
A uma quadra do meu consultório, no meio do caminho para o mercado onde vou tomar café, no meio das tardes possíveis, há um cão. Tudo indica que ele está no fim da vida. Ele é um vira-lata gigante, que foi adotado por um homem pequeno. A cena se passa em dias de sol, na varanda de um prédio antigo o suficiente para ter varanda com banco, ao contrário das construções contemporâneas de vidro e mármore, perto dali, sem banco nem varanda para ver a vida passar.
O cão tem as patas bem tortas, por causa de uma artrose do tempo, provavelmente. Ele anda com muita dificuldade e, para chegar à frente do banco em que o seu tutor se senta, ele precisa de muita ajuda. Não é nada fácil, tendo em vista o tamanho dos dois, mas o esforço é sem recuo, e sempre conseguem.
O homem se senta no banco, e o cão se deita à frente dele. E ficam os dois tão absortos em aproveitar aquele sol que não tenho coragem de interrompê-los com perguntas que a minha curiosidade me sopra, do tipo quantos anos tem o cão ou como vão seus tratamentos.
Tento pensar que ainda tem muito sol para eles aproveitarem, mas, ao acompanhar o declínio progressivo do cão e suas dificuldades cada vez maiores de se movimentar, não consigo evitar o pensamento de que ele está no fim da vida.
Dia desses, pensando nisso, lembrei daquele poema do Gullar dizendo que o seu gato é eterno, porque não sabe que vai morrer. Eu não sei se o cão ignora ou não a própria morte, mas não consigo não pensar na vida que ele e o tutor aproveitam nessas tardes de sol.
Às vezes, a cena me leva a meu pai, quando ele estava muito doente, mas aproveitava cada jogo na tevê e queria ver o mar. Ele não conseguiu rever o mar, mas nunca deixamos de planejar uma ida à praia, enquanto comentávamos o jogo da tevê.
Outro dia, lembrei-me do depoimento um tanto irritado do psicanalista inglês Wilfred Bion sobre o equívoco dos ditos “saudáveis” diante dos pacientes “terminais”. Bion defendia a ideia de que todos estamos por um fio do fim, em meio à transitoriedade universal. Negar isso deslocaria a morte para os muito doentes, enquanto todos vão perdendo o tempo ignorado de vida que lhes resta.
Hoje mesmo, numa tarde fria de sol, vi cão e tutor aproveitá-lo com dois olhares entusiasmados. Depois, tomando café no mercado, comecei a escrever essa crônica até me dar conta de que não tenho a menor ideia de como terminá-la. Achei isso a cara do seu tema e, sem me preocupar com o fim do texto, voltei a sorver o café, embaixo daquele sol delicioso.
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