
Durante um bom tempo, no sentido literal e abstrato, morei em uma “chambre de bonne”, ou seja, um quarto de empregada, em Paris. Ficava na Avenida Victor Hugo, não longe do Arco do Triunfo, no décimo sexto distrito. O bairro era chique; o quarto, não. No passado, abrigou funcionários do prédio exuberante. No presente, os donos – muitos decadentes – alugavam para fazer uma renda extra.
Eram quatro quartos dispostos em dois corredores, separados por um jardim, com direito a dois banheiros, um para cada grupo de moradores. Não eram muito limpos, pois estávamos em Paris, e muita gente dividia o uso, sem se apropriar do que usava. Um nojo que me fazia, às vezes, ir ao banheiro do café da esquina.
Durante aquele bom tempo, conheci muita gente, como a cantora coreana, dois quartos adiante. Ela depois foi expulsa por causa dos seus ensaios estridentes de soprano. No quarto ao lado do meu, morava uma trabalhadora diurna do sexo, que dava umas vassouradas na parede, sempre que, depois da meia-noite, eu usava a minha máquina de escrever Traveller, comprada longe dali, na rua Charonne. A mulher precisava descansar do longo dia, mas depois também foi expulsa, por preconceito.
Fui voto contrário às duas expulsões, mas eu era inquilino, e quem votava era a Madame Grodjean, a proprietária sisuda da minha chambre. Aos que ficaram, a realidade, como a de lidar com Michel, o zelador de grande bigode e birras maiores ainda. Comigo, a tensão de sempre me deixar por último para entregar uma correspondência, à época abundante e fundamental para amenizar a minha solidão. Nunca entendi as razões de ser o último e, sempre que ia reclamar, ele soltava uma baforada de charuto e fazia aquela buff tipicamente parisiense.
Mas hoje, décadas depois daquele tempo e já tão longe geograficamente, lembrei-me do Macário, o libanês que ocupava um dos quartos e vivia sozinho como todos nós. Ele trabalhava na sorveteria Haagen-Dazs, da Champs-Élysées, não longe dali. Nos meus tempos de maior penúria, indicou-me para fazer um bico por lá, mas eu não fui aprovado, pois não sabia mexer em computador. Naqueles anos 90 do século passado, as máquinas já entravam a mil, tornando analfabetos quem não as dominava, como eu.
Lembrei-me do Macário, porque todos ali moravam sozinhos, mas só ele continuou. A cada volta minha a Paris, meu antigo desafeto Michel ia se tornando um velhinho acolhedor e me punha a par das novidades: a coreana voltou para a família em Seul, a trabalhadora do sexo se casou com um de seus clientes, e assim por diante. Já o Macário, sempre só.
Em minha última viagem, soube que ele morreu. Morreu sozinho, contou-me Michel, dessa feita sem nenhuma baforada, não porque seguisse a prescrição de parar com os charutos que adoeciam seus pulmões cansados, mas como quem respeitasse a vida e a morte de um amigo solitário.