
“‘Eu te amo’ é um belo remédio. Na bula da vida, use sem moderação.”
Essa frase que uso de epígrafe foi tirada do belíssimo livro de crônicas do meu amigão de infância Leandro Ioschpe (da Tia Guite) Zimerman (do Tio David). “O fundo da foto” (Editora AGE) é um banho de afeto, de sinceridade, de vida simples como resultado necessário de tanta complexidade. A obra já me emociona antes de começar propriamente. Parte com a sábia frase “Vida é o momento infinito no meio do tempo imparável.”
Posso emoldurar, amigo?
E segue com algo que me estremeceu de nostalgia e ternura:
“A tantos por tantos momentos infinitos. Ao passado sempre presente. Paizão e Xandi, saudades que chegam a doer. Ao presente muito presente. Mã, exemplos e carinho incondicional. Daninha amada, nós juntos sempre, para sempre. Deco, Tiagão e Nini, meus filhos, minhas paixões, cada vez mais meus orgulhos. Ao futuro já presente. Lara, neta amada, o olhar mais lindo do mundo.”
Sou testemunha do quão absurdamente queridas são todas as pessoas citadas aí em cima. Sobre o Xandi em particular, décadas depois do seu falecimento prematuro, só recentemente eu consegui conversar com o Leandro sobre o assunto e percebi que a dor é eterna. O Xandi era luz, e é engraçado ver no Deco uma réplica desse irmãozinho do meu amigão que também era meu amigo.
O Leandro foi meu colega de colégio, é amigo da vida inteira e se tornou uma referência da cardiologia, não só no Brasil.
É um craque!
E eu sou um curioso, um jornalista. Um eterno repórter.
Sou curioso pra saber, por exemplo, se o número de 83 crônicas tem algo a ver com certo ano em que um dos pacientes do Leandro nos deu o mundo (me bastaria pegar o Whatsapp e perguntar pra ele, mas… prefiro nem ter a resposta. Se foi involuntário, também tá valendo como um lindíssimo ato falho, assim como eu tive há três semanas quando escrevi um poema ao Boy George em 18 estrofes e só depois me dei conta de que celebrava a vida em hebraico, porque 18 equivale a “chai”, e eu sou um obsessivo observador de símbolos).
Sim, um dos pacientes do doutor Leandro, gremista fanático como eu e parceiro de muitas jornadas no Olímpico, é o próprio Renato Portaluppi, que se submeteu com ele anos atrás a uma cirurgia corretiva. Aliás, se você realmente acha que o cidadão Renato, aquele cara que ajuda meio mundo sem alarde, é um arrogante e um bobalhão, como pode transparecer a sua persona pública, ouvirá uma enorme negativa do Leandro, que identifica o Renato como gentil, generoso, alegre e, pasme, humilde. Não me lembro na formatura de qual dos guris o Renato entrou num telão mandando beijos (até os colorados se enterneceram com aquele gesto de simples afeto desinteressado à família do cara que cuida do seu coração). Sim, ele, o Portaluppi. (Registre-se: acho ridículos tanto os colorados que demonizam o Renato quanto os gremistas que demonizam o D’Alessandro, dois personagens lindos, que, dependendo do grau de discernimento da pessoa, são amados ao sabor da camiseta que vistam. Como diria o Gil, “gente estúpida, gente hipócrita”)
Provavelmente o Leandro me corrija, mas, lá sei eu, vou fazer a minha piadinha de leigo com um breve poema dedicado aos gênios:
…
O Renato, quando fez aquele gol
Provocou o bom stresse
Liberando adrenalina e cortisol
Também bombou oxigênio
Quando gritamos alto
Junto com o nosso gênio
Agora o Leandro lhe devolveu
Aquele momento único
Que foi deles e também meu
Que oportunidade, meu amigo!
Retribuíste ao nosso ídolo
E sinto que fizeste isso comigo
Porque mexer nas suas veias
Fez aquela lua de dezembro
Ficar ainda mais linda e cheia
…
Mas, enfim, quero falar sobre o coração do cardiologista Leandro e outras coisas mais.
Antes, vamos recorrer ao Maiakovski, porque tem tudo a ver: “Comigo, a anatomia ficou louca: sou todo coração.”
Apropriado, não?
Eu e o Leandro nos escolhemos, literalmente.
Quando crianças, éramos de turmas diferentes no mesmo ano do Colégio Israelita Brasileiro (CIB). E aí fizeram aquelas listas no fim de ano em que os alunos manifestam os colegas que querem na mesma sala. Nós nos escolhemos, mesmo a partir do pouco contato que tínhamos. Nos enxergamos.
