
Seu nome é singelo — El Niño, “o menino” em espanhol — e nasceu da devoção dos pescadores peruanos ao Menino Jesus, pois o fenômeno costumava aparecer nas proximidades do Natal. Para eles, já era um mau presságio: águas mais quentes significavam menos peixes. Hoje, num planeta aquecido, significa muito mais do que isso.
O El Niño é uma pulsação rítmica nas vastas extensões do Oceano Pacífico Equatorial, conhecida cientificamente como ENOS (El Niño Southern Oscillation). A cada poucos anos, as águas frias que normalmente banham a costa oeste da América do Sul cedem lugar a uma enorme massa de água anormalmente quente. O resultado é muito mais do que uma curiosidade oceanográfica: trata-se de uma engrenagem colossal do sistema climático global, capaz de alterar regimes de chuva e temperaturas em continentes inteiros. Os dados científicos já nos avisam — o gigante está despertando novamente, e as projeções indicam seu retorno com força em 2026.
Um planeta diferente
Para compreender a magnitude do que está por vir, é preciso olhar além da mecânica natural do fenômeno. O El Niño não atua mais sobre um clima estável como o de séculos passados. Manifesta-se agora num mundo febril, cujos oceanos absorveram mais de 90% do excesso de calor gerado pelas atividades humanas nas últimas décadas. O aquecimento do planeta não eleva apenas a temperatura basal da Terra — age como amplificador implacável das anomalias climáticas. Estudos recentes demonstram que as mudanças no clima estão tornando esses eventos significativamente mais severos, intensificando tanto as secas quanto as precipitações extremas. O que antes era variação natural tornou-se força potencializada pela nossa própria interferência na atmosfera.
Do Amazonas ao Sul: faces de um mesmo fenômeno
Os efeitos dessa combinação já se mostraram devastadores. No Brasil, as consequências variam drasticamente de acordo com a geografia continental do país. A região Norte, especialmente a Bacia Amazônica, sofre com a supressão severa das chuvas — secas históricas, rios em colapso e incêndios florestais que ameaçam a resiliência do bioma. O Nordeste enfrenta o agravamento da aridez, comprometendo a segurança hídrica e alimentar de milhões de pessoas.
É no Sul, porém, que o El Niño tem demonstrado sua face mais sombria e destrutiva. A memória recente ainda carrega as cicatrizes de abril e maio de 2024, quando o Rio Grande do Sul foi palco de uma catástrofe sem precedentes. Ao bloquear o avanço de frentes frias, concentrar a umidade vinda da Amazônia sobre a região e se somar à umidade vinda do Oceano Atlântico, o fenômeno despejou volumes de chuva que desafiaram qualquer parâmetro estatístico. Em Porto Alegre, em apenas três dias choveu o equivalente a mais de dois meses de precipitação normal. O saldo foi uma tragédia humana e estrutural: dezenas de vidas perdidas, centenas de milhares de pessoas deslocadas, cidades submersas e uma infraestrutura colapsada que paralisou o estado. Pesquisadores da iniciativa World Weather Attribution confirmaram que as mudanças climáticas tornaram aquelas chuvas extremas duas vezes mais prováveis e cerca de 10% mais intensas.
Preparados para o inevitável?
Diante de um novo ciclo projetado para se estabelecer a partir de meados de 2026, a pergunta que se impõe não é se seremos atingidos, mas quão preparados estamos. A resposta revela uma vulnerabilidade sistêmica urgente. A tragédia gaúcha expôs falhas críticas na contenção de cheias — barreiras que cederam antes de seu limite teórico —, na ausência de políticas robustas de adaptação e no enfraquecimento de legislações que protegiam áreas naturais de amortecimento. Embora autoridades de Porto Alegre e de outros estados estejam tomando providências — como a modernização dos sistemas de controle de enchentes —, a maioria dos especialistas afirma estamos fazendo pouco, e tarde.
Concreto e natureza: os dois pilares da resiliência
A preparação para extremos climáticos exige uma mudança de paradigma. Não podemos mais tratar o El Niño como uma surpresa imprevisível — a ciência fornece alertas com meses de antecedência. Para o Sul do Brasil e para o país como um todo, a adaptação precisa tornar-se a espinha dorsal do planejamento urbano e regional. Isso significa investir em diques e sistemas de drenagem, mas também reconhecer os limites do concreto: é preciso restaurar as planícies de inundação naturais, respeitar as margens dos rios e implementar sistemas de alerta precoce que, de fato, cheguem a todas as comunidades em risco — transformando informação em evacuação segura e coordenada.
A resiliência passa, igualmente, pela preservação dos ecossistemas. A vegetação nativa age como esponja vital, absorvendo o impacto das chuvas torrenciais e reduzindo o escoamento que causa inundações. Ignorar a proteção ambiental em nome de um desenvolvimento de curto prazo é, na prática, um convite ao desastre econômico e humano.
Embora não se possa prever com exatidão o volume de chuvas que virá, nem os locais onde haverá maior precipitação, o retorno do El Niño é um lembrete contundente da nossa fragilidade diante das forças da natureza — sobretudo quando essas forças são amplificadas pelas nossas próprias ações. O planeta escreve seus avisos na linguagem das águas que sobem e das terras que racham. A ciência já fez sua parte: diagnosticou o problema e mapeou os cenários. Cabe agora à sociedade e aos tomadores de decisão agir à altura do que se anuncia. Preparar-se para o inevitável não é apenas uma questão de engenharia ou política — é um imperativo ético para proteger vidas e garantir um futuro habitável num mundo cada vez mais hostil.
Todos os textos de Marco Moraes estão AQUI.

