
Em uma homenagem muito, mas muito dúbia, Nelson Rodrigues chamou uma de suas peças de Otto Lara Resende, ou: Bonitinha, mas ordinária, sendo o primeiro título o nome de seu amigo e colega Otto Lara Resende, então um dos mais lidos e comentados cronistas da imprensa nacional. Ruy Castro conta em sua biografia de Nelson, O Anjo Pornográfico, que a reação de Otto não foi se sentir lisonjeado, mas furioso, ainda que Nelson garantisse a todos os amigos que a brincadeira era uma amostra de respeito.
“Na verdade, ser o título da peça (e de uma peça como aquela) deixou Otto Lara Resende profundamente irritado. Tanto que não foi ver o espetáculo. E não era por falta de tempo, porque ela ficou cinco meses em cartaz, longos como cinco séculos. Nelson mobilizou todos os amigos, não se conformava com que ele não visse. ‘Mas até o Tancredo já viu, Otto!’, argumentava. Não ir ao teatro era a única vingança ao alcance de Otto. Porque, de resto, não podia fazer nada, nem reclamar. Descobrira há muito tempo que, quando se tratava de qualquer coisa que Nelson escrevesse a respeito de alguém, se esse alguém não gostasse devia ficar quieto.
‘Se reclamar, é pior. Aí é que ele encarna mesmo’, dizia Otto.”
Já Nelson se defendia.
“Assim é o mundo. Impotente de sentimento, o ser humano precisa ver o desamor por toda parte. Ninguém admite que o nome de minha peça é uma homenagem, apenas uma homenagem, uma cândida, límpida, inequívoca homenagem”, relata Ruy Castro em seu livro.
A frase do Otto
A questão é que, sacanagem ou homenagem, Otto não é apenas citado de passagem, mas está no centro mesmo de uma das molas da progressão dramática da obra. A peça já começa com dois dos personagens, o autoproclamado mau-caráter Edgard e um certo Dr. Peixoto, em uma mesa de bar. Peixoto está procurando um homem de moral flexível para fazer uma proposta indecorosa (casar-se por interesse com uma jovem rica, filha do patrão de Edgard, que teria sido vítima de um estupro coletivo, mas isso Edgard só vai saber, de ressaca, no dia seguinte).
Ao assinalar que é o homem certo para a tarefa, seja lá qual seja, o alcoolizado Edgar explica sua visão de mundo, moldada por uma frase que ele atribui a Otto Lara Resende: “Um que é ourives?”, pergunta o desavisado Peixoto, ao que Edgard responde que “O Otto escreve” e que já “tem um livro“, mas não consegue se lembrar do título. A frase do Otto que provocou uma reviravolta na forma de Edgar ver a realidade é “O mineiro só é solidário no câncer”. Peixoto, a princípio, acha a frase apenas cômica, mas logo Edgar explica o que vê de transcendente nela:
PEIXOTO (repetindo)
— “O mineiro só é solidário no câncer.” Uma piada.
EDGARD (inflamado)
— Aí é que está: — não é piada. Escuta, Dr. Peixoto. A princípio eu também achei graça. Ri. Mas depois veio a reação. Aquilo ficou dentro de mim. E eu não penso noutra coisa. Palavra de honra!
PEIXOTO — Uma frase!
EDGARD — Mas uma frase que se enfiou em mim. Que está me comendo por dentro. Uma frase roedora. E o que há por trás? Sim, por trás da frase? O mineiro só é solidário no câncer. Mas olha a sutileza. Não é bem o mineiro. Ou não é só o mineiro. É o homem, o ser humano. Eu, o senhor ou qualquer um só é solidário no câncer. Compreendeu?
PEIXOTO — E daí?
EDGARD — Daí eu posso ser um mau-caráter. E pra que pudores ou escrúpulos se o homem só é solidário no câncer? A frase do Otto mudou a minha vida. Quero subir, sim. Quero vencer.
A “frase do Otto” não dá as caras apenas nessa cena, ela se repete várias vezes ao longo da peça, não apenas demarcando a fascinação de Edgard por ela, mas pontuando como um refrão momentos em que ele ou outros personagens que vão sendo arrebatados pelo caminho precisam justificar seus desvios de comportamento. Edgar atribui à “frase do Otto” o fato de, na cena V do Primeiro Ato, ter quase passado dos limites com a vizinha Ritinha, que o acompanhava em um carro.
Mais tarde, a frase é comparada por ele próprio a um abscesso, um câncer, uma espécie de possessão pela qual todo mau-caráter encontra consolo pela sua própria canalhice. A frase do Otto muda tudo e resume toda a filosofia, “é maior do que Euclides da Cunha”, diz Edgard.
