
Um recorte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua sobre características gerais dos domicílios e moradores, baseado em 168 mil entrevistas, foi divulgado nessa última sexta-feira, 17, pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que realça o envelhecimento da população brasileira. Por meio dele, é possível sabermos que
· De 2012 a 2025, a parcela de pessoas com menos de 30 anos passou de 49,9% para 41,4%, havendo um crescimento populacional em todas as faixas etárias acima dos 34 anos.
· O grupo dos que têm 60+ avançou de 11,3% para 16,6% da população brasileira em 13 anos.
· Enquanto a região Norte se mantém mais jovem, as regiões Sudeste e Sul apresentam concentrações maiores de idosos. Nestes locais, 18,1% de suas populações têm mais de 60 anos.
· Houve aumento de 109% no número de pessoas que moram sozinhas no Brasil em 13 anos. Segundo o IBGE, são 15,6 milhões de pessoas morando sozinhas no país. Entre todas as 7 milhões de mulheres que moram sozinhas no país, a maioria tem 60+ (56,5%). Boa parte dessas mulheres teve que se adaptar ao lar unipessoal após perderem entes queridos e verem filhos se mudarem; uma parcela ainda também preferiu não gestar.
Qual é a novidade?
Na verdade, de substantivo, nenhuma. Desde a década de 70, estamos acumulando previsões sobre o envelhecimento populacional mundial e brasileiro e, a cada pesquisa e censo divulgado, elas se concretizam.
No Censo de 2022, se teve notícias sobre esse novo panorama demográfico e de que logo ali não só a nossa população vai parar de crescer como o processo de envelhecimento irá se expandir. Entre as nossas 27 capitais, 55% já apresentavam mais pessoas idosas do que jovens. No país, já tínhamos dois estados em que as pessoas 60+ superavam a população jovem: Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. São Paulo, a maior cidade do país, já registrava 103 pessoas com mais de 60 anos para cada 100 pessoas jovens.
Qual é o lobo que você alimenta?
Para muitos que fazem essa leitura, esses dados são preocupantes. Responsabilizam pessoas idosas, “inativas”, pelos problemas na Previdência, por exemplo. Falam, em caos nas aposentadorias. Poucas soluções, a não ser a de cada vez mais restringir acesso a direitos, é a que tem se entendido como a possível. O olhar da limitação e de redução tem sido o fio condutor.
Certas pessoas vêm, há tempos, iluminando caminhos. Uma delas é José Eustaquio Diniz Alvez, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia, que, no último dia 16 de abril, escreveu um excelente artigo para a Folha de São Paulo intitulado “A economia da longevidade”.
Como há anos vem fazendo, novamente ele anuncia que, ao contrário de tratar esses tempos como de apocalipse e catástrofe por conta do envelhecimento da população, é possível transformar essa transição demográfica em sinônimo de status de bem-estar e prosperidade.
Em um outro artigo seu, conta que, na Europa, 90% do aumento de trabalhadores na última década — 17 milhões de pessoas a mais empregadas — adveio de um aumento no número de trabalhadores com mais de 50 anos, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Japão, a proporção é ainda maior. Em ambos os lugares, os trabalhadores mais velhos já são o principal impulsionador do crescimento do PIB.
Dale um, dale dois, dale três bônus demográfico!
Precisamos assumir que teremos uma imensa maioria de população longeva e – com base nessa realidade – atuar para nos tornar um país de bem-estar, produtivo e próspero. Como? Como o professor José Eustaquio sinaliza, entendendo a natureza e aproveitando-nos dos bônus demográficos que se colocam diante de nós, como sociedade.
Primeiro bônus demográfico – o Brasil está vivendo uma mudança de fase, saindo do “bônus demográfico”, quando há uma maior proporção de pessoas jovens e adultos que trabalham e contribuem com a Previdência, e entrando na fase de “ônus demográfico”, quando o número de pessoas idosas é maior, o que pode impactar a economia e o sistema de saúde. Ainda vivemos um período dessa janela do bônus demográfico, mas que, pelos números aos quais temos tido acesso, está se fechando. Não temos aproveitado as oportunidades deste momento.
Segundo bônus demográfico – também chamado de “bônus da produtividade”, ele não é transitório. Se houver investimentos em educação, saúde, infraestrutura, ciência, seus efeitos são contínuos e permanentes. Por meio destes investimentos, é aumentar a produtividade do trabalho, oportunizando que a economia cresça com menor uso de recursos humanos e ambientais, compensando a redução da força de trabalho.
Terceiro bônus demográfico – também chamado de “bônus da longevidade”, é quando saímos do paradigma da “sociedade que envelhece” e entramos no da “sociedade da longevidade”, que acumula experiência, compartilha saberes, troca conhecimento. Uma sociedade que trabalha para extensão da vida com qualidade e autonomia, acrescenta vida aos anos.
A chave para o sucesso
O que nos faz perceber o envelhecimento populacional como uma “bomba populacional”, uma mazela da sociedade, um problema sem solução para o futuro, é o idadismo. Sob as lentes míopes do idadismo, não conseguiremos, como sociedade, compreender como uma sociedade com maioria de pessoas mais velhas poderá ser tão boa quanto uma com maioria de pessoas jovens e nos preparar para ela, a partir de agora.
Precisamos eliminar o idadismo que está na nossa sociedade, interno, interpessoal e institucional. Ele está nos impedindo de crescer e melhorar.
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