
Tempos atribulados. Momento histórico, onde o Brasil mostra mais facetas do que estão querendo transformar o mundo. Enquanto isso, várias narrativas do contexto são jogadas no ventilador. E, como o cenário é complexo, cheio de camadas, tudo depende do olhar, do cérebro, de quem sabe analisar e interpretar.
Quem recebe informações só de uma mesma bolha não consegue enxergar o quanto pode ser manipulado. Quem está convicto de que o problema é o fulano ou o sicrano, também pode estar emaranhado em redes e teias de péssimas intenções. Desconfio que um dos problemas em que estamos metidos é o que estão fazendo para nos posicionarmos ou não nessa briga entre a razão e a emoção, onde a segunda parece estar mais forte na disputa, arrancando aplausos e encenações.
Com as telas e as redes sociais nos mandando um passado não tão recente sendo esquecido e, principalmente, com o fortalecimento de uma extrema direita fascista, fica difícil trocar ideias, debater, ouvir opiniões que não são da linhagem civilizatória em que estamos acostumados.
Pode ser ingenuidade, ou quem sabe incredulidade, se indignar por um empresário gaúcho ter doado R$2,5 milhões para a campanha ao governo do Estado de um sujeito que dissemina ódio e valores impensáveis em pleno século 21. Ou então ver o quanto candidatos que são bem-intencionados ainda estão com a cabeça no século passado.
Em nenhum debate ou propaganda política de candidatos ouvi falar em adaptação ou planos para diminuir os efeitos das mudanças climáticas. Alguém viu algum jornalista indagando candidatos sobre esse tema? Enquanto isso, notícias sobre um super El Niño rondam, deixando os antenados apreensivos.
Tá indeciso? Já pensou no que é inegociável? O que pode mudar, piorar ou melhorar? Essa eleição está diferente, estranha. Suspeito que tenha gente amedrontada, com medo de se expressar por aqui. E se a tortura dos anos de chumbo voltar?
Fiquei tocada ao ler que o veículo independente Tapajós de Fato abriu mão de cobrir estas eleições por medo de represálias. Desde 2021, quando começou a investigar a venda ilegal de terras em um assentamento no Pará, a equipe vive sob ameaças. Teve a cabeça de um gato decapitada. E uma jornalista do veículo foi atacada a faca a 30 metros da redação. Hoje, jornalistas estão sendo obrigados a trocar de casa, de cidade, e passam meses sem visitar a própria família em Santarém. Em 2024, já tinham recuado das eleições municipais. “Quando é melhor não falar, por sobrevivência, quem perde é a sociedade.” A frase é do coordenador de projetos do site, João Paulo Serra, e resume o problema todo.
Conforme uma postagem do veículo, em uma pesquisa realizada foi constatado que seis entre dez veículos deixaram de publicar reportagens por medo de represálias.
Por aqui, o que temos é uma imprensa que ignora ou não publica muita pauta importante para não desagradar anunciantes ou poderosos. É importante lembrar que o silêncio de uma redação não é algo neutro, como salienta o pessoal do Tapajós de Fato. E quem perde não é só quem procura fazer jornalismo. É quem depende dele pra saber o que está acontecendo no próprio território.
É triste também não termos veículos que paguem jornalistas decentemente ou que contratem pessoas para investigar assuntos que são decisivos para o bem comum, para prestar serviços à coletividade. Esse é um baita problema que quase ninguém fala. Nossa democracia está em risco e muito assunto que deveria ser esmiuçado não é, porque o sistema de financiamento da imprensa, a publicidade, tudo mudou depois que as redes sociais e seus algoritmos começaram a mandar no coração e na mente de usuários. Ah, e que fica cada vez mais complicado com o avanço das bets nos espaços comerciais e até de cultura.
É corriqueiro os veículos se deterem naquilo que interessa ao sistema que movimenta poder e dinheiro. Afinal, é isso que faz girar o ambiente do Capitaloceno. Até porque a dona Maria e o seu José pouco entendem o que significa essa situação no Supremo Tribunal Federal. Os ritos e o espetáculo são mais valorizados do que a missão da instituição. E tem gente que acredita que podemos viver muito bem sem o STF. Mas como o Judiciário funciona em outros países?
O que está por trás de tudo isso exige mais que conhecimento; requer repertório para entender como se dão as relações entre esses fumadores de charuto, frequentadores de eventos da machosfera.
É difícil não se deixar abater por um contexto tão enfadonho, que provoca repulsa sobre o que a imprensa e seus colunistas focam com suas lanternas. Claro que sempre se procura um bode expiatório, um culpado para apontar e colocar na sala. Porém, há tantos interesses e camadas em jogo, que há incertezas e nebulosidades que até os mais experientes ficam surpresos com os acontecimentos. Ou alguém em 2016, quando a Dilma foi afastada da presidência, imaginou que teríamos situações como a de 8 de janeiro de 2023?
Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI.
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