
O filósofo espanhol Fernando Savater afirmou certa vez que “o grande medo da democracia era o medo dos ignorantes!”. Mas ele não diz o que exatamente os “ignorantes” ignoram a ponto de fazer deles um perigo para a democracia!
Desde Platão, a relação entre o saber e o governo da cidade se tornou problemática. Ele achava que, assim como não escolhemos ao acaso, no cais do porto, um homem qualquer para servir de timoneiro de nosso navio, também não deveríamos confiar no homem da multidão para dirigir os negócios humanos. Platão desejava um governo onde o “saber” (o filósofo) governaria: uma Sofocracia.
Abre-se, desde então, um dilema entre consciência e competência, entre o cidadão e o técnico. Ocorre que aquilo que esperamos do cidadão não é a mesma coisa que esperamos do técnico: o cidadão é alguém em quem supostamente confiamos que ele avaliará as consequências morais (valor) das decisões políticas: o Cidadão é aquele que pergunta “POR QUÊ?”. O Técnico é aquele de quem supostamente esperamos que saiba executar aquelas decisões, usando os meios adequados para a realização dos fins: o Técnico é aquele que pergunta “COMO?”. Todo o problema da ordem política – Democracia incluída – é quando estes dois personagens (o cidadão e o técnico) têm seus papéis, digamos assim, trocados: quando deixamos as decisões para os técnicos (Tecnocracia) e não confiamos mais nos cidadãos como consciência judicativa, avaliando fins e valores das decisões tomadas no espaço público (é o risco que se corre com privatização individualista e com fim do “interesse público”). O cidadão decide ouvindo os argumentos de outros cidadãos igualmente interessados nos destinos da Cidade; o técnico decide a partir de uma suposta racionalidade instrumental, técnica (adequação dos meios aos fins, sem se perguntar se os fins são aceitáveis).
A educação deveria cumprir um papel decisivo na formação desses dois personagens: ela deveria oferecer ao cidadão a consciência (razão argumentativa e judicativa) para avaliar as consequências dos atos decisórios e fornecer ao técnico a competência para realizar o que a sociedade lhe pede (razão instrumental e estratégica). Ambos são necessários, e o medo democrático dos “ignorantes” é quando esperamos que a vida social se reduza a um problema de “administração”, de “gestão”! Os “ignorantes” não são os desescolarizados: são os que confundem MEIOS e FINS da política.
Mas, professor Savater, receio que talvez o verdadeiro perigo que a democracia corre seja quando os “loucos” chegam ao poder! E exemplos, nesse momento, não faltam!
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