
(em honra, empréstimo e epígrafe a Luigi Pirandello)
Breve resumo:
Retomamos aqui breve encenação, na tradição da Comédia Dell’Arte tratando daquilo que, se não é vero, é bene trovato. Os personagens Maximiliano [M], oficial reformado da Marinha Brasileira, com patente de Almirante de Esquadra, e Jaime [J], professor universitário, vinculado a instituição federal de ensino superior, no grau de professor-titular de um departamento vinculado às ciências humanas, partilham leitos, lado a lado, em Unidade de Cuidados Intensivos de um hospital de classe média alta de uma grande cidade brasileira. Na parte anterior desta encenação, depois de haverem confrontado opiniões e visões de mundo, o que os levou a sucessivos estranhamentos, tentam agora encontrar temas que conduzam a um terreno de compartilhamento e convívio, mas sem muita convicção de partida – mas, afinal, não têm outro lugar para onde ir… A encenação se conclui, na miragem de 25 de outubro de 2026.
J: Eu começo nessa tentativa de busca de terreno comum (pausa): PAZ.
M: Eu concordo! Todo militar sabe que a guerra é, no fundo, um caminho para a paz. Mas paz SEM humilhação, sem desrespeito. Então proponho RESPEITO.
J: Eu concordo! Respeito ao direito do outro EXISTIR. Respeito à VERDADE.
M: Todos nós temos vivido movidos à produção de mentiras. A mentira como arma de combate. Proponho o PRINCÍPIO do RESPEITO À VIDA.
J: Proponho o PRINCÍPIO DO RESPEITO à NATUREZA.
M: Proponho o PRINCÍPIO DO RESPEITO ao BRASIL.
J: Proponho o PRINCÍPIO DO RESPEITO A CONDIÇÕES MÍNIMAS DE CIDADANIA PARA TODOS.
M: Proponho o PRINCÍPIO DO RESPEITO às FORÇAS ARMADAS EM SEUS QUATRO PILARES, a HIERARQUIA, a DISCIPLINA, a OBEDIÊNCIA intracorporação e a obediência à PÁTRIA acima de TUDO e TODOS.
(Silêncio longo).
J: Acho que ainda não desenhamos no chão um lugar possível onde conviver, mas estamos mais perto, não acha, Almirante?
M: Mais ou menos… Por dentro de cada coisa que cada um disse, mora a ameaça dos entendimentos e interpretações diversos.
J: Há também o perigo da infiltração da má-fé. Não somos santos. Muitos de nós são do mal e transformarão em merda tudo em que tocarem.
M: Mas aqui e agora convivo com a ideia de que você NÃO É do mal, e nem está tentando me ludibriar – apesar de estar ERRADO quanto a um tanto de aspectos.
J: Digo de você a mesmíssima coisa. A questão é: o terreno de convivência esboçado aqui sobrevive ao mundo real dos que não estão com a morte no horizonte próximo?
M: … e mesmo nós: esse terreno de convivência sobrevive ao dia seguinte a 25 de outubro, quando um de nós terá seu candidato derrotado e outro candidato eleito vencedor?
Luzes se intensificam, entra em cena a enfermeira para os cuidados de praxe.
Blackout
ATO III – Vida que segue
A situação de saúde de ambos os personagens se agrava. Não estão mais conscientes.
Estamos na noite de 25 de outubro de 2026, finalização da contagem dos votos do segundo turno das eleições majoritárias no Brasil.
Voz de locutor: E atenção Boletim do Tribunal Superior Eleitoral acaba de ser divulgado e informa acerca da conclusão da totalização da contagem dos votos válidos para presidência da república…
[Som e luzes arrefecem completamente. Abre-se foco sobre o Cego Tirésias, em primeiro plano.
Cego Tirésias: Pra quem não me conhece, sou o Cego Tirésias, em participação especial aqui, fugido do script da tragédia grega Antígona, de Sófocles. Na esperança, com este meu exemplo, de que vocês, brasileiros, fujam da própria tragédia.
(O Cego Tirésias toma um copo d’água, trazido pela enfermeira da encenação, tempera a garganta e continua.)
Cego Tirésias: Neste momento em que me dirijo a vocês, o ato III dessa pantomima ainda não se terá consumado. Mas, seja ele qual for, TRÊS coisas podem ser ditas aqui e agora – até porque elas deverão ser ditas de novo tão logo o futuro vire presente. E as três persistirão tragicamente válidas.
PRIMEIRO: Nenhum país se define, se confirma e se limita a seus HERÓIS, e nem tampouco a seus VILÕES, BANDIDOS, ANTI-HERÓIS. Não será por eles, apesar deles ou graças a eles que a história de vocês sofrerá inflexão decisiva. Cabe a vocês, povo brasileiro, costurar o futuro no tear da luta de todos e cada um.
(O Coro se manifesta):
Coro: Cabe a vocês, povo brasileiro, costurar o futuro no tear da luta de todos e cada um!
SEGUNDO: a demonização de uns e de outros, vencedores ou perdedores, perdedores ou vencedores, somente servirá para dissipar uma energia preciosa, que vocês não terão como repor. Vocês, Jaimes e Maximilianos, não precisam passar a se apreciar minimamente – basta que preservem o contexto de respeito a um dos princípios que não conseguiram esboçar, mas segue válido: estão todos na mesma Nau Brasil.
Coro: Estão todos na mesma Nau Brasil!
TERCEIRO: A noite desse dia histórico já se vai e surge um novo dia. Novo não tanto pelo tanto de esperança compartilhada – o dia nasce com um país dividido e às voltas com emoções díspares. Novo simplesmente porque abre um capítulo inédito (apesar das inevitáveis repetições) numa história que se escreve a todas as mãos e que prossegue.
Lembrem-se do que lhes falei em outro texto: doce é dar ouvidos a quem nos fala, se é para nosso proveito.
Coro: Doce é dar ouvidos a quem nos fala, se é para nosso proveito.
Um grupo de enfermeiras entra em cena, dançando ao som de “Apesar de você”, com cartaz de pedido de manutenção de apoio à causa do piso salarial das enfermeiras brasileiras, no novo tempo que se anuncia.
Os monitores de Maximiliano e Jaime emitem o som continuado e lúgubre dos que deixam essa vida.
Cego Tirésias: a vantagem desse país é que eles sempre podem carnavalizar.
Coro: Sempre podem carnavalizar!
A iluminação intensifica, o refrão de “Apesar de você” soa cada vez mais alto: “Amanhã, vai ser novo dia…”.
FIM
Leia a Parte 1 e Parte 2 aqui.
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