Sabíamos que aquilo era pra vida.
Depois, nos momentos lindos, de bar-mitvá de filhos e bat-mitzvá das filhas, lá estávamos, pra citar só um exemplo de forte apelo emocional e identitário.
Penso no Leandro, nas nossas conversas sempre muito afetivas, nas nossas enormes afinidades (não só no campo esportivo, o que convenhamos que é um detalhe irrelevante, porque não estamos aqui falando de coloração clubística), e é incontornável me lembrar do cara que, de tão inteligente, nem precisava estudar pras provas. Sempre ou quase sempre tirava nota máxima. Nada lhe escapava nas aulas, era impressionante.
E aqui vou cometer uma inconfidência. O pai dele era o David Zimerman, o “Davizinho” (tinha também o Davizão, de mesmo nome, sobrenome e profissão, ambos amigos, sendo o Davizão também pai de colega nosso, o Jaques), e o “Tio David” se incomodava com aquilo. Pensava no futuro de inevitáveis percalços, no grau de autoexigência que o filho teria, na frustração que sentiria diante das adversidades e da inatingibilidade do desempenho sempre perfeito. E eu digo, agora: “Tio, fica frio. Deu tudo certo! Teu guri é um gênio, sim, um profissional extremamente bem sucedido, mas de uma comovedora e linda humildade.”
Quando penso no Leandro e na minha turminha do CIB (“barra 81”), reflito sobre os colegas/amigos que tive e tenho (entre eles, a esposa dele, a também amada amigona Adriana, citada lá em cima pelo apelido “Daninha”). Muitos da nossa turma se destacaram nas suas áreas de atuação, e isso é tri bacana.
E é inevitável eu pensar num assunto que abordo recorrente e deliberadamente neste espaço, uma vez que está exasperantemente normalizado e aceito: o antissemitismo. Já escrevi aqui e até em livro (“A cronologia do Alef Bet”, “A Parteira do Bom Fim” e “Uma Estrela no Pampa”): com a impossibilidade do apagamento físico, porque somos muito resilientes, a onda agora é o apagamento semântico. E é óbvio que a nossa união, a preservação de uma cultura com mais de três perseverantes milênios, o valor dado ao estudo e a ajuda de uns a outros incomoda. Tá, vou mais longe: provoca inveja.
Figuras abjetas, surfando numa onda mainstream cheia de lodo pestilento disfarçado de ideologia, escrevem Israel entre aspas pra negar o direito à autodeterminação do nosso povo. E outro dia, juro, vi a palavra “comunidade judaica” assim, também entre aspas. E pensei: como falam e escrevem coisas sem qualquer noção da realidade! Até vou me dar o direito de não explicar o que é “povo”, “etnia” e “direito à autodeterminação” no lar ancestral depois de tantos séculos submetidos a perseguições, segregações e violências ímpares (ímpares mesmo, só a escravização africana se compara a pogroms, inquisição, Shoá).
Cansei de explicar (o que não significa que vou parar).
Eu e o Leandro somos como irmãos, e é assim que nos tratamos. Somos filhos da mesma aldeia, dos mesmos valores, da mesma cultura, da mesma fé, dos mesmos simbolismos linguísticos, territoriais e históricos. Ah, também somos apaixonadamente tricolores. Eu escrevo livros sobre o clube, ele dá palestra sobre cardiologia com a camiseta tricolor em dia de conquista continental. Loucamente apaixonados por essa magia que o futebol proporciona. Mas sejamos honestos, sinceros e verdadeiros, porque assim somos eu e o Leandro e acho que por isso nos gostamos tanto desde guris: poderíamos ser também de outro time. Dá igual.
E vai aqui outra frase do livro, pra encerrar:
“‘O que importa na vida é ter amigos’. Mais que isso. Esses amigos somos nós, dizem quem somos, fazem o que somos. Obrigado, amigos-amigos. Vocês não são os que estão; vocês são os que são.”
Fui, sou e sempre serei.
Um beijo, amigo-amigo. E parabéns pelo lindo livro, que é a tua cara.
No próximo dia 19, o Leandro estará autografando “O fundo da foto”, título tão inspirador e condizente com o conteúdo das 177 páginas. Será na Livraria Paisagem, do Bourbon Carlos Gomes (Avenida Carlos Gomes, 731). Esperamos vocês lá.
Obs: na foto que ilustra esta coluna, Leandro está com seu livro anterior, “Férias no meu mundo”, também de leitura extremamente recomendável.
…
Shabat shalom
Todos os textos de Léo Gerchmann estão AQUI.