A “frase do Otto”, de fato, é um motivo central da história, o que torna ainda mais engraçado o fato de que Otto nunca publicou nada parecido. Ou antes, o próprio Otto nunca a havia escrito, mas a forma como ela se grudou nele com o sucesso da peça (“Nelson me pregou um rabo de papel”, reclamaria ele, como conta Ruy Castro na biografia) fez o próprio escritor não ter mais certeza se ela era mais uma invenção marota de Nelson ou se, em algum momento, não disse mesmo a frase desavisadamente, numa tentativa inocente de humor da qual não mais se lembrava.
Não importava. Nos domínios literários do texto de Nelson, a frase era um sinal de uma realidade que o protagonista tenta negar, mas que vê confirmada em toda parte.
“Ouve só: — ‘O mineiro só é solidário no câncer.’ Parece até piada. O sujeito acha graça. (exasperado) — Mas essa frase tem um fundo falso. E a verdade está lá dentro”.
A certo ponto, ao fim da peça, Edgar conclui que a grande questão não era o ser humano só ser solidário no câncer, era que o espírito cínico e individualista da frase era ele próprio o câncer.
A minha frase
Nelson era, claro, um trágico melodramático, mas esses tempos me lembrei dessa sua peça ao perceber que eu mesmo passei por uma breve epifania retroativa ao encontrar a frase de meu passado recente que, vejo agora, sinalizava que o mundo em que eu vivia havia mudado de modo irreversível, e não havia mais volta. Assim como no caso dele, não é uma frase minha, mas seu autor não tem o prestígio literário e artístico de Otto Lara Resende, mas sim o jornalista que redigiu o título de uma nota que vi num veículo online no fim dos anos 2000, por aí: “Blogueiro demitido de portal”.
Não sei recuperar hoje quem era o blogueiro e qual era o portal, lembro apenas da surpresa de pensar que alguém que fazia um blogue podia “ser demitido” naqueles tempos em que, para citar uma tirinha do André Dahmer do período, “ou você tinha sucesso ou você tinha um blogue”, nunca as duas coisas.
“Blogueiro demitido de portal” não é uma frase com a mesma vocação filosófica e totalizante da “frase do Otto” criada por Nelson, ainda assim, quando olho para trás, vejo que foi aí que primeiro senti a estranheza de a internet, principalmente o ecossistema dos blogs que ainda era tão popular na primeira década do século, haver sido substituída por uma mercantilização que transformara “blogueiro” em profissão, algo impensável para os desbravadores daquele espaço como eu.
Sim, porque eu meio que embarquei cedo na onda blogueira, ainda no ano de 2001, usando um pseudônimo para um blogue que até chegou a me proporcionar contatos e amizades interessantes, mas não virou “profissão”, assim como muitas das pessoas que brincavam com aquele ambiente naqueles tempos eram ou escritores partilhando ideias ou pessoas aleatórias fazendo experimentações interessantes com um novo meio. Aí um dia chegou a grana, e meio que estragou tudo.
Não havia ainda se popularizado naquela época esse infame vocábulo “influencer” que passou depois a ser sinônimo de “produtor de conteúdo” (essa palavra fatal, veja aqui). O que se “produzia” online eram coisas com uma pátina amadora, um certo grau de crueza que, na comunidade online, era considerado um signo de “autenticidade” diante da produção profissional da mídia tradicional. Em um quarto de século, hoje não temos mais blogues, mas o modelo econômico do influencer como profissão se consolidou, com gente fazendo shorts de um minuto com um grau de produção antes só comparável ao da novela das oito.
Penso que perdemos um tanto com isso, todos hoje somos presas do algoritmo, e a “gamificação” da paisagem digital transformou o celular em uma espécie vazia de caça-níquel de dopamina. O terreno outrora virgem das redes sociais e dos aplicativos foi colonizado pela política e pela desinformação com intenções políticas.
Como convém a nosso tempo fraturado, “Blogueiro demitido de portal” não é maior que Euclides da Cunha, não resume toda a filosofia, não tem pretensões universais de leitura da alma humana. Foi uma notícia simples, que em sua singeleza estava, na verdade, anunciando uma mudança de realidade, mas não no elemento moral da frase de Nelson/Otto, e sim numa certa decadência geral. Um tempo em que blogueiros e influencers, em troca de cliques e métricas, provaram que ninguém é mais solidário nem no câncer.
A menos que isso renda alguns views.
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