menos desigual, mais produtivo, mais saudável e capaz de lidar com a crise ambiental. No entanto, essas palavras não devem ser usadas como um atalho para escapar das decisões que realmente importam.
Antes de se deixar levar por promessas que parecem responder às suas preocupações, vale conter o impulso por alguns minutos e perguntar: o que, exatamente, vai mudar? Quem ganha e quem perde? De onde virão os recursos? Que leis precisarão ser alteradas? Quem terá autoridade para implementar as medidas? E como poderemos verificar, ao fim de quatro anos, se a promessa foi cumprida?
Não são perguntas que esfriam a esperança. São perguntas que evitam que ela seja usada contra nós.