
No mês de fevereiro, ao escrever “A encruzilhada na avenida” e refletir sobre o enredo da Portela, mencionei brevemente a figura dos africanos e africanas retornados. São pessoas que, após a experiência da diáspora, refizeram caminhos em direção ao continente que originou a humanidade – que carinhosamente estamos chamando aqui de Terra Mãe. Retomo agora essa questão a partir de leituras que tensionam a própria ideia de diáspora africana, não apenas como a dispersão irreversível, mas o circuito, o trânsito e a rearticulação atlântica.
Estudos sobre populações na costa ocidental da África — especialmente em países como Benin, Nigéria e Serra Leoa — evidenciam a formação de comunidades que carregavam marcas da experiência brasileira e, ao mesmo tempo, (re)inscreviam práticas africanas em novas configurações sociais. Ao retornarem, esses sujeitos não apenas “voltam”: tornam-se mediadores entre mundos. Levam consigo línguas, religiosidades, técnicas e formas de organização econômica, política e social que desafiam leituras lineares da escravidão como ruptura absoluta.
Essa chave permite revisitar trajetórias como a de Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio, figura importante do Batuque no Rio Grande do Sul. Nascido na África, filho de um ‘retornado’ e chegado ao Brasil no século XIX, Custódio encarna essa dimensão atlântica de circulação e recomposição. Sua vinda parte desta experiência do pai e atuação, como liderança espiritual e mediador político, evidencia que as tradições de matriz africana no sul do Brasil não são fragmentos isolados de um passado africano. São, sim, continuidades de tradições vivas reorganizadas em contexto diaspórico. O Batuque, nesse sentido, recria a África em território brasileiro, constituindo formas próprias de sociabilidade, de economia, de hierarquia e de conhecimento.
Escrevo a partir do meu envolvimento como sendo parte de uma família batuqueira, pesquisadora dessa tradição, multiartista e também como integrante do movimento Coleção Batuque RS. Esta coleção é composta por dezenas de artefatos sagrados apreendidos no século XIX, no Rio Grande do Sul, e hoje custodiados no Museu de Berlim, na Alemanha, sob o nome de Coleção Pietzkcker. Esses objetos, cabe lembrar, foram sequestrados pela polícia colonial, em 1880, durante uma celebração religiosa de matriz africana, aprisionados e, depois, comprados (legalmente?!) por alemães residentes no estado, que posteriormente doaram ao museu de seu país. É nesse ponto que trajetórias de circulação encontram histórias de interrupção, mas não de extinção. Explico.
A Coleção Batuque (foi renomeada pelo grupo de estudiosos porque Batuque é o nome reconhecido pelo Povo de Terreiro do RS) evidencia um outro tipo de deslocamento negro marcado pela violência colonial. Sua existência confirma que tradições religiosas de matriz africana, como a do Batuque, estiveram fortemente presentes nos tempos coloniais a ponto de sofrerem perseguição e controle do Estado.
Quero pensar junto contigo, leitora e leitor, sobre as trajetórias de pessoas e suas produções de conhecimento, num contexto de violência colonial secular. De um lado, mulheres e homens capturados que atravessam o Atlântico, desde a África, e reinscrevem na diáspora (no caso aqui Brasil e RS) outros mundos; de outro, objetos que cruzam o mesmo oceano, em direção à Europa, também sob captura violenta, que são submetidos ao silenciamento e à invisibilidade; e um terceiro, mulheres e homens que conseguem retornar para a Terra Mãe em busca de liberdade. Todos emergem do mesmo sistema colonial, desmembrando a única narrativa historiográfica negra escrava, incluindo os que se reconstroem em Terra Mãe, constroem mundos fora dela ou ainda são transformados em testemunhos interrompidos em Terra Colonial.
Essa tensão obriga a repensar que o tempo das tradições de matriz africana no Brasil, que não se tratam de resíduos do passado, mas de sistemas vivos, atravessou séculos, reorganizando sociabilidades, produzindo formas próprias de parentesco, de política, de estética e de conhecimento. O Batuque do Rio Grande do Sul, nesse sentido, não é apenas uma expressão religiosa: é uma formulação de sociedade negra.
Essa permanência, contudo, se dá em confronto com um projeto nacional que insiste em apagá-la. O Brasil construiu para si uma imagem branca, particularmente em regiões como o território sul-riograndense. Ao mesmo tempo, ele foi profundamente moldado por presenças africanas que estruturaram seus modos de vida. Há, portanto, um paradoxo: uma sociedade atravessada por epistemologias africanas que se recusa a reconhecê-las como fundantes, escondendo-as.
É nesse ponto que a Coleção Batuque se torna mais do que um conjunto de artefatos saqueados e deslocados. Ela é a evidência material de uma presença que foi considerada tão significativa a ponto de ser reprimida, apreendida e posteriormente musealizada na Europa. Seu aprisionamento não é um acidente, mas parte de um processo político e histórico de contenção e controle de saberes negros. No entanto, mesmo fora de seu território de origem, mesmo guardados desde então nos porões de um museu alemão, os objetos da coleção continuam a carregar inscrições de mundos que não foram destruídos.
Se africanos retornados nos mostram que a diáspora não é somente o espargimento, mas também retorno, a Coleção Batuque nos ensina que o deslocamento não é sinônimo de apagamento, e sim de memória. Há uma persistência que escapa. Uma continuidade que se reorganiza, que se reinventa, que se atualiza nas práticas contemporâneas dos terreiros, nas cosmologias que seguem operando, nos corpos que mantêm viva uma memória que não é apenas lembrança, mas ação e, que ao se deparar com as imagens dos objetos, reifica, confluem na experiência afro-diaspórica, que é complexa e cheia de novos tempos, portanto, caminhos.
Pensar conjuntamente retornados e Coleção Batuque é reconhecer que a história afro-diaspórica não pode ser narrada apenas a partir da perda. Trata-se, antes, de uma história de permanência sob constante violência e conflito, de criação sob censura e vigilância, de existência sob negação e genocídio, com beleza, apesar disso tudo. E, talvez, seja justamente essa capacidade de permanecer — mesmo quando tudo conspira para o seu desaparecimento — uma das mais profundas transformações operadas pelas tradições de matriz africana na sociedade brasileira.
A escolha de articular estas trajetórias vai além de um recurso narrativo. Representa um gesto metodológico, estético e político-intelectual afrodiaspórico, ou, como diria Lélia Gonzalez: amefricano. Por um lado, trata-se de afirmar, com base histórica e sociológica, que o Rio Grande do Sul possui uma tradição de matriz africana de longa duração. Tornar visível essa continuidade não é apenas um exercício de memória, mas uma disputa sobre o próprio entendimento de sociedade. Reconhecer o Batuque como presença histórica é admitir que outras formas de organização social, de produção de conhecimento e de relação com o mundo sempre estiveram em operação neste território.
Portanto, se há disputa, é porque aquilo que tentaram conter nunca deixou de existir e tem poder — mudou de forma e segue, ainda hoje, reorganizando o mundo. Assim, o axé, que é o nosso fundamento, não se perde — se desloca, se reinventa e retorna pela memória e ancestralidade, sempre confluindo ao centro.
Nina Fola, mãe de Aretha e Malyck, é multiartista, socióloga, atuante nos coletivos @afroentes, @coletivoatinuke e @odaba.br. Aborda a questão de raça e gênero em todos os seus trabalhos acadêmicos, artísticos e profissionais. Gestora do @cavalodeideias, uma consultoria em diversidade e inclusão onde faz palestras e formações. (@ninafola)
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