
Há quatro dias já não sou a mesma.
Ainda levanto da cama na hora exata e, sonolenta, tomo o meu café preto acompanhado de uma banana amassada com pasta de amendoim. Saio para o trabalho, cumpro as minhas obrigações e, exausta, retorno para casa no final da tarde. Não deixei de tomar os meus remédios controlados. Sigo com as minhas restrições alimentares e com a falta de tempo para praticar exercícios físicos. Faço quase tudo igual à semana anterior. Ainda assim, desde a última segunda-feira, eu me sinto diferente.
Não sei se algum bicho me mordeu e provocou a crise que quase me derrubou, ou se fui tomada por um impulso que me fez reagir ao susto. Também não posso afirmar se fui abduzida enquanto dormia e devolvida ao quarto antes de o alarme tocar. Ou, quem sabe, tenha saído por aí em estado de sonambulismo, perambulando por lugares distantes e retornando à realidade cheia de boas intenções.
Não mudei de emprego, nem de endereço, muito menos de estado civil. Continuo usando as mesmas roupas, com exceção de uma ou outra seminova, comprada em brechó. Sigo lendo livros, escrevendo as minhas crônicas e romances, assistindo a filmes e séries. Possivelmente, tenha sido a soma de tudo isso a me empurrar para dentro de outra versão de mim.
Na última segunda-feira, deitei sendo uma pessoa. Na manhã seguinte, despertei outra. Embora me preparasse há meses para esse dia, não suspeitava da dimensão de sua chegada, nem do quanto abalaria a minha vida. Mas o fato é que não sei se por conta da idade que completei ou por outro motivo, celebrar o meu aniversário voltou a ser importante para mim.
Durante muitos anos, anulei o 13 de abril, dedicando toda a minha atenção ao aniversário do meu filho. Ele nasceu no dia 12 de abril de 2009, um dia antes de eu completar 29 anos e, desde então, para mim bastava celebrar o aniversário dele, por muitas vezes, esquecendo do meu. Antes disso, ainda criança, as minhas festas de aniversário eram compartilhadas com a minha irmã, que também nasceu em abril.
Aprendi cedo a dividir o bolo, os parabéns e até o desejo secreto ao apagar as velas. Isso quando as velas não eram só para a caçula. Eu já não tinha exclusividade. Nesse tempo, as atenções já não eram para mim, mas para a caçula da família, que espalhava a sua fofura entre os adultos. Eu ganhava presentes. A desculpa era não saber o que dar a uma menina que deixava de ser criança — algo que, certamente, não aconteceria se a festa fosse apenas minha.
Na adolescência e no início da fase adulta, eu até promovi algumas comemorações, mas, com o passar dos anos, elas pararam de acontecer. Comecei então a me perguntar que graça havia em celebrar o envelhecimento. Evitava abraços, desviava dos votos de felicidade. Não trabalhar nesse dia já me parecia um presente suficiente. Era uma forma de escapar dos parabéns, inclusive dos meus alunos, dos quais raramente conseguia fugir. Repetia a mim mesma, e quase acreditava, que o meu aniversário não fazia diferença, que pouco importava comemorar ou não.
Mas, de repente, alguma coisa em mim recusou o esquecimento e, pela primeira vez em muito tempo, o meu aniversário não me pareceu um dia qualquer. No entanto, nada foi como eu esperava. Não fui cumprimentada pelos colegas de trabalho, nem convidada por amigos ou familiares para um café ou almoço. Senti falta de abraços, de pequenos presentes. Aguardei mensagens que não chegaram e felicitações de quem nem sabia que dia era. O que não veio me frustrou. E, na falta, acabei diminuindo o que veio. As mensagens curtas e sinceras de alguns amigos e parentes, o carinho da minha família, o abraço da minha mãe.
De certa forma, eu mudei, mas esqueci de deixar claro às pessoas o que desejava. Esperei ver atendidas vontades que jamais revelei. Escondi a data do meu aniversário e, ainda assim, aguardei ser lembrada. Era eu quem deveria ter convidado os amigos e os familiares para um café ou uma festinha na minha casa. E se ninguém tivesse a disponibilidade que eu esperava, poderia ter saído sozinha. Afinal, de uns tempos para cá, venho aprendendo a gostar da minha própria companhia.
Talvez essa seja a principal característica de quem se aproxima dos 50 anos. Pode ser só o efeito dos dias em que estive abduzida, ou do veneno do bicho que me mordeu sem deixar marcas.
Vai saber.
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