
“Pelo fato de ser mulher negra, com deficiência, lésbica ou periférica, vários recortes nos cortam os corpos e os sonhos”
Maria Inês Barcelos
Hoje quero falar sobre o livro Vozes da Resistência Ancestral (ALEXA Embu das Artes-SP, 2025). Organizada por Cristina Ribeiro, Ivonete Carvalho, Simone Barros de Oliveira e Patrícia Krieger Grossi, a publicação traz escritos de 16 mulheres. Há pouco mais de um ano recebi o convite para escrever o prefácio. E agora, no final de julho de 2026, o livro bateu na minha porta. Bonito, bem editado, com uma capa incrível e textos muito bons, inquietantes e verdadeiros. Então, resolvi dividir com os leitores da plataforma Sler o que escrevi depois da leitura de tantas vozes que ecoam, ensinam e emocionam ao descortinar um universo de luta e resistência, tão necessário!
Quando a ancestralidade se impõe, as raízes se solidificam.
Fui tomada pela emoção quando recebi o convite para escrever o prefácio do livro. Emoção que tomou proporções incríveis a cada texto que eu lia – pela transparência, pelo enfrentamento de questões vitais para uma vida digna, pela diversidade e pela consistência das vozes das autoras. Cada relato traz a força da ancestralidade que inspira suas vidas pessoais, familiares e profissionais, estimulando a resistência necessária e urgente. São vozes potentes que não negam suas dúvidas, seus medos, suas dores e a invisibilidade cruel que enfrentaram desde que os primeiros navios aqui chegaram, trazendo negros da África para escravizar. Vozes que precisaram se juntar e lutar pela sobrevivência quando a elite brasileira, depois de usar e abusar da força de trabalho do povo negro, o jogou à própria sorte, através de uma abolição que os colocou na rua, sem as mínimas condições para garantir a sobrevivência. O ‘país cordial’ foi cruel, mas a ancestralidade falou mais alto.
Ao reconhecer que foram e ainda são alicerces deste país, os negros hoje mostram e reafirmam o seu protagonismo. Reagem ao preconceito de qualquer natureza e se manifestam de diversas formas em vários espaços, através da educação e de movimentos sociais, culturais e artísticos fortes. Promovem ações que enfrentam o racismo estrutural que ainda reverbera no Brasil. Solidificam suas raízes ancestrais, expandindo a herança que preservaram através da luta cotidiana, do trabalho, da parceria, da escrita e da arte, apesar dos inúmeros boicotes sofridos ao longo de séculos. Olhar e celebrar a diversidade que nos constitui como nação é olhar com orgulho para as misturas que nos constituem como povo, uma conquista de quem enfrenta a discriminação com sabedoria, olhando sem medo para a sordidez do opressor. E nesse campo a escrita surge forte, voltada para histórias que poucos contam.
Recomendo uma leitura atenta, porque as vozes que reverberam no livro descortinam um novo tempo. Um tempo que joga luzes nesta caminhada e aponta para a riqueza humana. Riqueza que se traduz em respeito e inclusão de todas as diferenças. Os sonhos, a determinação e o protagonismo que encontrei nesta leitura são faróis e certamente vão abrir e iluminar os caminhos das próximas gerações.
“Não há vida com limite preestabelecido. Seu lugar é aquele em que você sonhar estar”, escreveu o ator, diretor e ativista Lázaro Ramos no livro “Na minha pele” (Editora Objetiva, 2017). E é!